quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Filme: O Clube de Dallas (2014)

O Clube de Dallas é uma narrativa interessante e importante que não está sem as suas falhas, contando com duas brilhantes actuações de Matthew McConaughey e Jared Leto para se provar uma agradável surpresa. 

Em Dallas, 1985, Ron Woodroof (Matthew McConaughey), um electricista, é diagnosticado com o vírus da Sida e com apenas trinta dias para viver. Ron recorre a um medicamento experimental para prolongar a sua vida, mas quando os efeitos secundários trazem complicações, Ron decide atravessar a fronteira mexicana para experimentar um medicamento alternativo. Ron melhora e decide trazer o medicamento para a sua terra, onde, com o seu amigo Rayon (Jared Leto), forma um clube destinado a ajudar outros na mesma enferma situação.

Após vinte anos à espera no papel, a história de luta e da força de sobrevivência de Ron Woodroof ganha finalmente vida em O Clube de Dallas pelas mãos de Jean-Marc Vallée. O filme não é um de paixão imediata; a sua narrativa não é engrandecedora, nem extravagante. Não tem um momento de êxtase claro; antes, é um trabalho estritamente linear que doutrina sem opinar, que acusa sem apontar. A batalha de Ron contra o vírus da Sida, a sentença médica e o sistema farmacêutico é interessante, mas é a sua transformação moral e a sua eventual aceitação das múltiplas condições sociais que dita a qualidade de O Clube de Dallas. Com os pés de volta à terra após o diagnóstico da doença e a consequente marginalização social, Ron deixa cair a sua homofobia, começando a compreender e a aceitar aqueles a quem passa a ser comparado.

Ron faz o necessário para sobreviver por mais tempo que aquilo que lhe foi formalmente comunicado. Os trinta dias transformam-se em meses e os meses em anos. Habituado aos rodeos onde arriscar é indispensável, Ron vai à procura de um tratamento alternativo, viajando até ao México e até outros países para trazer medicamentos não aprovados, ou mesmo ilegalizados, nos Estados Unidos. É neste contexto que surge o Clube de Dallas, um clube de automedicação que proporciona tratamentos alternativos àqueles afligidos pelo vírus da imunodeficiência. É igualmente aqui que Ron conhece e aprende a aceitar Rayon, alguém que representa tudo aquilo que Ron, no passado, no seu grupo, tratava com escárnio. O Clube de Dallas é tanto sobre a crítica política e social como sobre uma transformação moral que, embora alimentada pela circunstância, não carece de menor enaltecimento.

Matthew McConaughey e Jared Leto, fisicamente dedicados, oferecem duas interpretações memoráveis e carregam O Clube de Dallas nos ombros. Matthew McConaughey tem, discutivelmente, o melhor desempenho da sua carreira; uma transformação física considerável que se conjuga com a recriação notável de Ron Woodroof com maneirismos e idiossincrasias cativantes. A prestação de Matthew McConaughey é poderosa, emocionante e transformadora. Jared Leto é analogamente impressionante. O seu habitual ar de descontraído rockstar desaparece completamente debaixo da personagem ostentosa e maravilhosa de Rayon. A qualidade da interpretação de Jared Leto é total quando Rayon, vestido num fato de homem, parece completamente estranho e desajustado.     

Estas duas actuações elevam um filme que, com menor intensidade e qualidade interpretativa, poderia cair na armadilha da banalidade. Não que a história não seja suficientemente válida para se justificar a si mesma; puramente, a forma como é tratada e decomposta nas suas partes é demasiado corriqueira para se destacar de semelhantes diligências. Jean-Marc Vallée faz um bom trabalho atrás da câmara e a sua realização não é de forma alguma inferior; cresce, todavia, a sensação de que O Clube de Dallas, como um todo, não está ao nível das louváveis interpretações dos seus protagonistas, inevitavelmente maiores que o próprio filme. O que quer que esteja em falta – quiçá uma mais robusta e tocante sensação da exclusão social que Ron Woodroof experiencia – não descredibiliza este trabalho. Nem o torna menos obrigatório. Como é, O Clube de Dallas é já uma conquista. 

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


Trailer:



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