quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Filme: Cavalo de Guerra (2012)


Cavalo de Guerra é uma incrível jornada. Dramático, divertido e deslumbrante, percorre a crueldade da Primeira Guerra Mundial enquanto mantém um pendor de redenção, bravura e improbabilidades benditas que o transformam num trabalho incontornável e memorável.

Em Devon, Inglaterra, o jovem Albert Narracott (Jeremy Irvine) assiste ao nascimento de um potro de puro-sangue. Albert acompanha o crescimento do potro e fica encantado quando o seu pai o compra numa feira local. Dando-lhe o nome de Joey, Albert ensina-o, com muito esforço e dedicação, a trabalhar no campo (abrindo regos com uma charrua), assim tentado salvar o seu pai das dívidas que o afligem. Mas quando uma tempestade destrói tudo o que Albert e Joey conseguiram, e ao mesmo tempo que é declarada guerra à Alemanha, o pai de Albert não tem outra solução senão vender Joey ao exército. Albert despede-se com profunda tristeza de Joey, prometendo que voltarão a reencontrar-se. Joey parte numa longa jornada pela Primeira Guerra Mundial, contrariando destinos e tocando várias vidas.

O Cavalo de Guerra é o raro filme que consegue combinar vários elementos e tirar o melhor partido de todos eles. As primeiras imagens do filme, acompanhadas por uma soberba e emotiva banda sonora de John Williams, dão logo a sensação de um grande filme a caminho. O primeiro acto – até Joey ser separado de Albert – é uma obra-prima. É encantador, magistralmente filmado e eximiamente representado. Particularmente carinhoso, este primeiro acto concentra-se em mostrar o fortalecimento da relação entre Albert e Joey, ambos teimosos e arrojados. E ainda bem que o faz, pois é afinal a relação entre Albert e Joey que é o coração de toda a história.

O segundo acto, no entanto, não consegue ser tão primoroso quanto o primeiro, se calhar porque a privação da relação entre Albert e Joey é, no início, difícil de aceitar. E quando, de repente, Joey já se encontra numa carga contra forças inimigas, nada resta ao espectador do que temer pela sua sobrevivência. Mas este é um cavalo miraculoso, como várias personagens repetem ao longo do enredo. Sobrevive todas as adversidades e leva-nos por uma jornada incrível que põe a olho nu todas as ramificações de uma horrorosa guerra, desde ao afecto entre dois jovens irmãos, soldados alemães, que procuram escapar à batalha, à ternura e ao desembaraço de uma menina francesa, órfã de pai e de mãe, que vive com o seu avô numa quinta com um moinho de vento. Ainda que tocante e bem executado, este segundo acto resulta inferior ao primeiro por comportar uma mudança abrupta no desenrolar do enredo, uma que exige tempo e espaço para construir e conquistar afecto de novas personagens.

Mas depois surge o terceiro acto, compreendendo os últimos momentos da guerra e recuperando a admirável execução do primeiro acto. A visão das trincheiras (sobretudo numa espantosa cena em que Joey percorre-as de um lado ao outro) é impecável. Mas mais do que a visão das trincheiras, são os ambíguos sentimentos de medo e coragem dos soldados nelas presentes que tornam cada momento ali passado especial e perturbante. Joey é o elo de ligação entre tudo isto. «Cavalo de Guerra, que estranha criatura te tornaste» diz um soldado a Joey. É incrível que esta seja na realidade uma metáfora inteligente para a crua condição humana no tempo de guerra. Enquanto os soldados parecem desumanizar-se, Joey parece cada vez mais humano. E é Joey que acaba por ser a bandeira de esperança e milagre que mostra que a paz e a amizade são alcançáveis (como excelentemente representado numa cena em que dois soldados, um inglês e outro alemão, põem as adversidades de parte e unem esforços para libertá-lo de uns arames farpados que o aprisionam e torturam).

Steven Spielberg está em Cavalo de Guerra ao seu melhor nível. Une o drama que dominou magistralmente n’A Lista de Schindler à terrível espectacularidade das batalhas em O Resgate do Soldado Ryan. Todos os elementos de produção à volta estão irrepreensíveis. As paisagens são deslumbrantes, a fotografia é impecável (e que bela contra-luz na última cena) e os cenários e o guarda-roupa são perfeitos. Jeremy Irvine dá uma promissora actuação.

Baseado quer no livro infantil War Horse, quer na sua adaptação ao teatro, o Cavalo de Guerra é um trabalho magnífico. Encontra-se nomeado para seis Óscares da Academia, incluindo Melhor Filme. E é efectivamente um dos filmes do ano. É uma lição sobre a bravura, a lealdade e a amizade. Joey liga vidas distintas durante guerra e, no fim, liga-nos também a esta incrível e emotiva viagem.


CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas


IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1568911/

Site Oficial: http://www.warhorsemovie.com/

Trailer:

2 comentários:

  1. Este post foi referenciado, criteriosamente, no âmbito de uma rubrica no meu blogue. Aqui: http://caminholargo.blogspot.pt/2013/09/a-pergunta-da-resposta-6.html

    A propósito, convido também a tentares resolver/reflectir sobre a pergunta e a resposta em questão.

    Cumprimentos,
    Jorge Teixeira
    Caminho Largo

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    Respostas
    1. Olá Jorge!

      Grato pela menção.

      Terei todo o gosto em participar no desafio!

      Cumprimentos,

      André Olim

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