quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Filme: Oldboy - Velho Amigo (2013)

Sem ritmo, com baixos níveis de suspense e com Josh Brolin em baixo de forma, Oldboy – Velho Amigo é um remake sofrível que não trabalha as suas personagens e que desperdiça e torna incredível a história de origem.

Joe Doucett (Josh Brolin) é um pai alcoólico e irresponsável que provoca conflitos e mal-estar por todo o lado. Certo dia, durante uma das suas intensas bebedeiras, Joe desaparece. Joe acorda num quarto de hotel que lhe serve de prisão durante 20 anos, ao fim do qual é inesperadamente libertado. Com sede de vingança, Joe procura o responsável pelo seu cativeiro e pela morte da sua mulher, ao mesmo tempo que procura saber o que aconteceu com a sua filha. Mas o jogo e as razões do seu captor são maiores e mais antigas do que Joe imagina.

Oldboy – Velho Amigo, um remake do homónimo filme sul-coreano de 2003 de Park Chan-wook, que por sua vez se inspira na homónima manga japonesa, pouco faz para justificar a sua existência. Privado de suspense e sem uma exploração decente e sustentada da sua personagem principal, Oldboy – Velho Amigo, quando não se lança numa frenética rotação kill-billiana, mais parece uma das ocasionais investigações da série Casos Arquivados, um case-of-the-week que dispensa introduções à linha narrativa principal e que recorre a apresentações sucintas de enquadramento e de circunstância. Joe surge como uma personagem oca e indefinida, pontuada por momentos fugazes que apontam para um indivíduo problemático, pretensioso e irresponsável, sem qualquer consequência para a conotação moral de que este filme de Spike Lee necessita para fazer razão de si mesmo.

Joe é encarcerado sem ter decorrido o tempo necessário para a satisfatória assimilação dos traços da sua personalidade e é libertado do seu cativeiro sem ter decorrido o tempo suficiente para mostrar e comprovar as suas certamente inúmeras privações, aflições e reflexões. Vinte anos parecem passar por Joe num ápice, sem que ele mesmo se pareça dar conta disso. A alegada redenção que completa neste período é de passagem ainda mais efémera, reduzida a algumas linhas em voice-over das cartas que vai escrevendo para a sua filha. Por via de uma montagem desnecessariamente apressada, onde não escapam alguns notórios erros de continuidade, Joe nunca justifica perante o espectador toda a panóplia de características que apresenta quando se encontra finalmente livre. Que Joe experimente um qualquer não visto surto de absolvição e de retaliação durante o seu cativeiro não é de todo inaceitável, mas que se transforme subitamente num herói vingativo com poderes especiais é um salto de fé maior do que a reza das pernas.

A história de Oldboy – Velho Amigo, que é praticamente fiel ao original, embora o novo setting, não está em causa, antes a maneira amorfa e sem ritmo como Spike Lee a recicla no grande ecrã, desperdiçando sucessivamente conceitos e oportunidades de aperfeiçoamento. Spike Lee desbarata de tal forma a história que a torna algo ridícula e incredível. Não ajuda a sua realização a toada melodramática das suas abordagens tentativamente sérias, envolta na música descontextualizada, ainda que bonita, de Roque Baños; nem as performances sofríveis de Josh Broslin e Sharlto Copley. Josh Broslin aparece perdido e espalhado ao comprido no seu registo, enquanto Sharlto Copley, na tentativa de criar uma personagem estranha e memorável, cria uma personagem absurda. Samuel L. Jackson é igual a Samuel L. Jackson nos papéis menos convencionais: algo interessante, mas sem espaço para mais.          

Oldboy – Velho Amigo oferece alguns bons momentos de acção consequentes da sede de vingança e do carácter de justiceiro implacável de Joe. No global, contudo, este remake é um filme sofrível que resulta menos muito menos inteligente do que se julga e se apresenta. Certamente não se fundamenta perante o seu causador.
  
CLASSIFICAÇÃO: 1,5 em 5 estrelas


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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Filme: A Vida de Adèle (2013)

A Vida de Adèle, do franco-tunisino Abdellatif Kechiche, é um extraordinário trabalho de exploração do carácter, da sexualidade e da transição da fase adolescente para a fase adulta, onde Adèle Exarchopoulos tem um desempenho memorável. Um dos filmes do ano. 

Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma jovem estudante do liceu, começa a ter dúvidas sobre a sua sexualidade. Não querendo assumir aquilo que é, Adèle tenta manter as aparências, mas sem resultado. Um dia, Adèle conhece Emma (Léa Seydoux), uma artista plástica e gráfica com um misterioso cabelo azul, com quem inicia uma tórrida relação. A entrada de Adèle na vida adulta acarretará, todavia, problemas que Adèle não antecipa e que podem por em causa tudo aquilo que alcançou. 

Adaptado pelo realizador Abdellatif Kechiche do romance gráfico Le Bleu est une couleur chaude de Julie Maroh, A Vida de Adèle é um tour-de-force sobre o renascimento do Eu, onde a sexualidade, camada a camada, é decomposta na sua forma mais crua e primitiva para criar uma mensagem contundente sobre a escolha, ou incapacidade para ela. Neste olhar descomprometido, Adèle, que é introduzida ao espectador na recta final da sua adolescência, surge como um indivíduo tentativamente normal, à procura da normalidade e da maneira habitual de fazer as coisas. Começando a compreender que encarcera notórias diferenças em comparação com o seu grupo, Adèle ouve por alto as conversas das suas amigas sobre os rapazes do seu liceu e nada sente quando um deles mostra interesse por ela, interesse que chega a vias de facto para seu desconsolo e desconforto. Adèle percebe por fim que é diferente, mas, não sabendo como lidar com essa constatação, deprime-se e fecha-se sobre si mesma.  

Certa noite, Adèle deambula até um bar gay para testar o seu grau de integração. É nesse bar que Adèle volta a encontrar Emma, uma rapariga de cabelos azuis que lhe previamente chamara a atenção numa rua. Logo desde a primeira interlocução, Adèle e Emma entendem-se às mil maravilhas; Emma é o refúgio que Adèle precisa entre os dois mundos no qual tem um pé, mas nenhuma real presença. Adèle e Emma iniciam um romance tórrido que cresce para algo mais maduro e sólido. Adèle parece finalmente na expressão máxima da sua felicidade, sensação que Abdellatif Kechiche traduz excelsamente nos momentos que Adèle e Emma partilham num bonito e reservado jardim. O jardim podia perfeitamente ser o mundo dos sonhos de Adèle, porquanto ali tudo lhe parece possível. Todavia, Adèle rapidamente descobre que o seu novo mundo é tão igual ao seu anterior; os problemas são os mesmos e a conjugalidade homossexual enfrenta os mesmos desafios que qualquer outra relação.

Enquanto coming-of-age, A Vida de Adèle retrata sapientemente a viragem da vida adolescente para a vida adulta. Adèle, que se apresenta maioritariamente solitária, nunca consegue integrar-se completamente no meio adulto, nem tão-pouco no meio artístico e instruído de Emma onde os diálogos são cheios de interpretações ambíguas e intrincadas. Emma, por seu lado, não realiza o esforço para integrar Adèle neste meio, sugerindo até a Adèle que tente a escrita e abandone a educação de infância. Embora Adèle seja a musa para o trabalho de Emma, Emma nunca lhe dá o devido mérito, aceitando que Adèle se fica reduza a um inglório papel de dona de casa. Não obstante o relativo assumir da sua sexualidade, Adèle, que se sentira primeiramente isolada e prisioneira no liceu, volta a experimentar tais estados na companhia de Emma. Fica patente que o maior problema de Adèle nunca fora a sua sexualidade, mas a maneira como aparece desligada e desinteressada à frente das pessoas.    

Com o cabelo desgrenhado e o ar eternamente compenetrado, Adèle Exarchopoulos é perfeitamente genial no papel de Adèle. Este é um filme que se alimenta da sua performance e que se pinta com a sua frontalidade. Adèle carrega uma força emotiva rara no cinema, capaz de transmitir mil e uma sensações e pensamentos com mero recurso ao rosto e à gesticulação. É impressionante a forma como verdadeiramente enrubesce numa discussão, ou como as lágrimas e o ranho lhe descem com naturalidade num choro compulsivo. Poucos dirão que esta é mais actuação do que experimentação, ou que a força motriz por detrás da sua capacidade representativa seja meramente impulsiva: é-lo na realidade, provando-se dedicada e sentida. Adèle mostra-se confortável na sua pele e não faz passar mal-estar nas verdadeiramente explícitas cenas de sexo. Do outro lado, Léa Seydoux mostra-se bastante competente. Ainda que não brilhando tanto quanto Adèle, a prestação de Léa é forte e laudável, criando uma Emma com o seu encanto e charme, que se destaca muito para além do cabelo azul de saltar à vista.
   
Abdellatif Kechiche consegue um filme fenomenal e inspirado com A Vida de Adèle. A sua realização, embora a longa duração, nunca perde foco nem sentido das inúmeras mensagens que pretende reflectir (muitas mais do que uma única visualização permite descortinar), demorando o tempo que é necessário demorar para desenvolver camada a camada, fala a fala, as suas personagens e o rumo da sua narrativa. O tempo passa de forma imperceptível e, do nada, três horas decorrem como que num zás e Adèle transforma-se de uma jovem rapariga para uma jovem mulher. O mérito de Abdellatif Kechiche, mais do que na forma como a sua câmara acompanha Adèle ou como não se coíbe à crueza das cenas explícitas, reside na espontaneidade com que faz passar uma narrativa que, nas suas temáticas, é complexamente estratificada.   

A Vida de Adèle, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, é definitivamente um dos filmes do ano e um que ainda vai fazer correr muita tinta, tanto não seja pela maneira como termina a sua maratona e deixa em aberto a possibilidade de uma futura continuação.  

CLASSIFICAÇÃO: 5 em 5 estrelas


Trailer: