
Certo dia, enquanto caminha à procura de
inspiração para uma música, Jon (Domhnall Gleeson) encontra-se com uma banda
desconhecida que acaba de perder um dos seus elementos para o concerto dessa
noite. Espontaneamente, Jon oferece-se para preencher a vaga. Frank (Michael
Fassbender), o estranho líder da banda, aceita. Mais tarde, após se terem
separado e ficado sem contacto, Frank convida Jon para integrar a banda no
retiro onde gravarão o novo álbum e onde Jon terá uma das experiências mais
estranhas da sua vida.
Maioritariamente
inspirada na carreira musical de Chris Sievey e no seu alter-ego Frank
Sidebottom, mas também em figuras como as de Daniel Johnston e de Captain
Beefheart, a deliciosamente cómica, sinistra e surreal história de Frank transporta a audiência pelas
contemplações de uma banda alternativa com a inflexão de uma experiência tão
bizarra quanto a genialmente descoordenada música de Frank e da sua
impronunciável banda Soronprfbs. Através dos olhos e das considerações de Jon,
a audiência conhece a cada rasgo de demência a brilhante loucura de Frank, da
sua vincada personalidade, dos seus estranhíssimos hábitos. Aprende que Frank,
debaixo do seu fato de genialidade e da sua cabeçorra de plástico, vive
perturbado, porventura preso à infância, embrenhado num modo e numa visão da
vida e das coisas diferente. Tão diferente que gera sobre si um inescapável
magnetismo que atrai o desejo, a necessidade de escapismo e de preferência de
todos à sua volta. Recém-chegado e pouco integrado na banda, Jon sente este
magnetismo como mais ninguém, rapidamente se tornando dependente da aprovação e
do favoritismo, sensação que o espectador, compenetrado nos maneirismos e na
originalidade musical de Frank, se permite partilhar.
Jon, todavia,
não consegue efectivar-se como um membro de
facto. Embora confinado a um espaço reduzido e isolado durante meses em
Vetno, na Irlanda, Jon não se desliga do mundo virtual, do mundo social onde
procura crescer, afamar-se e acreditar-se. Não se torna no transeunte que começara
por ser, que todos os membros da banda parecem ter começado por ser. Convencido
da qualidade de Frank e do potencial dos Soronprfbs, Jon documenta cada passo
do interregno criativo da banda. A crítica do realizador Lenny Abrahamson a uma
audiência cada vez menos participativa e exageradamente focada na documentação
virtual da sua vida e das suas experiências fica bem vincada. Em vez de se
integrar verdadeiramente na banda e no seu estilo, Jon vive para as suas
actualizações virtuais, para os tweets,
para os hashtags e para as
visualizações. A documentação de Jon do trabalho e do processo criativo dos
Soronprfbs leva-o eventualmente a receber um convite para uma actuação no
festival alternativo South by Southwest. Jon vibra, sem se aperceber que os
Soronprfbs se calhar não existem para actuações em grandes espaços, mas para
pequenos e escuros bares, quiçá de reputação duvidosa, onde a audiência se
compõe (mal) por ouvintes ocasionais e acidentais. Sem se aperceber que a
fragilidade a ligar os Soronprfbs é como os fios entrelaçados que compõem uma
tela velha; tal como com o quadro que resulta nessa tela, a banda é para ver (e
viver) sem se lhe tocar.
Quem diria que
Michael Fassbender tinha uma voz tão predisposta para a interpretação musical.
A sua voz torna o realismo e a credibilidade de Frank mais robustos. Debaixo da cabeçorra de Frank, Michael
Fassbender oferece uma interpretação hipnotizante, descontraída e divertida. A
expressividade que coloca nos seus diálogos faz com que a cabeçorra que lhe
cobre o rosto pareça, embora imutável, sempre diferente. Domhnall Gleeson
continua a marcar pontos na sua carreira em ascensão com mais uma interpretação
sólida, encontrando espaço para se destacar entre a performance excêntrica de
Michael Fassbender e a actuação rigorosa de Maggie Gyllenhaal, que surge como o
elemento mais desequilibrado, mais desestabilizador e mais autêntico da banda.
Filmadas com som ao vivo, as fantásticas e tresloucadas actuações dos
Soronprfbs provam a dedicação do elenco aos seus respectivos papéis e a
conivência com a visão de Lenny Abrahamson para a invulgar narrativa. A
qualidade de Frank resulta da entrega
e da crença de cada um deles com o resultado final, mesmo que o fim, não o
adequado desfecho, mas o receptáculo para ele, desbarate a alucinação conjunta.
Mas até este corriqueirismo lhe fica bem, pois como Frank, o músico, coloca a
dado instante em mais uma das suas inspiradas observações, caras normais também
são estranhas. E Frank é afortunadamente
estranho quando é normal e normal quando é estranho.
Sem comentários:
Enviar um comentário