quinta-feira, 12 de junho de 2014

Filme: Só os Amantes Sobrevivem (2014)

Jim Jarmusch escreve e realiza Só os Amantes Sobrevivem com inflexão filosófica e com pertinente comentário cultural em que o vampirismo é um adorno de requinte. Tom Hiddleston e Tilda Swinton, com uma química agradável, apresentam-se em grande plano.

Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton) são dois vampiros, antigos amantes, que voltam a reencontra-se nos tempos actuais. Adam vive de forma recôndita em Detroit, produzindo música que, assim como ele, nunca chega a conhecer a luz do dia, enquanto Eve se dedica a explorar e a conhecer o mundo. Quando regressam um ao outro, Adam e Eve despoletarão no reverso sentimentos antigos e sentimentos novos.

O apelo de Só os Amantes Sobrevivem não é pronunciado e pouco permite discorrer, categoricamente, sobre o género desta história. Categorizar Só os Amantes Sobrevivem é um exercício em vão, porquanto o argumento de Jim Jarmusch, que também o concretiza, não se cinge a uma estrutura narrativa regular. A realização aparentemente metódica esconde uma realidade sobejamente mais interessante, em que a humanidade, zombificada aos olhos dos nossos vampiros, é alvo de crítica e de censura. Para Adam, que parece ter tido uma certa influência na produção de algumas das maiores figuras da história, de escritores a compositores, a humanidade revelou-se sucessivamente incapaz de se apropriar correctamente das melhores mentes e das melhores ideias, optando por soluções comparativamente mais fracas e sem potencial. Na desertificação de Detroit, outrora a cidade do motor, do fordismo e o pulmão da produção norte-americana, Adam vê senão com dissabor que a humanidade se encontre em fase de plena decadência e de algum obscurantismo, onde a única coisa que parece ressalvar-se sem sobremaneira é a música, por sinal a sua paixão-mor.  

Adam teme igualmente a influência que a decadência da humanidade, dos seus mal-amados zombies, está a ter na sua espécie. Quando Ava, irmã de Eve, surge inopinadamente de Los Angeles, antro de aliteracias, Adam reconhece toda a inconsequência e falsa despretensão que aflige a humanidade – e que até contaminou o seu outrora nutritivo sangue. No decurso da sua avidez, Ava destrói toda a música e todo o espólio musical de Adam, que perde a sua fé e se vê, enfim, derrotado pelos tempos. Eve parece mais disposta a aceitar a mudança e a empreendê-la quando necessário. A vampira, que tem a capacidade de saber a idade e a origem de tudo o que toca, sabe que tudo tem o seu tempo e o seu lugar no desenrolar dos acontecimentos. Até mesmo a sua espécie imortal. Para Eve, as contrariedades de Adam não são uma fatalidade, mas antes uma oportunidade para tomar um novo caminho, para voltar a influenciar a humanidade – quanto não seja para tornar o seu sangue novamente puro. Eve sabe que a herdança cultural a que Adam tanto se agarra não está completamente perdida; reside noutros cantos, cantos como Tânger, num simples bar de rua.


O mérito de Jim Jarmusch reside na forma como despe esta história de vampiros de todos e quaisquer corriqueirismos. Só os Amantes Sobrevivem é uma narrativa refinada, culturalmente ciente e rica. Embora Jim Jarmusch mantenha o espectador no escuro quanto ao propósito e ao destino da sua história, a sombra narrativa, bem à maneira do ambiente noctívago do vampirismo, não abomina nem aflige. É cativante. Tom Hiddleston e Tilda Swinton afincam-se às suas personagens com dedicação inabalável. Tom Hiddleston entrega ao seu Adam a compleição de um músico torturado, enquanto Tilda Swinton transforma lentamente Eve numa vampira fascinante e misteriosa. A caracterização dos dois amantes, com os penteados insurrectos, as roupas fora de época e os marcantes óculos escuros, é um ponto de relevo. A selecção musical a cargo da banda SQÜRL, do próprio Jim Jarmusch, combinada com a música original de Jozef van Wissem, cria a aura estética que definitivamente torna Só os Amantes Sobrevivem numa experiência imersiva. A visualização do filme requer o comprometimento total do espectador, particularmente na parte inicial em que o ritmo, que nunca é propriamente ágil, demora a arrancar. Todavia, se o espectador estiver disposto, poderá dar por si mordido e transformado pela experiência.                   

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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quinta-feira, 5 de junho de 2014

Filme: Maléfica (2014)

Embora amaldiçoado por efeitos visuais em excesso, Maléfica consegue transformar um conto clássico numa história fresca e viva, pontualmente deslumbrante, com Angelina Jolie absolutamente enfeitiçadora.

A fada Maléfica (Angelina Jolie) vive em Moors, uma terra recheada de criaturas mágicas que faz vizinhança com um reino humano. Quando o humano Stefan (Sharlto Copley) trai Maléfica para se tornar rei, a fada decide protege Moors a todo o custo e vingar-se de Stefan com uma maldição sobre Aurora (Elle Fanning), a princesa recém-nascida. Com os anos, Aurora revela-se muito diferente do que Maléfica esperava, mas pode ser demasiado tarde para corrigir o seu erro.

Depois de Alice no País das Maravilhas em 2010 e de A Branca de Neve e o Caçador em 2012, a Disney continua em 2014 a sua aposta na conversão para carne-e-osso dos seus clássicos de animação com Maléfica. A história de Bela Adormecida é quiçá um dos contos de fada mais conhecidos, um que a versão de animação da Disney de 1959 reproduz fielmente. Nesta versão de carne-e-osso, o realizador estreante Robert Stromberg assume sem medo a introdução de uma reviravolta na famigerada história. Maléfica, a personagem, uma das vilãs mais icónicas dos contos de fada, não é em Maléfica, o filme, a representação maligna que lhe atribuímos. Mostra-se capaz do melhor e do pior, da bondade e da tirania, da vingança e da justiça. As reacções e os diferentes estados de Maléfica provam que a sua alma é intrinsecamente humana, fadada a comportar-se por impulso e pelo momento, característica que a torna mais relacionável com o público.

Esta dicotomia entre o heroísmo e a maleficência mostra a tendência recente para colocar em campo cinzento os tradicionais heróis e vilões. Por um lado, sugere que a bravura e a bondade não são tão fáceis de atingir quanto os contos clássicos fazem crer; por outro, aponta para as oportunidades de redenção ao alcance de todos. Embora a indefinição deste campo cinzento crie complexidade numa história de campos simples – o Bem e o Mal –, Maléfica mantém simplicidade na sua narrativa; afinal, parte do seu público-alvo, se não todo, é o mais jovem. Talvez por essa razão, Maléfica nunca chega a ser tão negro quanto alguns momentos sugerem que possa vir a ser e o humor abunda muito mais do que se imaginaria (maioritariamente indexado às três fadas-madrinhas da Princesa Aurora).           

A reviravolta na história amplia a utilidade desta versão de Robert Stromberg, mas ajuda (ou, melhor, importa sobejamente) que no papel principal esteja Angelina Jolie. Da dicção suave e enternecedora ao tom ameaçador e endiabrado, Jolie veste a pele de Maléfica com uma interpretação assinalável. É a mais-valia do filme e eventualmente a principal razão para a sua visualização. Os efeitos visuais à volta de Jolie não são imersivos o suficiente para lhe reduzir o destaque, mas apresentam-se excessivamente trabalhados para as necessidades da narrativa. Robert Stromberg tem uma experiência longa enquanto artista de efeitos visuais e director de arte em filmes como Avatar, Alice no País das Maravilhas e Oz – O Grande e Poderoso; a influência de tais projectos é aqui evidente. A região mágica de Moors, com as suas criaturas fascinantes, é deslumbrante e encantadora, mesmo no período mais negro que procede a fase obscura de Maléfica; o reino humano, por outro lado, é menos surpreendente e simpático, parecendo, curiosamente, mais artificialmente fabricado (o CGI nos grandes planos do castelo do Rei Stefan é indesejavelmente óbvio).


Robert Stromberg procura com alguma religiosidade provocar o conflito e o momento de acção, onde o seu talento pode ser exponenciado. Todavia, são os instantes pausados e ternos, envolvidos na bonita orquestra de James Newton Howard, que vendem esta adaptação. Toda a infância da Princesa Aurora reflecte esta sensação: Maléfica torna-se empática, a narrativa torna-se pela primeira vez envolvente e há até espaço para Vivienne, filha do casal Jolie-Pitt, brilhar. Capaz de entreter miúdos e graúdos, Maléfica só não é excepcional porque Robert Stromberg teme tratar a sua câmara com a devida meiguice.

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Filme: No Limite do Amanhã (2014)

O acto final banaliza-se e desilude, mas não retira hombridade a No Limite do Amanhã, um filme maioritariamente capaz e perspicaz com uma premissa capciosa. Tom Cruise e Emily Blunt fazem uma agradável dupla.

Invadida por uma misteriosa raça alienígena que ameaça varrer tudo da face da Terra, a raça humana une-se para criar uma frente militar comum contra o inimigo. Após cinco anos de luta, e com a Europa à beira da derrota, surge a primeira conquista e a primeira esperança. Quando o Major William Cage (Tom Cruise) é surpreendentemente enviado para a frente de batalha e captura o poder da raça alienígena para voltar atrás no tempo, a esperança pode transformar-se na vitória final.

No Limite do Amanhã desenvolve a sua premissa com inteligência e astúcia, refreando-se dos esclarecimentos e exposições recorrentes que não raras vezes retiram mérito e sagacidade ao género. No Limite do Amanhã explica cada uma das suas particularidades apenas uma vez, e apenas uma vez basta para que avance na sua história sem a sensação de repetições excessivas e fastidiosas. Note-se que é de repetições que se constrói a premissa; o realizador norte-americano Doug Liman tudo faz para evitar, dentro da premissa da repetição, repetir-se. Neste aspecto, No Limite do Amanhã é exímio, mostrando uma perspicácia notável e uma montagem engenhosa. Num mise-en-scène em que dominam grandes planos de acção, o apreço pelo detalhe e pela lógica tornam No Limite do Amanhã excepcional.

Com humor e momentos dedicados às personagens à mistura, a história, adaptada da série japonesa de light novels All You Need Is Kill de Hiroshi Sakurazaka, avança a bom ritmo sem sobressaltos. A inspiração de filmes como O Feitiço do Tempo ou Looper – Reflexo Assassino é óbvia. Do primeiro, No Limite do Amanhã retira a coerência e o timing, enquanto da segunda retira a lógica científica e a vassalagem dos planos de acção ao enredo. Parece também haver um aceno a Matrix, com as criaturas alienígenas a lembrar as máquinas assassinas que ameaçam Zion no capítulo final da trilogia dos irmãos Wachowski. Lamentavelmente, No Limite de Amanhã parece ser atingido por um raio de banalidade e falta de criatividade à entrada do último acto. Qualquer inovação e sagacidade que existissem são trocadas por uma sequência de acção insonsa e redundante, revelando alguma preguiça da parte de Doug Liman e dos argumentistas Christopher McQuarrie, Jez Butterworth e John-Henry Butterworth para concluir a história com a mesma esperteza e consideração dos actos anteriores.

Este indiscutivelmente inferior acto final impede No Limite de Amanhã de ser tornar verdadeiramente memorável. Não transforma o num mau filme, mas impede-o de se transcender. Embora Doug Liman falhe reconhecer o potencial da narrativa e tome as escolhas erradas para a conclusão do seu trabalho, a sua realização é maioritariamente segura e bem-intencionada, com um equilíbrio saudável entre o elemento humano e o elemento de ficção científica. Depois de um menos sucedido e olvidável Esquecido, Tom Cruise surge No Limite de Amanhã em melhor forma (quiçá motivado pelo incrivelmente apetrechado exosqueleto), ou pelo menos com maior compromisso, ao lado de uma inspirada e graciosa Emily Blunt, a britânica transformada no trunfo do filme.

Além de um acto final menos conseguido, o epílogo de No Limite de Amanhã lança incertezas sobre a lógica da narrativa, acto derradeiro que é marcadamente desnecessário e evitável. No que ao género da ficção científica diz respeito, o filme fica muito perto de ser uma lufada fresca e revigorante. Não atinge a plenitude da sua promessa, mas surpreende assaz para merecer a sua visualização.

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 22 de maio de 2014

Filme: X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (2014)

Bryan Singer regressa ao mundo de X-Men com um capítulo maioritariamente enérgico e entusiasmante com uma extensa parada de personagens e caras conhecidas, pecando por uma definição pouco clara do seu antagonista e por alguns momentos caóticos.

Num futuro distópico, a raça mutante encontra-se perto da exterminação às mãos de Sentinelas, robôs criados para identificar e eliminar o gene mutante. Os X-Men, liderados por Magneto (Ian Mckellen) e pelo Professor X (Patrick Stewart), são o último ponto de resistência, mas a guerra está perto de ser perdida. A consciência de Wolverine (Hugh Jackman) é enviada para o passado para reverter o futuro, passado em que os jovens Magneto (Michael Fassbender) e Professor X (James McAvoy) se encontram de costas voltadas.

Quando o género cinematográfico da acção baseada em super-heróis de banda-desenhada ainda não era a galinha dos ovos de ouro que hoje incontestavelmente é, nem se legitimava como um de alguma qualidade, Bryan Singer surpreendeu em 2000 com X-Men, o primeiro filme de uma saga cada vez maior que fez reemergir o género. Após um segundo filme, e enquanto o género florescia, Bryan Singer e a saga seguiram caminhos opostos. Famosamente, Singer tentou sem sucesso reavivar Super-Homem, enquanto a saga de X-Men pareceu perdida após X-Men: O Confronto Final, ambos em 2006. Contribuindo posteriormente como argumentista para X-Men: O Início, a prequela para o seu original de 2000 que pretendeu injectar a saga com frescura e vida, Singer regressa agora em pleno com a realização de X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido.

Nesta sequela/prequela, Singer reúne o melhor de X-Men original e de X-Men: O Início, onde o elemento agregador é nada mais nada menos que a personagem mais conspícua e carismática de toda a saga, o Wolverine de Hugh Jackman. Através dos olhos de Wolverine, a existência paralela das personagens de X-Men original com as de X-Men: O Início não se torna confusa nem pesada. A premissa da narrativa é simples: corrigir o passado para evitar o futuro. Todavia, tal como acontecera em X-Men: O Início, a narrativa é mais ambiciosa do que a mera premissa, integrando acontecimentos históricos como o assassinato de JFK e a guerra do Vietnam (Nixon também está presente!), bem como os referentes sentimentos de desconfiança e revolta. A ambiência funciona para lançar um véu de suspeita governamental sobre a raça mutante e a criação do programa de Sentinelas que no futuro mudará drasticamente a face do mundo. Embora a reacção governamental à raça mutante faça sentido, a motivação de Bolivar Trask, que serve de antagonista da história, carece de uma explicação lógica e credível.   

A realização de Bryan Singer transparece todo o seu entusiasmo por voltar a ditar o caminho da saga. Mais do que nunca, Singer parece no domínio de todo o universo de X-Men, de todas as suas particularidades, potencialidades e limitações, combinando acção vibrante com humor aguçado e momentos de carácter. Singer controla-se relativamente bem no acto final, não exagerando na acção desmiolada de que padece o género. Alguns dos seus planos, como um que envolve o poder de velocidade de Quicksilver, ficam no olho. O elenco de X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido é vastíssimo, com o maior destaque para Hugh Jackman e Jennifer Lawrence; entre cameos e representações menores, algumas personagens perdem-se na amálgama de caras conhecidas, mas para os fãs mais acérrimos qualquer vislumbre é um bónus. Mais inquietante para estes fãs serão algumas discrepâncias assinaláveis na cronologia dos eventos da saga.

Não sendo perfeito, X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido é uma lufada revigorante numa saga de altos e baixos. Bryan Singer consegue com a narrativa restaurar a continuidade no mundo de X-Men, abrindo alas para novos capítulos, com composições de elenco distintas. A sequela, X-Men: Apocalypse, já está assegurada, mas é provável que desta história resultem outras ramificações. Se continuar entregue a Bryan Singer, o mundo cinematográfico dos mutantes está salvaguardado.

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Filme: Godzilla (2014)

Nem sempre um reboot é feito com o mérito e o respeito devido, mas Godzilla, de 2014, caminha tranquila e altivamente com um trabalho carregado de suspense e criaturas assombrosas, onde gojira figura majestosamente, pecando apenas por um arranque desastroso e por personagens banais.

Em 1999, nas Filipinas, numa escavação mineira de urânio, duas grandes estruturas biológicas designadas por MUTOs são acidentalmente descobertas. Uma das estruturas desmorona-se e algo sai lá de dentro, alojando-se numa central nuclear no Japão onde o engenheiro Joe Brody (Bryan Cranston) é forçado a uma acção de sobrevivência. Quinze anos mais tarde, Joe continua a investigar o incidente na central nuclear e confidencia ao seu filho Ford (Aaron Taylor-Johnson) que um monstro pode ter sido o responsável. Joe e Ford mal adivinham que se encontram à beira de uma batalha pré-histórica entre MUTOs e o lendário gojira.

Saído de filmes de série B, Gareth Edwards entra directamente na produção de um grande blockbuster com determinação e vontade inabaláveis. O seu desafio não é para menos: renovar o Rei dos Monstros com um ar mais actual, mais imponente e aterrador. Gareth Edwards mostra-se à altura do desafio. Quando gojira surge finalmente do mar, gigantesco e majestoso, sob um rugido temível em crescendo, o trabalho do realizador britânico, pelo menos no que diz respeito ao seu primeiro desafio, parece completo e triunfante. Criado pelos “mágicos” da Weta, que mais recentemente foram responsáveis pela maravilhosa criação de Smaug – O Terrível no segundo filme da trilogia O Hobbit, gojira é a verdadeira estrela do filme e a única que, numa narrativa com tantas personagens humanas, quiçá honestamente interessa.

A principal preocupação neste reboot é o tempo que Gareth Edwards desperdiça em narrativas de teor secundário a que dá excessivo destaque. É naturalmente importante criar emoção e expectativa através dos olhos de personagens que o espectador conhece e pelas quais se preocupa, aumentando o efeito de ansiedade e suspense de que um filme neste género vive. Infelizmente, o argumento de Max Borenstein não desenvolve as suas personagens para além de veículos de exposição e de acção com o mero propósito de os colocar no centro dos acontecimentos. O problema é mais evidente na primeira parte do filme, uma parte sem ritmo e interesse que lida pessimamente com as personagens humanas. Abençoado gojira, que em boa hora chega para salvar a narrativa, corrigir a trajectória e entregar o necessário ritmo, suspense e agitação.

Neste Godzilla há espaço para desenvolver a mitologia do Rei dos Monstros, que se revela criativa e curiosa, retirando inspiração do Monstro de Loch Ness e oportunismo dos inúmeros testes nucleares que decorreram durante e após a Segunda Guerra Mundial. A plausibilidade de toda a história é questionável, mas é um salto de fé importante, senão obrigatório. As inspirações de Gareth Edwards continuam. A cena de abertura de Godzilla numa central nuclear no Japão, depois de um breve momento numa gigantesca mina nas Filipinas, lembra o terror e o medo vivido recentemente na central nuclear de Fukushima, enquanto o descontrolo sentido após a fuga dos MUTOs trás à memória o Parque Jurássico. Naquela que é provavelmente a sequência mais magnificente de todo o filme, em que um pelotão de tropas paraquedistas salta sobre a batalha de gojira, Gareth Edwards dá uso ao tema Danúbio Azul do compositor austríaco Johann Strauss II, famosamente ouvido em 2001: Odisseia no Espaço, com um efeito espantoso.


Bryan Cranston tem um papel mais reduzido em Godzilla do que se esperaria – ou se desejaria -, mas é o bastante para que a sua interpretação se confirme a mais forte e a mais dedicada. As interpretações da dupla Aaron Taylor-Johnson e Elizabeth Olsen, que em breve também figurará na sequela de Os Vingadores, são aceitáveis, com Taylor-Johnson a evidenciar-se como uma estrela de acção com potencial, enquanto as de Ken Watanabe e Sally Hawkins parecem marginalizadas. O enredo de cada personagem e uma montagem a espaços desafinada constituem os elementos mais fracos de Godzilla. Não obstante estes, brilhantemente filmado, com elevados níveis de suspense, com gojira entre fumos, escuridão e destruição maciça em planos principais e segundos planos e com a formidável música de Alexandre Desplat, este reboot é na verdadeira essência um evento que provavelmente dará início a uma saga. Corrigindo os erros aqui expostos e mantendo o que de bom foi feito, será certamente bem-recebida.

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 8 de maio de 2014

Filme: Debaixo da Pele (2014)

Debaixo da Pele, de Jonathan Glazer, é uma projecção pouco corriqueira, uma que exige do espectador uma necessária predisposição para o abstracto. Scarlett Johansson é fascinante, mesmo quando o filme perde pujança.

Na Escócia há um ser alienígena (Scarlett Johansson) à solta, capturando homens transeuntes com o seu infalível poder de sedução. Monitorizado pelos seus pares, o ser alienígena executa o seu trabalho impavidamente até ao momento em que a sua emprestada feminilidade pode colocar a sua desapiedada actuação em dúvida.

Debaixo da Pele é como nada que se tenha visto recentemente no grande ecrã. Jonathan Glazer, reconhecido pelo seu vasto currículo em videoclipes e spots publicitários, aborda a história homónima de Michel Faber com um estilo marcadamente distinto, com um visual profusamente enigmático e encolhido em que o nosso mundo, através dos olhos de uma entidade alienígena, é pardacento e melancólico, distante da organização social que caracteriza o ser humano. Nesta aparente desorganização social, o predador alienígena protagonizado por Scarlett Johansson captura as suas presas com relativa facilidade, sem nada que na organização humana proteja ou se dê conta da falta de um dos seus membros. Este ser alienígena actua como um louva-a-deus fêmea, trazendo a morte ao seu parceiro sexual sem pingo de remorso ou hesitação. Silencioso e astuto na sua avaliação, o ser alienígena detecta fragilidades e reconhece os elos mais fracos.

Jonathan Glazer inverte a tendência das comuns narrativas e torna o seu enredo o menor expositivo possível. Os diálogos são parcos – os que tomam lugar são meramente de circunstância -, e a história, tal como num videoclipe, avança visualmente, ao som de música desconcertante e sugestiva de Mica Levi. O espectador é forçado a interpretar, a retirar sentido de cada cena, de cada acontecimento, sob o risco de perder o fio à meada e de nada compreender. Jonathan Glazer apoia-se fortemente na inteligência da sua audiência; a sua aposta funciona pela maior parte, mas a linha que Glazer caminha é magra e inclinada, a narrativa perdendo-se quando a sugestão visual perde virilidade e qualidade. Este momento acontece algures na segunda metade, altura em que o ser alienígena se parece apiedar e se acercar da condição humana da sua nova pele. Neste momento de piedade, o ser alienígena abjura-se da sua frialdade ao reconhecer um elemento da organização humana que se sente tão extraterrestre no mundo quanto ele, e começa a sentir, a preocupar-se e a amar. Infelizmente, Glazer não consegue dar o mesmo tratamento estético e sensorial a esta vertente mais delicada da narrativa.


Scarlett Johansson é perfeitamente sedutora e hipnotizante enquanto o ser alienígena que serve de veículo-mor para a narrativa de Debaixo da Pele. O papel é uma escolha valente por parte da actriz norte-americana. O filme vive da sua actuação, da sua capacidade para transmitir na rigidez obrigatória do rosto, no olhar calculista e indiferente do ser alienígena, uma história, uma introspecção e uma mudança. É fácil compreender a tentação de Jonathan Glazer para montar toda a película à volta de Johansson e é o que o realizador britânico efectivamente faz, colocando Johansson sempre em primeiro plano no rico panorama escocês. É uma obstinação que se lhe perdoa bem, embora o seu capricho custe na segunda metade do filme, onde o menor pendor visual retira suspense, mistério e atracção. Metaforizando a partir do próprio filme, a menor habilidade do ser alienígena para continuar a seduzir as suas presas espelha-se na menor habilidade de Debaixo da Pele para deslumbrar a sua audiência, disposição que ulteriormente coloca o filme num limbo entre o superno e o vulgar.          

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 1 de maio de 2014

Filme: Transcendence - A Nova Inteligência (2014)

Na sua estreia como realizador, Wally Pfister aborda o género da ficção científica sem o resultado desejável. Transcendence – A Nova Inteligência é na maioria um filme de nota insuficiente com um argumento e interpretações incompletas.  

Quando um grupo de terroristas cibernéticos atinge Will Caster (Johnny Depp) com uma bala envenenada com polónio num ataque coordenado contra centros de investigação de inteligência artificial, Evelyn Caster (Rebecca Hall) decide salvar o seu marido a todo o custo, nem que seja apenas a sua consciência. Após a sua morte física, Will vive nos zeros e nos uns, nos bites que dão origem ao vasto mundo cibernético, com repercussões inimagináveis para o mundo.  

Transcendence – A Nova Inteligência apresenta uma premissa extremamente promissora, particularmente para aquele cinéfilo, ou casual espectador, aficionado pelo elemento de ficção científica na sétima arte. Transcendence – A Nova Inteligência cumpre satisfatoriamente parte da sua premissa; todavia, algures ao longo da experiência cinematográfica – a primeira enquanto realizador do prévio director de fotografia Wally Pfister –, o filme defrauda parte da expectativa criada, tornando-se incapaz de brindar o espectador com um resultado apropriadamente fascinante. O problema com Transcendence – A Nova Inteligência não se resume à incapacidade do argumento de Jack Paglen para engatar, devendo também apontar-se a falta por vezes gritante de ritmo e de sentido na acção de certos elementos da narrativa.

À excepção de Will e de Evelyn Caster, as caras de Transcendence – A Nova Inteligência pecam por fraca caracterização e por pobre exposição de motivações. A título de exemplo, a fraca apreensão governamental ou a inexistente cobertura jornalística da nova superinteligência criada/originada por Will que ameaça mudar controlar o mundo não se cobre de muita lógica. Não se pretende nada no estilo de Michael Bay; um singelo reconhecimento dos pontos anteriores bastaria, mas nada tão redutor como a presença de um qualquer agente do FBI e de um pequeno contingente militar por que o filme opta. Pior do que o atrás analisado é a inserção na narrativa de um grupo de terrorismo cibernético que, mesmo que movido por uma causa concebível, se propala (ao contrário da superinteligência de Will) por comportamentos incompreensíveis.          

Este projecto de Wally Pfister tenta dar o ar da sua graça quando procura caminhos filosóficos e metafísicos para as questões da evolução humana, da consciência e do divino, aproximando-se da hipótese da simulação mais conveniente abordada em filmes como Matrix e A Origem. Embora interessante e relevante à sua maneira, esta abordagem não demonstra a mesma sagacidade, quiçá porque se distrai e concede demasiado tempo a narrativas de teor secundário. Na sua longa colaboração com Christopher Nolan, que aqui assume o papel de produtor executivo, Wally Pfister parece ter assimilado muito, mas claramente não assimilou a subtileza de Nolan no suspense mental. Mais do que qualquer outro, este é o ingrediente que mais falta faz no filme, que mais o impede da almejada transcendência cinematográfica.


As interpretações em Transcendence – A Nova Inteligência são insípidas, transparecendo que alguns no elenco não parecem acreditar completamente no seu papel, ou no sentido da sua linha de acção. A música de Mychael Danna revela-se bonita e apropriada. A realização de Wally Pfister tem os seus momentos altos, momentos em que a sua experiência enquanto director de fotografia se revela na íntegra. Como primeiro ensaio, Transcendence – A Nova Inteligência não é a tentativa mais bem-aventurada do agora realizador, mas deixa a ideia de talento bruto por explorar e aperfeiçoar. No todo, o filme não é o que poderia ter sido, o que indicava ser; se se refrear as expectativas, entretém q.b. e levanta uma ou outra inquietante questão.

CLASSIFICAÇÃO: 2,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Filme: Noé (2014)

Darren Aronofsky tenta manter a sua visão cinematográfica menos convencional em Noé, todavia, longo, desequilibrado e com interpretações assim-assim, esta adaptação do evento bíblico fica aquém das capacidades de Aronofsky para engendrar algo transcendente.    

Após a Criação e a morte de Abel pelas mãos de Caim, a Humanidade torna-se gananciosa, malvada e descrente. Noé (Russel Crowe), descendente de Seth, irmão de Abel e de Caim, profetiza um grande dilúvio que resultará no fim da Humanidade e que purificará a Terra. Inspirado pelo Criador, Noé constrói uma grande arca para abrigar todas as espécies do ar e da terra. Quando o rei Tubal-Caim (Ray Winstone) ouve sobre a profecia de Noé e a sua grande construção, todo o trabalho fica em risco.

Darren Aronofsky não é um realizador convencional. Quando pega em Noé, uma história conhecida e partilhada por gerações pelo mundo inteiro, Aronofsky não pode naturalmente ficar-se pela simples reprodução do acontecimento. A sua natureza não o permite, nem se coadunaria com o grosso da sua obra. Confrontado com tal inconveniente, Aronofsky introduz na história de Noé uma componente metafísica e mística que se compara ao seu anterior trabalho The Fountain - O Último Capítulo, componente essa que, embora não directamente presente no evento bíblico, se encaixa naturalmente na narrativa. O problema, todavia, e não obstante bem-intencionado, é que Aronofsky, procurando oferecer um blockbuster que ao mesmo tempo transmite a sua visão menos convencional, não consegue o desejável equilíbrio entre todas as suas interacções. Os momentos de acção de Noé não convivem com os seus momentos de reflexão, nem tão-pouco a provocação moral se insurge de forma estruturada e admissível.   
   
Aronofsky está no seu melhor quando questiona a natureza humana, a capacidade para o livre-arbítrio e a justiça da actuação divina. Nestes momentos do filme, o realizador norte-americano, munido do poder visual e sonoro e do conhecimento religioso, insiste obriga na reflexão e na dubiedade da mensagem que advém de um acontecimento catastrófico e segregacionista como o é o dilúvio. Este escapismo, ou tentativa de escapismo, vive e brilha enquanto Aronofsky não se resolve a entrar no campo da grande acção e do melodrama. Quando por fim muda a rotação, o realizador perde o instinto escapista, inventa demasiado e produz um terceiro acto que se corrói em mau drama, em reflexão fragmentada e intenção duvidosa. Da mensagem de movimento New Age à mensagem de cegueira religiosa, Aronofsky parece ironicamente perdido num oceano imenso de pré-ideias, sem terra à vista. O seu pombo de anunciação não chega, nem fica a sugestão de que alguma vez fosse chegar.

As interpretações de Noé apresentam-se tão fragmentadas quanto a direcção de Aronofsky, num registo do bom ao ruim a que quase ninguém escapa. Não é fácil vender momentos dramáticos que carecem de sentido e em Noé nenhum o consegue com relativo sucesso, embora o considerável esforço de Russell Crowe e de Emma Watson. A música de Clint Mansell, compositor predilecto de Aronofsky, cobre-se com a mesma mácula de que padece toda a produção. O seu pulso habitualmente certeiro não parece indicado para o projecto; a espaços, a sua música, ainda que com o seu encanto sonoro, é inegavelmente desajustada do evento cinematográfico, comportando-se como outro elemento desestabilizador para o efeito meditativo que esta adaptação de Noé tanto quer alcançar, e que tanto precisava ter alcançado. 

Enquanto adaptação bíblica, Noé é claramente um trabalho distinto que se atreve a ir mais longe. Infelizmente, vindo das mãos de Darren Aronofsky, não vai tão longe quanto deveria. O erro começa na blockbusterização, mas só provoca o maior impacto quando Aronofsky perde o fio à meada do seu tão famigerado escapismo.

CLASSIFICAÇÃO: 2,5 em 5 estrelas


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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Filme: Nebraska (2014)

Nebraska dá continuidade à abordagem da temática da família por Alexander Payne, que, novamente numa realização segura, se rodeia de fortes interpretações para filmar o seu trabalho mais terra-a-terra.

Quando Woody Grant (Bruce Dern) recebe no seu correio uma nota a dar conta de que foi o vencedor de um milhão de dólares, Woody, embora o alerta da sua família para o engodo, decide caminhar pelo seu próprio pé para reclamar o prémio. David (Will Forte), filho de Woody, resolve tirar alguns dias de férias para ajudar o seu pai na longa viagem, uma que, pelo caminho, os levará à terra-natal de Woody e a velhos amigos e familiares.   

Filmado num belíssimo enquadramento a preto e branco, de arquétipo corajoso, onde o cinzento é quiçá mais predominante, Nebraska é um filme de uma simplicidade tão matreira que, à superfície, pode parecer não ter muito a dizer. Todavia, Nebraska, na sua reflexão sobre a mundanalidade da vida, dos desejos e das escolhas individuais, carrega uma mensagem comovedora, nostálgica e auspiciosa sobre a derradeira etapa do ser humano. Nesta, Woody, velho, confuso e visivelmente arrependido (menos para ele próprio), representa alguém que, saturado da pasmaceira do seu dia-a-dia, se agarra à probabilidade mais ínfima de superação para alcançar e deixar na sua vida algum significado. Woody conta com a boa intenção e a louvável complacência do seu filho David para avançar nesta viagem de redescoberta e relembrança pela estrada.     

A viagem de Woody leva-o a reencontrar-se com o seu passado, com a família distante e com as pessoas da sua terra-natal. Woody, sem muito para dizer, não parece dar o menor interesse a nenhum dos anteriores – surge sempre baralhado e alheado -, mas é indisfarçável o seu regozijo, fisicamente contido, por ter um tão elevado e milionário prémio nas mãos, um que o torna na celebridade de que todos falam no seu longamente adiado regresso a casa. Em Hawthorne, Woody sente-se como o emigrante que triunfou lá fora e que regressa para demonstrar toda a sua ascensão. Pena que, de facto, o prémio não seja real e que a fantasia não ultrapasse o simples e senil devaneio nem o oportunismo vergonhoso das suas amizades e da sua numerosa família.

Nebraska mostra como laços tão antigamente fortes se quebram e enfraquecem com o efeito temerário do tempo. O reencontro entre Woody e os seus velhos amigos, bem como entre ele e os seus irmãos, é pontuado pelo silêncio de quem já não tem efectivamente nada em comum à excepção de memórias meias esquecidas que não servem mais do que mero veículo para curta conversa fiada. Mostra igualmente como um mundo de oportunidades e probabilidades tão grandes na fase inicial da vida se reduz num mundo tão pequeno e pouco ideal na recta final. Para o melhor ou para o pior, as decisões de Woody resultaram na vida e nas oportunidades possíveis. Acomodou-se e dificilmente mudaria alguma coisa.

Alexander Payne volta a focar-se na temática da família para alcançar outro grande trabalho. Se em Os Descendentes se debruçava sobre a fase intermédia da vida, onde as possibilidades são ainda abundantes, Nebraska está mais para a frente, mais para o fim, para a recta derradeira numa estrada constringida de escolhas e oportunidades. Em ambos os trabalhos reside, contudo, a ideia comum de que laços entre pais e filhos podem ser reforçados e retomados por via de um evento autónomo às suas acções. Payne realiza Nebraska como realizou Os Descendentes: com segurança, concentração e momentos de brilhantes contemplações paisagísticas, aprimoradas pela bela fotografia de Phedon Papamichael e pela encantadora música transicional de Mark Orton. Payne consegue uma vez mais uma performance maior do que o próprio filme do seu protagonista: Bruce Dern é nada menos que brilhante na sua interpretação de um homem desgastado pela vida, pelos maus hábitos e pelo remorso. Will Forte é igualmente apreciável enquanto o indulgente e benévolo David e June Squibb, enquanto mulher de Woody e mãe de David, marca cada cena com a sua constante desaprovação e com a sua língua afiada.   

A cena de fecho de Nebraska culmina todas as ideais e impressões da narrativa num acto libertador e superador. Nessa cena, Nebraska e o seu realizador comprovam-se concomitantes e íntimos com a sua mensagem, acção que se estende ao espectador que se poderá rever em algumas das vulgares reproduções do filme. Nebraska não poderia ser mais profundamente elementar e definitivo.   

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Filme: The Monuments Men - Os Caçadores de Tesouros (2014)

George Clooney apresenta-se em baixo de forma em The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, um filme inseguro que se revela surpreendentemente desinspirado e desinteressante, à margem dos seus próprios eventos.

Durante a 2ª Guerra Mundial, as forças nazis, ocupando grande parte do continente europeu, tomam posse de inúmeras obras de arte, que desviam em segredo para esconderijos desconhecidos. Frank Stokes (George Clooney), com apoio presidencial, decide reunir um grupo de especialistas, desde curadores de museu a historiadores da arte, intitulados The Monuments Men, para recuperar as obras perdidas conforme os Aliados vão libertando a Europa das forças inimigas. 

George Clooney tem vindo a revelar-se um realizador com mérito e talento, com a imaginação e a hombridade certas para isolar a sua posição de notoriedade dos seus resultados finais. Em The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, Clooney mostra-se surpreendente e lamentavelmente desinspirado, construindo uma história de bons rapazes fora do seu tempo que se desperdiça num limbo insípido entre a comédia acidental e o drama constrangedor. Em sua defesa, Clooney parece tentar uma homenagem às comédias militares que abundaram após a 2ª Guerra Mundial; nessa consideração, Clooney faz uma boa continência e uma boa réplica do humor por vezes absurdo e improvável que reina em referidos filmes.

Clooney atira o seu trabalho para um espaço de indecisão narrativa, não conseguindo optar pela comédia pura ou pela comédia de entoação dramática. No caso da história baseada em factos verídicos de The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, adaptada do livro The Monuments Men: Allied Heroes, Nazi Thieves and the Greatest Treasure Hunt in History de Robert M. Edsel, a narrativa pedia uma inflexão dramática mais forte, mais presente e mais interligada com os restantes périplos. Não o procurando, Clooney não consegue estabelecer empatia entre a audiência e as suas personagens, nem criar a necessária perturbação quando algumas delas se confrontam com real perigo, embora o potencial e o talento estejam lá para alcançar algo muito mais superior.

A história de um grupo de homens ligados às artes, de diferentes frentes, que se oferece com pouca oposição para constituir uma task-force delegada para recuperar obras de arte roubadas e desviadas por nazis poderia ser tomada por distintas perspectivas. A perspectiva escolhida por Clooney, que assina o argumento com Grant Heslov, é uma que resultaria pouco e o resultado final prova tal constatação prévia. Esta não é, afinal, uma aventura de um grupo de Indianas Jones, mesmo que a tentação seja encará-la dessa maneira. A ideia que sobeja é que este grupo chega tarde para a festa e que fica à mercê dos seus restos. O derradeiro falhanço de The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros é não saber transformá-los em algo profícuo.  

Quando a narrativa se apresenta em tal limbo e as personagens carecem de maior e melhor profundidade, servindo de mero veículo expositivo, não há elenco de luxo que consiga puxar pelos seus galões. Assim é o caso deste elenco, largamente subaproveitado e inferiorizado no seu talento natural, limitando-se, talvez porque também nunca reconheceu potencial no guião, a servir de receptáculo para uma versão maçuda das suas personagens. A direcção artística de The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros não é má; os cenários vibram com a reprodução da época e com a sublimidade das inúmeras e distintas obras de arte. O guarda-roupa recria impecavelmente a era e a fotografia de Phedon Papamichael, a par da música de Alexandre Desplat, reflecte melhor a ambiguidade entre a leveza e a sensação de aventura e o dramático e a sensação de perigo do que a própria narrativa.

The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros desilude na abrangência e na importância da sua história e entretém muito pouco. Irónico que, na ânsia da caça e da restauração de obras de arte, o filme tenha falhado fazer alguma coisa útil por ela. 

CLASSIFICAÇÃO: 2 em 5 estrelas


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Filme: Uma História de Amor (2014)

Uma História de Amor é um filme triunfante, belo e tocante que maravilha pela imaginação da sua narrativa, pelas fabulosas interpretações e pelas inúmeras mensagens e questões que partilha com a sua audiência. Um clássico! 

Num futuro não muito distante, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é homem solitário, separado da sua mulher, que escreve todo o tipo de cartas comemorativas como profissão. Certo dia, Theodore decide adquirir um novo sistema operativo munido com inteligência artificial, sendo introduzido a Samantha (Scarlett Johansson), a voz personalizada, adaptada às suas características, que o guia e organiza e por quem começa a sentir uma inopinada atracção. 

Spike Jonze já habituou o espectador à originalidade que permeia os seus trabalhos. Contudo, Uma História de Amor é um projecto que vai muito mais longe, muito mais ambiciosamente do que Spike Jonze alguma vez se permitiu. A premissa desta história futurística parece inicialmente difícil de se concretizar, de fugir à armadilha do insólito e de agradar particularmente. Desengane-se aquele que se confronta com tais conclusões precipitadas, porquanto Uma História de Amor é um trabalho profundo, dotado de poderosas reflexões sobre os relacionamentos humanos, o amor e a amizade, sobre o impacto que a tecnologia e o produto do próprio intelecto, superando-se ao seu criador, causa a montante, na sua gloriosa origem, modificando-se pelo leito abaixo até à sua inevitável libertação a jusante, em novo patamar evolutivo.

Através de comandos verbais, Samantha transforma-se paulatinamente de um mero e evoluído sistema operativo para uma verdadeira companheira (sim, diferencia-se em género) que, em simbiose perfeita, para além de organizar, motivar e ajuizar, oferece uma componente emotiva extraordinária, preenchendo o vazio emocional e a solidão compulsiva que assiste Theodore. É inegável que a tecnologia, encurtando distâncias, tem vindo a afastar os indivíduos no espaço físico. Relações constroem-se e destroem-se em mundos virtuais; o espaço corpóreo é progressivamente secundário e alternativo. A existência de um sistema operativo provido de inteligência artificial como Samantha não é tão improvável quanto pode parecer. A narrativa de Jonze mostra que o ser humano, tendo evoluindo para o campo virtual das inter-relações, está pronto para outra evolução comunicativa: com a máquina moldada à imagem do próprio Eu.    

A narrativa requer os seus momentos de fé cega, mas aquilo que exige do espectador não é senão análogo ao que os sistemas operativos exigem dos seus utilizadores, tornado a experiência absorvente e envolvente. Enquanto, no mundo de Jonze, as relações entre humanos e sistemas operativos se aceitam e banalizam, entre a tela e a audiência estranham-se e depois entranham-se. A dada altura, o espectador não vê senão com normalidade que Samantha seja convidada e vá a um piquenique com amigos de Theodore, ou que vá com ele passear até às montanhas. Samantha, embora sem presença física, existe indiscutivelmente como ser consciente, com as suas próprias sensações e opiniões, dúvidas e imperfeições. A única falha de Samantha é não ter um rosto, um corpo; mas mesmo nesse aspecto se superioriza através da música, da voz e da capacidade para se metamorfosear até ao infinito. 

A relação de Samantha com Theodore é uma pura história de amor, pontuada por momentos de beleza rara e emoção autêntica. É, discutivelmente, uma das grandes histórias de amor no grande ecrã, grandiosa por não se revezar na frivolidade nem no costumeiro. Esta história é genuína; se resulta ou não de calculada programação, a realidade que interessa é a ânsia que provoca no espectador pelo bem-querer de Samantha e a aflição por não conseguir prever, desconhecendo as regras deste mundo, o final da narrativa. Como é que esta história poderá acabar bem? Tão humanizada é Samantha, será que cairá nos mesmos vícios humanos, ou será que se distinguirá? Independentemente do desfecho, o grande feito desta tecnologia é a habilidade para reintroduzir o ser humano ao conceito do amor puro e à beleza do mundo em toda a sua concupiscência natural; feito que ultrapassa a barreira da tela e se instala na audiência.

O design de produção de Uma História de Amor é absolutamente soberbo, com uma pitada q.b. de projecções futurísticas que se amalgamam com o ar retro e de cores desbotadas do guarda-roupa. Spike Jonze cria magistralmente uma atmosfera que torna Uma História de Amor tão distinta do mundo actual, mas ao mesmo tempo tão perto dos seus problemas e temáticas. O seu argumento é de uma imaginação incrível e a maneira como o concretiza na plenitude aponta um mestre na expressão absoluta da sua arte. A interpretação de Joaquin Phoenix, solitária, emotiva, inspiradora e desoladora, indicia uma vez mais que Phoenix se expressa melhor em papéis surreais onde a invenção da sua personagem é completa. O elenco de suporte encontra-se magnífico, mas nenhum deixa uma impressão tão forte quanto Scarlett Johansson, cuja precisa apenas de emprestar a sua voz a Samantha para manifestar o melhor trabalho da sua carreira. A sua Samantha vive no timbre da voz, na respiração cadenciada e nos silêncios cuidados; Johansson ganha rosto e forma através da imaginação, da aspiração e do conhecimento. Uma interpretação memorável que, na natureza e na importância, só encontra par em HAL de 2001: Odisseia no Espaço.

A música fornecida pelos Arcade Fire fornece uma camada extra de contemplação à atmosfera construída. Tudo agregado, Uma História de Amor está destinado a tornar-se um clássico, afinado por aquilo que é, indubitavelmente, uma história excepcional, como muito ainda por descodificar, reflectir e progredir.

CLASSIFICAÇÃO: 5 em 5 estrelas


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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Filme: Filomena (2014)

Baseada num caso verídico, Filomena narra uma história emotiva de busca e perdão que encontra Judy Dench numa interpretação exímia e dedicada. Um filme intrinsecamente britânico que move pelo seu decoro. 

Na adolescência, Filomena Lee (Judy Dench), uma rapariga irlandesa, engravida e dá à luz a um filho, Anthony. A viver e a trabalhar num convento, Filomena assiste, contra a sua vontade, à inesperada adopção de Anthony por uma família norte-americana. Cinquenta anos mais tarde, e sem ter qualquer rasto do seu filho, Filomena aceita a ajuda do jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan) para descobrir o paradeiro de Anthony, uma investigação que a levará aos Estados Unidos.

Filomena, etapa-a-etapa, revelação-a-revelação, acompanha a busca de Filomena Lee, apoiada pelo jornalista caído em desgraça Martin Sixsmith, sem nunca colocar o que é por si só uma história desoladora ao serviço da mera exposição dramática. A investigação é feita com naturalidade e Filomena Lee, embora a crueldade, não é vitimizada da forma que poderia ter tão naturalmente (e, porventura, legitimamente) sido. Filomena permanece graciosamente positiva, mesmo quando se rodeia de todas as razões para se enfurecer e se sentir injustiçada. Não significa, todavia, que Filomena esteja desprovida de sentimento; pelo contrário, Filomena, católica devota, rege-se assertivamente pelos valores do perdão e da compreensão. Ironicamente, as inquirições de Filomena e Martin a membros da Igreja Católica relevam uma clerezia retraída e dolosa, predisposta à acusação e à marginalização imediatas. Se o filme exagera ou não na sua demonização eclesiástica não é propriamente relevante; importante é a aferição que faz da crueldade humana na maneira como mostra a assustadora facilidade com que alguém separa uma mãe do seu filho e como, mais tarde, se rodeia de pretensos moralismos para continuar a justificar e a manter tal separação.

Não fosse o vínculo verídico retratado no livro The Lost Child of Philomena Lee que Steve Coogan e Jeff Pope adaptam, a maneira como a busca de Filomena e de Martin se concretiza pareceria demasiado perfeita e completa, concluindo-se num full circle excessivamente cinematográfico. Naturalmente, Filomena não é isento dos seus excessos puramente narrativos, mas a narrativa funciona de forma agregadora, conjugando o real com o acessório para criar fluidez e sentido (no qual é epíteto as imagens em Super 8 de etapas na vida de Anthony). Aliás, em relação aos eventos na vida de Anthony, é meritória a forma como Stephen Frears, focando-se em momentos felizes e marcantes, captura pequenos olhares de Anthony que mostram uma certa tristeza e solidão, revelando um vazio que o filho de Filomena eventualmente deslindará com a idade. 

Filomena é um filme britânico na sua espinha, refreando-se com a habitual rectidão que acompanha a maioria das produções da terra de Sua Majestade. Stephen Frears encontra um bom balanceamento entre as várias frentes, combinando a excelente fotografia de Robbie Ryan com a montagem cadenciada de Valerio Bonelli e a belíssima música de Alexandre Desplat. Por seu lado, Stephen Frears deve também a qualidade da sua película às prestações de Judy Dench e Steve Coogan. Dench, amável e graciosa, dá outro acto de classe em toda a sua reconhecida capacidade, mantendo-se na forma que a coloca no restrito grupo das melhores actrizes vivas. Steve Coogan entrega uma interpretação inspirada, dando corpo e alma a Martin Sixsmith sem tornar a personagem genérica. 

Filomena é um trabalho emotivo, sensível e comedido. A história de Filomena Lee provocará no espectador um sentimento de revolta – muito se deverá à demonização prosseguida por Stephen Frears. Contudo, a força da narrativa reside na forma como Filomena se mostra, em toda a sua singeleza, moralmente evoluída. Uma história e uma lição de superação imperdível!    

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Filme: Ao Encontro de Mr. Banks (2014)

Não obstante a boa direcção de John Lee Hancock e a importância do ícone Mary Poppins, Ao Encontro de Mr. Banks depende da excelente actuação de Emma Thompson para dar um sentido mais apurado a uma história marcada por alguma frivolidade. 

Após uma promessa às suas filhas, Walt Disney (Tom Hanks) procura obter os direitos cinematográficos de Mary Poppins da irredutível Pamela "P. L." Travers (Emma Thompson). Durante 20 anos, Pamela recusa qualquer negociação, mas quando as suas finanças começam a deteriorar-se, Pamela aceita viajar até Los Angeles para se inteirar da adaptação que Walt Disney pretende fazer da sua criação literária.

Ao Encontro de Mr. Banks pode prototipicamente apresentar-se como a história por detrás da produção do clássico filme da Disney Mary Poppins; na essência, todavia, a verdadeira narrativa a veicular este filme de John Lee Hancock é tão elementar quanto a relação de uma filha com o seu pai moribundo. A temática não é nova, mas revela-se peculiar por se intimamente relacionar com a criação de uma das personagens mais icónicas de sempre. Enquanto, em Los Angeles, Pamela "P. L." Travers é confrontada pela equipa de Walt Disney com uma visão da sua personagem que em nada se coaduna com o que lhe veio à imaginação, Pamela é confrontada na sua memória com o período mais difícil da sua infância. A Mary Poppins que Pamela conhece é despida de toda a magia que lhe outorgou na sua escrita; esta “verdadeira” Mary Poppins – que era na realidade a sua tia Ellie – não possui nenhum dos invulgares poderes que, na escrita, Poppins usou para salvar o Mr. Banks. Tal como Poppins, a tia Ellie chegou subitamente para responder aos apelos de uma família em desespero; no entanto, Ellie não conseguiu evitar o pior desfecho para Travers Goff, o pai de Pamela.

As histórias de Mary Poppins são a tentativa de Pamela de reescrever a tragédia que abalou a sua infância. A ideia de que Walt Disney pretende transformar a sua história num musical abala-a e choca-a profundamente. Pamela descarta quase todas as ideias da equipa de Walt Disney ao ponto de enlouquecer todas as pessoas envolvidas na pré-produção. O único que não é demovido pela obstinação de Pamela é o próprio Walt Disney, cujo, concomitante com uma infância triste, tudo faz para provar que a história de Mary Poppins não perderá nenhuma da sua essência e que irá ao encontro da salvação literária que Pamela guardou durante tantos anos para o seu pai. O contraponto que John Lee Hancock faz entre a infância de Pamela e a sua breve passagem por Los Angeles contribui para frisar a relação entre as experiências de Pamela com Poppins e dessa Poppins com a Poppins da Disney. Sem este constante confronto, Pamela Travers passaria por uma escritora de meia-idade marcada por teimosias e rabugices indecifráveis. 

Emma Thompson é brilhante enquanto Pamela Travers, construindo uma personagem com inúmeros maneirismos, em quem o não, embora verbalmente fácil de conciliar, permite vislumbrar um conflito, uma solidão e uma saudade internas de enternecer. Esta Pamela é incrivelmente diferente daquela que a surpreendente Annie Rose Buckley interpreta na infância, com Thompson a transparecer em todos os momentos a dor que a pequena Pamela, então Helen Goff, sentiu e nunca deixou de sentir com a perda do seu pai. Ainda no campo da representação, Tom Hanks encarna fantasticamente a personalidade forte e excêntrica de Walt Disney.

A realização de John Lee Hancock é segura e encontra um bom balanço entre a infância de Pamela na mais calma e paisagística Austrália e o período na vibrante Los Angeles. Não obstante, Ao Encontro de Mr. Banks pode passar uma imagem de exagerada e intencional propaganda ao império da Disney. A viagem de Pamela à Disneylândia com o próprio Walt é um exemplar momento, maioritariamente inconsequente para a narrativa, em que o filme se bate no limiar da propaganda deliberada. A música do sempre ponderado Thomas Newman volta a maravilhar e a engradecer as imagens que apadrinha, entregando força adicional à prestação visual de Emma Thompson.


Ao Encontro de Mr. Banks, ora com momentos de reflexão sobre a temática da paternalidade, ora com momentos de diversão suportados nos trejeitos e na inflexão cómica de Emma Thompson, é um filme interessante que, se não causar desbarato pela disneyzação abundante, cativa pela beleza da história de pano de fundo.   

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Filme: Golpada Americana (2014)

David O. Russell tem com Golpada Americana outra excelsa demonstração da sua extraordinária capacidade para reunir e tirar o melhor proveito de um elenco. Embora a narrativa de Golpada Americana não se preconize pela perfeição, o filme não deixa de surpreender e de fascinar.

Em 1978, os vigaristas e amantes Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams) são apanhados em flagrante delito pelo agente do FBI Richard "Richie" DiMaso (Bradley Cooper). DiMaso promete a Irving e a Sydney a liberdade se foram capazes de lhe trazer quatro prisões. Irving e Sydney escolhem o Mayor Carmine Polito (Jeremy Renner) como alvo do seu derradeiro golpe. Contudo, Rosalyn (Jennifer Lawrence), a mulher lunática de Irving, e a desconfiança mútua podem custar-lhes caro.

Golpada Americana agarra-se ao feeling de uma sociedade americana de finais de anos setenta, pós crise energética mundial, para construir paulatinamente um enredo exuberante, excêntrico e hilariante que coloca a audiência em suspensão e incerteza sobre os passos que se vão suceder. O intento final de cada personagem raramente é intencionalmente banhado por clareza, perdurando-se e sustentando-se a sensação de que o jogo de gato e rato entre tantos cenários alternativos possíveis é para ser concluído em concerto com a omnipotente ironia que determina toda a narrativa. Num mundo onde a trapacice, mais do que um meio de sobrevivência, é um estilo de vida, e onde cada um consente consideráveis esforços para levar a melhor sobre o outro, o intento final do filme é, quiçá, dar a golpada final no espectador com uma reviravolta derradeira sobre os acontecimentos da narrativa. Se sucede ou não, dependerá da expectativa de cada qual, da sua maior ou menor atenção ao detalhe.           

O golpe de Golpada Americana é essencialmente explicado ao espectador via narração, apostando na força visual e no diálogo para a elucidação pontual do enredo. A primeira parte de Golpada Americana apresenta-se, causalmente, demasiado expositiva, podendo alienar alguma da atenção necessária. Quando a sua veia expositiva não pulsa tão fortemente, Golpada Americana surpreende com o carácter mais íntimo das suas personagens, debruçando igualmente o filme sobre a qualidade e a veracidade do vínculo interpessoal. Este é uma particularidade importante para a validação de Golpada Americana, apresentando a ideia de que uma trama, por mais que ideada e preparada, pode ruir a qualquer momento por obra de um sentido pessoal mais pobre. Rosalyn é a principal cartada incerta, mas as restantes personagens também não são de sólida confiança e podem a qualquer momento atraiçoar o golpe ou as pessoas mais próximas. 

David O. Russell parece genuinamente divertido e motivado na sua realização. A sua câmara acompanha a narrativa com deslumbramento, maravilhando-se no guarda-roupa e na extravagância geral dos anos setenta. Não espantam, pois, os diversos planos que parecem reintroduzir repetidas vezes as personagens através de fumos, de luzes e de novos cenários. David O. Russell também não teme intervalar a sua narrativa com momentos de descontracção, como o são a cómica sequência inicial em que Irving arranja o seu cabelo ou a sequência alucinada em que Rosalyn interpreta uma famosa música de Paul McCartney e dos Wings.

David O. Russell prova-se uma vez mais ágil e apto para a condução do seu elenco. Este é, sem sombra de dúvidas, um elenco de luxo; não obstante, o realizador americano mostra-se capaz de elevar as potencialidades dos seus actores. São incríveis as actuações de Golpada Americana e não parece justo destacar uma das restantes; todavia, é mais injusto não reforçar a qualidade dos desempenhos de Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper e Jennifer Lawrence. A transformação física de Bale é quase ela uma personagem com mérito por si mesma, mas Bale não se fica simplesmente pelo alcance visual do seu trabalho. Adams, femme fatale, bela e fabulosa, não desbarata nenhuma oportunidade para manifestar toda a sua qualidade. Cooper é a interpretação que mais sentimentos opostos pode provocar, mas é algo que resulta obrigatoriamente da essência delirante do seu Richie DiMaso. Lawrence interpreta a personagem que surge com maior aleatoriedade na narrativa, uma Rosalyn que se aparenta pouco esperta e desinteressada, num mundo à parte em que só ela existe e importa; contudo, Lawrence vende-a a peso de ouro com incrível facilidade, com toda a sensualidade e delírio que já lhe são conhecidos.

Golpada Americana não passa a perna ao espectador, nem se vende por menos. Como se apresenta é como é, com toda a sua excentricidade, exposição e agitação. A sua recepção pela audiência depende da naturalidade com que a sua narrativa for permitida, com repudio pela barafunda ou elogio pela intencionada vaguidade moral. A opinião aqui é que a abordagem de Golpada Americana, embora as suas imperfeições, deveras resulta e não deixa nada nem ninguém indiferente.

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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