terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Filme: The Monuments Men - Os Caçadores de Tesouros (2014)

George Clooney apresenta-se em baixo de forma em The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, um filme inseguro que se revela surpreendentemente desinspirado e desinteressante, à margem dos seus próprios eventos.

Durante a 2ª Guerra Mundial, as forças nazis, ocupando grande parte do continente europeu, tomam posse de inúmeras obras de arte, que desviam em segredo para esconderijos desconhecidos. Frank Stokes (George Clooney), com apoio presidencial, decide reunir um grupo de especialistas, desde curadores de museu a historiadores da arte, intitulados The Monuments Men, para recuperar as obras perdidas conforme os Aliados vão libertando a Europa das forças inimigas. 

George Clooney tem vindo a revelar-se um realizador com mérito e talento, com a imaginação e a hombridade certas para isolar a sua posição de notoriedade dos seus resultados finais. Em The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, Clooney mostra-se surpreendente e lamentavelmente desinspirado, construindo uma história de bons rapazes fora do seu tempo que se desperdiça num limbo insípido entre a comédia acidental e o drama constrangedor. Em sua defesa, Clooney parece tentar uma homenagem às comédias militares que abundaram após a 2ª Guerra Mundial; nessa consideração, Clooney faz uma boa continência e uma boa réplica do humor por vezes absurdo e improvável que reina em referidos filmes.

Clooney atira o seu trabalho para um espaço de indecisão narrativa, não conseguindo optar pela comédia pura ou pela comédia de entoação dramática. No caso da história baseada em factos verídicos de The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros, adaptada do livro The Monuments Men: Allied Heroes, Nazi Thieves and the Greatest Treasure Hunt in History de Robert M. Edsel, a narrativa pedia uma inflexão dramática mais forte, mais presente e mais interligada com os restantes périplos. Não o procurando, Clooney não consegue estabelecer empatia entre a audiência e as suas personagens, nem criar a necessária perturbação quando algumas delas se confrontam com real perigo, embora o potencial e o talento estejam lá para alcançar algo muito mais superior.

A história de um grupo de homens ligados às artes, de diferentes frentes, que se oferece com pouca oposição para constituir uma task-force delegada para recuperar obras de arte roubadas e desviadas por nazis poderia ser tomada por distintas perspectivas. A perspectiva escolhida por Clooney, que assina o argumento com Grant Heslov, é uma que resultaria pouco e o resultado final prova tal constatação prévia. Esta não é, afinal, uma aventura de um grupo de Indianas Jones, mesmo que a tentação seja encará-la dessa maneira. A ideia que sobeja é que este grupo chega tarde para a festa e que fica à mercê dos seus restos. O derradeiro falhanço de The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros é não saber transformá-los em algo profícuo.  

Quando a narrativa se apresenta em tal limbo e as personagens carecem de maior e melhor profundidade, servindo de mero veículo expositivo, não há elenco de luxo que consiga puxar pelos seus galões. Assim é o caso deste elenco, largamente subaproveitado e inferiorizado no seu talento natural, limitando-se, talvez porque também nunca reconheceu potencial no guião, a servir de receptáculo para uma versão maçuda das suas personagens. A direcção artística de The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros não é má; os cenários vibram com a reprodução da época e com a sublimidade das inúmeras e distintas obras de arte. O guarda-roupa recria impecavelmente a era e a fotografia de Phedon Papamichael, a par da música de Alexandre Desplat, reflecte melhor a ambiguidade entre a leveza e a sensação de aventura e o dramático e a sensação de perigo do que a própria narrativa.

The Monuments Men – Os Caçadores de Tesouros desilude na abrangência e na importância da sua história e entretém muito pouco. Irónico que, na ânsia da caça e da restauração de obras de arte, o filme tenha falhado fazer alguma coisa útil por ela. 

CLASSIFICAÇÃO: 2 em 5 estrelas


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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Filme: Uma História de Amor (2014)

Uma História de Amor é um filme triunfante, belo e tocante que maravilha pela imaginação da sua narrativa, pelas fabulosas interpretações e pelas inúmeras mensagens e questões que partilha com a sua audiência. Um clássico! 

Num futuro não muito distante, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix) é homem solitário, separado da sua mulher, que escreve todo o tipo de cartas comemorativas como profissão. Certo dia, Theodore decide adquirir um novo sistema operativo munido com inteligência artificial, sendo introduzido a Samantha (Scarlett Johansson), a voz personalizada, adaptada às suas características, que o guia e organiza e por quem começa a sentir uma inopinada atracção. 

Spike Jonze já habituou o espectador à originalidade que permeia os seus trabalhos. Contudo, Uma História de Amor é um projecto que vai muito mais longe, muito mais ambiciosamente do que Spike Jonze alguma vez se permitiu. A premissa desta história futurística parece inicialmente difícil de se concretizar, de fugir à armadilha do insólito e de agradar particularmente. Desengane-se aquele que se confronta com tais conclusões precipitadas, porquanto Uma História de Amor é um trabalho profundo, dotado de poderosas reflexões sobre os relacionamentos humanos, o amor e a amizade, sobre o impacto que a tecnologia e o produto do próprio intelecto, superando-se ao seu criador, causa a montante, na sua gloriosa origem, modificando-se pelo leito abaixo até à sua inevitável libertação a jusante, em novo patamar evolutivo.

Através de comandos verbais, Samantha transforma-se paulatinamente de um mero e evoluído sistema operativo para uma verdadeira companheira (sim, diferencia-se em género) que, em simbiose perfeita, para além de organizar, motivar e ajuizar, oferece uma componente emotiva extraordinária, preenchendo o vazio emocional e a solidão compulsiva que assiste Theodore. É inegável que a tecnologia, encurtando distâncias, tem vindo a afastar os indivíduos no espaço físico. Relações constroem-se e destroem-se em mundos virtuais; o espaço corpóreo é progressivamente secundário e alternativo. A existência de um sistema operativo provido de inteligência artificial como Samantha não é tão improvável quanto pode parecer. A narrativa de Jonze mostra que o ser humano, tendo evoluindo para o campo virtual das inter-relações, está pronto para outra evolução comunicativa: com a máquina moldada à imagem do próprio Eu.    

A narrativa requer os seus momentos de fé cega, mas aquilo que exige do espectador não é senão análogo ao que os sistemas operativos exigem dos seus utilizadores, tornado a experiência absorvente e envolvente. Enquanto, no mundo de Jonze, as relações entre humanos e sistemas operativos se aceitam e banalizam, entre a tela e a audiência estranham-se e depois entranham-se. A dada altura, o espectador não vê senão com normalidade que Samantha seja convidada e vá a um piquenique com amigos de Theodore, ou que vá com ele passear até às montanhas. Samantha, embora sem presença física, existe indiscutivelmente como ser consciente, com as suas próprias sensações e opiniões, dúvidas e imperfeições. A única falha de Samantha é não ter um rosto, um corpo; mas mesmo nesse aspecto se superioriza através da música, da voz e da capacidade para se metamorfosear até ao infinito. 

A relação de Samantha com Theodore é uma pura história de amor, pontuada por momentos de beleza rara e emoção autêntica. É, discutivelmente, uma das grandes histórias de amor no grande ecrã, grandiosa por não se revezar na frivolidade nem no costumeiro. Esta história é genuína; se resulta ou não de calculada programação, a realidade que interessa é a ânsia que provoca no espectador pelo bem-querer de Samantha e a aflição por não conseguir prever, desconhecendo as regras deste mundo, o final da narrativa. Como é que esta história poderá acabar bem? Tão humanizada é Samantha, será que cairá nos mesmos vícios humanos, ou será que se distinguirá? Independentemente do desfecho, o grande feito desta tecnologia é a habilidade para reintroduzir o ser humano ao conceito do amor puro e à beleza do mundo em toda a sua concupiscência natural; feito que ultrapassa a barreira da tela e se instala na audiência.

O design de produção de Uma História de Amor é absolutamente soberbo, com uma pitada q.b. de projecções futurísticas que se amalgamam com o ar retro e de cores desbotadas do guarda-roupa. Spike Jonze cria magistralmente uma atmosfera que torna Uma História de Amor tão distinta do mundo actual, mas ao mesmo tempo tão perto dos seus problemas e temáticas. O seu argumento é de uma imaginação incrível e a maneira como o concretiza na plenitude aponta um mestre na expressão absoluta da sua arte. A interpretação de Joaquin Phoenix, solitária, emotiva, inspiradora e desoladora, indicia uma vez mais que Phoenix se expressa melhor em papéis surreais onde a invenção da sua personagem é completa. O elenco de suporte encontra-se magnífico, mas nenhum deixa uma impressão tão forte quanto Scarlett Johansson, cuja precisa apenas de emprestar a sua voz a Samantha para manifestar o melhor trabalho da sua carreira. A sua Samantha vive no timbre da voz, na respiração cadenciada e nos silêncios cuidados; Johansson ganha rosto e forma através da imaginação, da aspiração e do conhecimento. Uma interpretação memorável que, na natureza e na importância, só encontra par em HAL de 2001: Odisseia no Espaço.

A música fornecida pelos Arcade Fire fornece uma camada extra de contemplação à atmosfera construída. Tudo agregado, Uma História de Amor está destinado a tornar-se um clássico, afinado por aquilo que é, indubitavelmente, uma história excepcional, como muito ainda por descodificar, reflectir e progredir.

CLASSIFICAÇÃO: 5 em 5 estrelas


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