quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Filme: A Propósito de Llewyn Davis (2013)

A Propósito de Llewyn Davis é um filme que triunfa na abordagem simplista, na deslumbrante música e na interpretação excepcional de Oscar Isaac no papel principal. Os irmãos Coen têm outro êxito em mãos.

Nos anos 60, em Nova Iorque, Llewyn Davis (Oscar Isaac) procura a sua oportunidade na música folk. Todavia, tocando regularmente no bar Gaslight, Llewyn sente a sua carreira na música a fugir-lhe por entre os dedos e a vida pessoal a complicar-se consideravelmente. De casa em casa, de amigos em amigos, Llewyn vai sobrevivendo às custas da boa vontade de alguns. Certo dia, em contacto com o gato Ulysses, Llewyn pode finalmente ter a sua oportunidade.

A Propósito de Llewyn Davis transporta a audiência até aos anos 60 e, retirando o fulgor que é não raras vezes associado a esta época da história, mergulha-a numa envolvência baça em que abunda uma incógnita melancolia. A fotografia de Bruno Delbonnel, com os seus focos de luzes e de sombras e com a sua palete de cores amortecidas, acentua esta envolvência de forma sublime. A história de Llewyn Davis não é muito diferente destas sensações. Llewyn é alguém que emana melancolia, solidão e vontade parca. Tal como o ambiente que o rodeia, Llewyn parece alguém sem futuro, ou pelo menos alguém sem um futuro particularmente risonho. Com efeito, a jornada de Llewyn em A Propósito de Llewyn Davis é nada menos que desoladora para o seu espírito, ainda que os brilhantes momentos de humor negro de Joel e Ethan Coen como que reduzam no espectador esta ideia de desolação interna. Não restem dúvidas: Llewyn Davis não é uma personagem modelo e a sua história não é inspiradora.

A beleza de A Propósito de Llewyn Davis, pontuada por deslumbrantes momentos musicais, reside no efeito quase fantasista que a jornada de Llewyn parece tomar. A sua viagem para Chicago na companhia de dois desconhecidos – um dos quais fantástica e hilariantemente interpretado por John Goodman – é o momento fulcral em que o espectador se questiona sobre a veracidade de toda a história. Atravessando estradas vazias no meio de nenhures, esta sequência partilha as características de um sonho tido algures, já meio esquecido. Talvez Llewyn nunca faça efectivamente esta viagem; talvez toda a história seja o resultado da sua propensão criativa, reconstituída no seu processo de criação de música. O papel do gato Ulysses, orientado a caminhada e os desafios de Llewyn, parece dar força a esta teoria, quanto não seja pela forma sobrenatural e omnipresente como surge nos instantes em que Llewyn parece mais devastado com a sua falta de sorte. Assim como Ulysses, Llewyn parece ter mais do que uma vida.  

Joel e Ethan Coen, que também assinam o argumento, realizam A Propósito de Llewyn Davis com uma apropriada simplicidade, não obstante a narrativa aparentemente linear se revele intricada e profunda. Os seus planos em ruas ermas, em bares escuros e em corredores irrealmente apertados são demonstrações da sua natural capacidade para pegar no que é simples e criar algo distinto e notável. Oscar Isaac é extraordinário no papel de Llewyn Davis. Confinado a papeis menores, Oscar Isaac tem nesta profunda e enaltecedora interpretação a demonstração completa do seu talento e uma oportunidade para se candidatar a produções maiores. O seu Llewyn Davis, embebido em várias emoções, incapaz de compreender a música alheia, inspira diferentes relações. O elenco de suporte apresenta-se em bom plano, particularmente Carey Mulligan com a sua Jean indisposta, rude e preocupada.  


A música de A Propósito de Llewyn Davis é um elemento substancial da sua essência, outorgando um importante destaque à música folk. Dela sorve toda a narrativa. Na cena inicial do filme, enquanto Llewyn interpreta uma das suas músicas no bar Gaslight, um espectador assiste inteiramente absorvido, um cigarro nos seus lábios queimado quase até ao fim: analogia perfeita para o efeito que A Propósito de Llewyn Davis provoca na sua audiência.  

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas


Trailer:

domingo, 15 de dezembro de 2013

Filme: Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade (2013)

Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade oferece uma visão maioritariamente ampla e a espaços emotiva da vida e da luta contra o apartheid de Nelson Mandela. Idris Elba é nada menos que fantástico na sua interpretação cônscia do eterno líder sul-africano.

Na África do Sul, no final dos anos 50, o regime do apartheid atinge proporções indecorosas. Nelson Mandela (Idris Elba) é um dos líderes do movimento revolucionário do ANC (Congresso Nacional Africano). Quando o movimento toma tácticas guerrilheiras em resposta a atitudes mais violentas do governo sul-africano, Mandela é capturado e condenado a uma pena de prisão perpétua. A sua mulher, Winnie Mandela (Naomie Harris) toma as rédeas do movimento guerrilheiro.  

Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade, adaptado por William Nicholson da biografia Long Walk to Freedom do eterno presidente sul-africano, é um filme sem um equilíbrio definido, misturando momentos de beleza cinematográfica com momentos de relativa banalidade. Como um todo, todavia, este trabalho de Justin Chadwick encontra-se acima da média e, ancorado ao valor universal da mensagem de paz de Mandela, agarra com força a atenção e as expectativas do espectador, mesmo que no fim a recompensa emocional fique aquém daquilo que podia e devia ter sido alcançado, e que vinha a ser brilhantemente preparado na primeira metade do filme.

A primeira metade de Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade, que se prolonga até ao momento do encarceramento de Nelson Mandela na prisão da Ilha Robben, não dá nenhum passo em falso, agregando uma narrativa fluida (desde a infância de Mandela) com uma montagem inteligente, transumanando Mandela com defeitos a fim de elevar o seu caminho ao estatuto de figura moral. Nesta parte do filme, o lado mais controverso de Mandela, e do seu papel no armamento da ANC durante a fase mais negra do apartheid, é tratado com cuidado e tacto, colocando-o ante momentos de aflição racial progressivamente graves que impactam o seu melhor discernimento. Embora Mandela tome o caminho da luta armada, a sua aversão ao mesmo é sempre observável; Mandela procura a paz e os instantes em que regressa às suas raízes, algures no meio da grande e bela savana, para visitar a sua mãe ou para se casar com Winnie, provam a sua vontade do tamanho do mundo de trazer paz e igualdade.

Quando Mandela é capturado e levado para a Ilha Robben, Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade muda de ritmo. Abranda consideravelmente e perde o seu esplendor. Nelson Mandela, não obstante as enormes privações que padece no seu longo e injusto cativeiro, fica mais distante do espectador e a sua viagem moral torna-se mais imperceptível. A forma como Justin Chadwick trabalha esta parte da vida do eterno líder sul-africano provoca a inquietante ideia de que a transformação de Mandela durante o seu cativeiro se deve a algum amolecimento da sua vontade de revolta, como um animal enjaulado que se vê definhar as garras com a oscilação do pêndulo do tempo. Justin Chadwick contrasta seriamente esta transformação com a de Winnie Mandela, que, moldada por uma realidade de punição completamente diferente, parece impelida pelo simples ódio, quiçá dissonante com as suas verdadeiras motivações.

Os momentos que antecedem e se sucedem à libertação de Mandela carecem de alguma solenidade, dependendo demasiado das imagens de arquivo que Justin Chadwick reúne. No entanto, Justin Chadwick recupera nesta recta final algum do esplendor perdido e consegue conduzir um desfecho condigno com o carácter de Nelson Mandela: sentido, tranquilo e bonito; desfecho que carrega consigo uma inflexão emotiva extra pelo falecimento recente do eterno líder sul-africano. Justin Chadwick tem muito que agradecer a Idris Elba pela sua brilhante actuação. Embora exageradamente encorpado para a correcta caracterização de Mandela – problema particularmente mais presente nos anos mais avançados do líder –, Idris Elba faz uma encarnação de personalidade, voz e natureza verdadeiramente espantosa. É uma performance capaz de mudar o rumo da sua carreira. Naomie Harris também traz qualidade ao papel de Winnie, ainda que sobeje a ideia de que a sua personagem é subutilizada e que o seu lugar na narrativa é mal colocado.  


Os valores de produção deste filme estão a bom nível, da vibrante fotografia de Low Crawley – com fantásticos planos da savana sul-africana – ao apropriado guarda-roupa e à música bela e pulsante de Alex Heffes. Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade pode não ser a mais perfeita interpretação cinematográfica de Nelson Mandela – o acto intermédio é frustrantemente carente –, mas é uma que vence na celebração a sua vida, das suas conquistas, e que deixa saudades do seu memorável e já eternizado espírito.    

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


Trailer: