segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Filme: A Vida de Adèle (2013)

A Vida de Adèle, do franco-tunisino Abdellatif Kechiche, é um extraordinário trabalho de exploração do carácter, da sexualidade e da transição da fase adolescente para a fase adulta, onde Adèle Exarchopoulos tem um desempenho memorável. Um dos filmes do ano. 

Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma jovem estudante do liceu, começa a ter dúvidas sobre a sua sexualidade. Não querendo assumir aquilo que é, Adèle tenta manter as aparências, mas sem resultado. Um dia, Adèle conhece Emma (Léa Seydoux), uma artista plástica e gráfica com um misterioso cabelo azul, com quem inicia uma tórrida relação. A entrada de Adèle na vida adulta acarretará, todavia, problemas que Adèle não antecipa e que podem por em causa tudo aquilo que alcançou. 

Adaptado pelo realizador Abdellatif Kechiche do romance gráfico Le Bleu est une couleur chaude de Julie Maroh, A Vida de Adèle é um tour-de-force sobre o renascimento do Eu, onde a sexualidade, camada a camada, é decomposta na sua forma mais crua e primitiva para criar uma mensagem contundente sobre a escolha, ou incapacidade para ela. Neste olhar descomprometido, Adèle, que é introduzida ao espectador na recta final da sua adolescência, surge como um indivíduo tentativamente normal, à procura da normalidade e da maneira habitual de fazer as coisas. Começando a compreender que encarcera notórias diferenças em comparação com o seu grupo, Adèle ouve por alto as conversas das suas amigas sobre os rapazes do seu liceu e nada sente quando um deles mostra interesse por ela, interesse que chega a vias de facto para seu desconsolo e desconforto. Adèle percebe por fim que é diferente, mas, não sabendo como lidar com essa constatação, deprime-se e fecha-se sobre si mesma.  

Certa noite, Adèle deambula até um bar gay para testar o seu grau de integração. É nesse bar que Adèle volta a encontrar Emma, uma rapariga de cabelos azuis que lhe previamente chamara a atenção numa rua. Logo desde a primeira interlocução, Adèle e Emma entendem-se às mil maravilhas; Emma é o refúgio que Adèle precisa entre os dois mundos no qual tem um pé, mas nenhuma real presença. Adèle e Emma iniciam um romance tórrido que cresce para algo mais maduro e sólido. Adèle parece finalmente na expressão máxima da sua felicidade, sensação que Abdellatif Kechiche traduz excelsamente nos momentos que Adèle e Emma partilham num bonito e reservado jardim. O jardim podia perfeitamente ser o mundo dos sonhos de Adèle, porquanto ali tudo lhe parece possível. Todavia, Adèle rapidamente descobre que o seu novo mundo é tão igual ao seu anterior; os problemas são os mesmos e a conjugalidade homossexual enfrenta os mesmos desafios que qualquer outra relação.

Enquanto coming-of-age, A Vida de Adèle retrata sapientemente a viragem da vida adolescente para a vida adulta. Adèle, que se apresenta maioritariamente solitária, nunca consegue integrar-se completamente no meio adulto, nem tão-pouco no meio artístico e instruído de Emma onde os diálogos são cheios de interpretações ambíguas e intrincadas. Emma, por seu lado, não realiza o esforço para integrar Adèle neste meio, sugerindo até a Adèle que tente a escrita e abandone a educação de infância. Embora Adèle seja a musa para o trabalho de Emma, Emma nunca lhe dá o devido mérito, aceitando que Adèle se fica reduza a um inglório papel de dona de casa. Não obstante o relativo assumir da sua sexualidade, Adèle, que se sentira primeiramente isolada e prisioneira no liceu, volta a experimentar tais estados na companhia de Emma. Fica patente que o maior problema de Adèle nunca fora a sua sexualidade, mas a maneira como aparece desligada e desinteressada à frente das pessoas.    

Com o cabelo desgrenhado e o ar eternamente compenetrado, Adèle Exarchopoulos é perfeitamente genial no papel de Adèle. Este é um filme que se alimenta da sua performance e que se pinta com a sua frontalidade. Adèle carrega uma força emotiva rara no cinema, capaz de transmitir mil e uma sensações e pensamentos com mero recurso ao rosto e à gesticulação. É impressionante a forma como verdadeiramente enrubesce numa discussão, ou como as lágrimas e o ranho lhe descem com naturalidade num choro compulsivo. Poucos dirão que esta é mais actuação do que experimentação, ou que a força motriz por detrás da sua capacidade representativa seja meramente impulsiva: é-lo na realidade, provando-se dedicada e sentida. Adèle mostra-se confortável na sua pele e não faz passar mal-estar nas verdadeiramente explícitas cenas de sexo. Do outro lado, Léa Seydoux mostra-se bastante competente. Ainda que não brilhando tanto quanto Adèle, a prestação de Léa é forte e laudável, criando uma Emma com o seu encanto e charme, que se destaca muito para além do cabelo azul de saltar à vista.
   
Abdellatif Kechiche consegue um filme fenomenal e inspirado com A Vida de Adèle. A sua realização, embora a longa duração, nunca perde foco nem sentido das inúmeras mensagens que pretende reflectir (muitas mais do que uma única visualização permite descortinar), demorando o tempo que é necessário demorar para desenvolver camada a camada, fala a fala, as suas personagens e o rumo da sua narrativa. O tempo passa de forma imperceptível e, do nada, três horas decorrem como que num zás e Adèle transforma-se de uma jovem rapariga para uma jovem mulher. O mérito de Abdellatif Kechiche, mais do que na forma como a sua câmara acompanha Adèle ou como não se coíbe à crueza das cenas explícitas, reside na espontaneidade com que faz passar uma narrativa que, nas suas temáticas, é complexamente estratificada.   

A Vida de Adèle, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, é definitivamente um dos filmes do ano e um que ainda vai fazer correr muita tinta, tanto não seja pela maneira como termina a sua maratona e deixa em aberto a possibilidade de uma futura continuação.  

CLASSIFICAÇÃO: 5 em 5 estrelas


Trailer:

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Filme: The Hunger Games: Em Chamas (2013)

Não obstante alguma sensação de déjà vu, The Hunger Games: Em Chamas, comandado por Jennifer Lawrence, é a rara sequela que melhora sobre o original, explorando e aprofundando os seus temas e as suas mensagens.

Após a vitória nos 74os Jogos da Fome, Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e Peeta Mellark (Josh Hutcherson) procuram adaptar-se à condição de mentores, uma que os obriga a percorrer os distritos de Panem em tributo aos companheiros falecidos durante os Jogos. Durante a viagem, Katniss e Peeta tentam manter aparências a fim de controlar o sentimento de revolta contra o Capitólio que começa a ganhar força na população. Quando falham, Katniss e Peeta regressam à arena para os 75os Jogos da Fome, um evento especial em que a Colheita é feita a partir de antigos vencedores.

The Hunger Games: Em Chamas não palminha caminhos muito diferentes do seu antecessor – a espaços, parece deveras uma cópia em papel de carbono daquele que lhe dá origem -, mas a evolução favorável na mitologia e nas temáticas envolvidas consagra aquele por vezes raro upgrade numa sequela que cria um registo cinematográfico indiscutivelmente superior. Partindo de um argumento adaptado por Simon Beaufoy e Michael deBruyn (pseudónimo para Michael Arndt), Francis Lawrence agarra sem rodeios no já agradável produto de Gary Ross e, com expectativas acrescidas e sufocantes sobre si, introduz inovação e maturidade onde a narrativa a exige, alargando as dicotomias no mundo de Panem e alimentando as necessidades de sublevação que vão ganhando força nesta saga. Este Hunger Games já não se circunscreve apenas ao horroroso e sádico conceito dos Jogos ou da sua mortífera arena; na verdade, a presença deste recinto é já, por esta altura, um companheiro que chega tarde e desnecessariamente à festa, embora a sua existência não se revele descabida ou importuna.     

Com riscos maiores, Katniss, a Rapariga em Chamas, e Peeta são forçados a uma viagem da vitória por todos os pobres distritos de Panem para acalmar o espírito de perturbação que toma conta da população desde que Katniss se insurgiu contra as regras do Capitólio no final do primeiro capítulo da saga. O ambiente sombrio e frio que envolve esta viagem serve igualmente para criar desconforto no espectador, reforçando o contraste com o visualmente belo e opulente do Capitólio e dos sues relacionados. É nesta envolvência que Katniss começa a compreender que, alheio à sua vontade, representa o gatilho para uma poderosa arma: a insurreição. Todavia, sob a ameaça do Presidente Snow, Katniss recusa ser o rosto desta propaganda, tentando mostrar um rosto de disposta obediente à população dos doze distritos. Quando o esforço não resulta, Snow encontra forma de eliminar o mal pela raiz, forçando Katniss a regressar à arena com Peeta e antigos vencedores dos Jogos.

Este regresso à arena, embora mantendo o foco sobre o inabalável instinto de sobrevivência e entreajuda de Katniss, não deixa de dar a impressão de um intermezzo entre um acto superior e tematicamente expressivo. A forma como Francis Lawrence mantém aqui o espectador distante dos acontecimentos exteriores ao intrincado recinto, ao contrário do que Gary Ross fez no seu contributo inaugural, mostra a determinação do realizador em adiar os seus melhores trunfos para os capítulos conclusivos (sob a sua já anunciada direcção), mesmo que a sua escolha signifique um final algo repentino e confuso para este segundo capítulo. Enquanto The Hunger Games - Os Jogos da Fome é um filme com claro princípio, meio e fim, The Hunger Games: Em Chamas é um filme que se apresenta in medias res ao longo da sua duração. Quando isolado, pode perder significado.    

Não obstante, a realização de Francis Lawrence é superior à de Gary Ross, acercando-se melhor dos valores de produção. Francis Lawrence prima sobretudo na maneira como constrói a cada passo a ideia de que os riscos são maiores e que uma grande tempestade se avizinha, uma que mudará tudo em Panem. No campo da actuação, Jennifer Lawrence, agora galardoada, continua excepcional no papel de Katniss Everdeen, apresentando-se na mesma naturalidade e facilidade. É ela quem carrega o filme aos ombros e quem cria no espectador o elo afectivo mais forte, algo de preponderância considerável quando ainda não é claro quem é amigo ou inimigo neste meio. O elenco de suporte é seguro, com destaque para Elizabeth Banks enquanto Effie Trinket e Stanley Tucci enquanto Caesar Flickerman. Effie e Caesar são a ligação indispensável com o Capitólio e a demonstração subtil da mudança na consciência dos favorecidos. Os estreantes Philip Seymour Hoffman enquanto Plutarch Heavensbee, Sam Claflin enquanto Finnick Odair e Jena Malone enquanto Johanna Mason introduzem personagens interessantes com camadas ainda por explorar e desenvolver no próximo capítulo, onde lhes é devida maior expressão.

Mesmo que não seja um começo e um fim em si mesmo, The Hunger Games: Em Chamas foge à armadilha das sequelas e evolui os conceitos envolvidos para o ponto em que se torna obrigatório visualizar o final da saga, evento que, ao ritmo actual, promete surpreender, dar que falar e colocar a saga lado-a-lado com as melhores. Destino ao sucesso na bilheteira, esta sequela entusiasmará consideravelmente o espectador familiarizado com a literatura de Suzanne Collins e agradará bastante àquele que, não conhecendo de antemão os desenvolvimentos narrativos, se coloca às cegas à frente do grande ecrã.

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


Trailer: