quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Filme: Raptadas (2013)

Raptadas é um thriller intenso, sóbrio e absorvente, pautado por boas interpretações e uma boa direcção de Denis Villeneuve. Hugh Jackman segura a narrativa pelas rédeas e dá outra demonstração das suas capacidades.

Na Pensilvânia, no Dia de Acção de Graças, as famílias vizinhas Dover e Birch reúnem-se para celebrar a festividade. Anna Dover e Joy Birch, as duas crianças de cada família, saem de casa para brincar na rua. Anna e Joy não voltam. A polícia é chamada ao local e o detective Loki (Jake Gyllenhaal) toma conta do caso. Com o alongar da investigação sem resultados concretos, Keller Dover (Hugh Jackman) e Franklin Birch (Terrence Howard) decidem agir pelos seus próprios meios sobre aquele que consideram responsável pelo rapto das duas crianças.

Raptadas demora o necessário para desenrolar as potencialidades da sua narrativa, usando a por vezes rara consciência e soberania sobre o tempo para construir um apropriado cenário sorumbático e tristonho. Com os segredos da narrativa guardados a sete chaves pela maior parte do tempo, Raptadas coloca o espectador numa investigação paralela à que se desenrola paulatinamente no grande ecrã. Se o detective Loki tem as suas pistas e suspeitas sobre o desaparecimento de Anna e Joy, o espectador, que dispõe de uma clarividência superior, poderá ter uma visão inteiramente distinta. O triunfo de Raptadas, além do sorumbático tom construído, reside na forma como questiona e faz questionar e mantém a audiência num palpitante jogo de gato e rato até à revelação final.

O tom religioso que supervisiona o filme desde a primeira linha prenuncia uma relação moral, e não defrauda. As diversas decisões tomadas pelos intervenientes da narrativa manifestam um desenlace amoral como resultado da decisão imoral do rapto das duas crianças. Em particular, a captura e consequente tortura por parte de Keller Dover do presumível raptor caracteriza magnificamente a dose incontrolável de desespero e incerteza resultante da primeira imoralidade; demonstra também a ténue limítrofe a que um pai se circunscreve para recuperar a sua filha. A intenção de Raptadas não é colocar o espectador do lado de Keller, nem contra ele; é meramente coadunar-se com a sua essência humana. 

Raptadas perde algumas engrenagens à entrada do último acto e transparece a ideia de que o final poderá empalidecer em comparação com o que veio anteriormente. Efectivamente, alguma da sobriedade esgota-se. As até então ponderadas vias de investigação – à moda antiga – são abandonadas e o caso resolve-se por intervenção externa com o reaparecimento súbito e inexplicado de uma das crianças. Não invalida a investigação que vinha sendo feita, por Loki, Keller ou pelo espectador, mas não lhe permite uma conclusão com clímace.

O canadiano Denis Villeneuve faz um bom trabalho atrás das câmaras, apresentando uma realização segura e instruída. A ambiência que cria, com a fotografia turva (a chuva que cai é muita), a música ora tensa ora soturna e a montagem certeira, absorve o espectador e envolve-o na insegurança que também envolve as suas personagens. Denis Villeneuve obtém dos seus actores interpretações fortes. Hugh Jackman apresenta-se em grande nível e comanda o filme; intenso, impaciente e ameaçador, Keller Dover é uma vítima perpetradora que inflige mais medo no espectador que o reprovável acto que é premissa para esta história. Jake Gyllenhaal, sem ombrear com Hugh Jackman, apresenta-se em bom plano, bem como o restante elenco.  

Raptadas é um dos melhores thrillers dos últimos meses. É um thriller que não se preocupa em mostrar o resultado, mas sim o processo para lá chegar, tomando pelo caminho as providências necessárias para manter a audiência agarrada à mesma esperança que move as suas personagens, não obstante a envolvência tristonha que prenuncia um final menos agradável.

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Filme: Gravidade (2013)


A viagem ao Espaço de Gravidade é uma experiência fabulosa e deslumbrante que absorve e impressiona. Ímpar na ambição e na execução, pode muito bem ser a obra de referência de Alfonso Cuarón.

A missão espacial STS-157 encontra-se na recta final dos seus trabalhos de manutenção ao Telescópio Hubble. A STS-157 é a primeira viagem ao Espaço da estreante Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e a última do veterano Matt Kowalski (George Clooney). Prestes a acabar o seu trabalho e a regressar a casa, a tripulação vê-se no meio de uma tempestade de atritos de satélites abatidos que arrisca a sobrevivência de toda a Missão.

Gravidade é uma experiência absorvente sem paralelo. Da primeira icónica cena crescente de um planeta Terra silencioso e tranquilo a uma última que é semelhante nos apanágios, embora numa índole diferente, Gravidade faz uso do seu poder gravitacional visual para manter a audiência suspensa aos alucinantes acontecimentos. O nível de detalhe é tão imenso e distinto que o tamanho da tela não parece capaz de conter toda a energia de uma câmara vigorosa e omnipresente. Gravidade, e não só por trâmite de uma aplicação a três dimensões admirável, extravasa as fronteiras da tela e puxa o espectador para os seus eventos. Muita desta sensação resulta da forma como Alfonso Cuarón, repleto de magia na sua execução, dá a ideia de que subiu ele próprio ao Espaço para filmar o seu ambicioso projecto. A física, mesmo que não infinitamente perfeita, apresenta-se criteriosamente cumprida; Alfonso Cuarón entrega aquilo que promete na premissa da sua história (obediência total à ausência de oxigénio, de pressão de ar e de som no Espaço).

A precisão e a clareza visual da Terra, do Espaço e das plataformas espaciais são impressionantes. Aliadas a uma banda sonora experimental e docemente desconcertante, Gravidade produz momentos de ansiedade capazes de fazer suster a respiração. Curiosamente, num meio tão vasto quanto aquele onde os tripulantes da Missão STS-157 se encontram, a impressão que ressalta é uma de imensa claustrofobia. O tratamento psicológico de que estes tripulantes são alvo desperta desconforto e preocupação. Basta atentar à sua respiração ofegante e esforçada para depreender o seu estado de espírito alarmado e desnorteado. No meio do atordoamento visual e sonoro, Gravidade encontra espaço para desenvolver o lado sensível destas personagens, em particular o da Dra. Ryan Stone, em quem deposita a esperança de uma ligação emotiva com a audiência – ligação que funciona impecavelmente e permite desculpar alguns ociosos automatismos.

A narrativa de Gravidade é simples e precisa, não cobiçando interpretações morais ou facciosas. É a mera história de uma tripulação em missão espacial na órbita da Terra que sofre uma terrível contrariedade e faz o necessário para sobreviver. Se Gravidade apresenta alguma notória falha é nesta natureza tão simplista que, sem outros atributos ou instrumentos de narrativa, vive de uma expressividade excessiva da Lei de Murphy. Todavia, numa experiência tão arrebatadora como esta, a narrativa é menos relevante e o veículo visual mais representativo. Nesta particularidade, Gravidade suplanta qualquer expectativa e estabelece um novo sustentáculo de comparabilidade. O espectador sai desta experiência assombrado e estonteado como se, tendo acompanhado a subida e a estada de Alfonso Cuarón no Espaço, tivesse abruptamente caído na atmosfera terrestre (e, neste caso, na apercepção cinematográfica do acontecimento).

Não obstante o peso visual, Sandra Bullock tem a importante tarefa de tornar a Dra. Ryan Stone apelativa e relacionável. Bullock consegue-o com relativo pouco esforço, ressalvando as fragilidades emocionais da sua personagem no meio do caos espacial. George Clooney não tem muito tempo de ecrã, nem nunca se lhe exige demasiado, mas marca cada cena com o seu discursar brando e reconfortante. A fotografia de Emmanuel Lubezki é globalmente brilhante e inclui momentos de verdadeira sublimidade. O uso da capacidade de aprofundamento espacial do 3D é raramente tão consistente e absorvente como este. Alfonso Cuarón tem possivelmente em Gravidade o seu melhor trabalho; é certamente o seu melhor trabalho visual. O tempo dirá da capacidade de permanência de Gravidade, mas este pode muito bem ser um dos melhores filmes espaciais, senão o melhor. É, incontornavelmente, o mais fidedigno, o mais extraordinário e o mais próximo que cada um pode almejar ficar da experiência extraterrena.   

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Filme: Rush - Duelo de Rivais (2013)

Rush – Duelo de Rivais, alinhado na força motora de um argumento de alta cilindragem, recria no grande ecrã a intensa rivalidade entre Niki Lauda e James Hunt com dedicação e compreensibilidade, destinado a fãs e a não-fãs.

Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth) são rivais desde o início da sua carreira, no palco fora da ribalta da Fórmula 3. Lauda e Hunt chegam eventualmente ao grande palco da Fórmula 1 e a sua rivalidade atinge popularidade mundial. Na época de 1976, a discussão pelo título de campeão atinge a maior ferocidade entre os dois. No entanto, Lauda sofre um terrível acidente no Grande Prémio da Alemanha que pode colocar um ponto final na disputa. 

A rivalidade na Fórmula 1 entre os pilotos Niki Lauda e James Hunt marcou uma era do desporto motorizado. O realizador Ron Howard transporta para o grande ecrã a intensidade rival entre os dois pilotos com toda a exuberância visual apoiada na energia automobilística. Servindo-se apropriadamente de um argumento equilibrado de Peter Morgan, Ron Howard começa por recuar na famigerada história, apresentando ao espectador a raiz da rivalidade no meio menor e mais obscuro da Fórmula 3, onde Lauda e Hunt se cruzam pela primeira vez, Lauda como um indivíduo sisudo e compenetrado e Hunt como um indivíduo imaturo e mimado. Embora as quase antagónicas diferenças de personalidade, ambos os novatos pilotos partilham uma imensa paixão pela velocidade e um conflito de vontades com as respectivas famílias. Hunt e Lauda, após um primeiro embate que os coloca de sobreaviso sobre as potencialidades do outro, seguem caminhos separados e dificuldades distintas. Lauda chega à Fórmula 1 graças ao seu conhecimento de mecânica e à seriedade com que encara o seu trabalho, enquanto Hunt chega ao campeonato de primeira linha com patrocínio interno e convicção no talento bruto.

No caminho para o topo e para a incontornável época de 1976, Ron Howard refreia-se do impulso de acção e trabalha cuidadosamente o lado pessoal e privado de cada um dos pilotos, desvendando o lado singelamente humano de cada lenda. Lauda mostra-se alguém com dificuldade de relacionamento, alguém que encara melhor uma corrida perigosa do que uma prova de afecto e amizade. Quando Marlene Knaus se cruza no seu caminho, Lauda enfrenta provavelmente o maior desafio da sua vida; nunca se transforma verdadeiramente no indivíduo carinhoso, para Marlene ou para o espectador, mas transforma-se aos poucos e poucos na alma e no coração da história. Hunt, por outro lado, é desde o princípio alguém sem barreiras relacionais, carismático e galanteador, com quem todos gostam de estar, mas que poucos reconhecem valor. Curiosamente, é nos momentos em que Lauda e Hunt interagem que os problemas de cada um parecem minimizados, e quando competem que são completamente superados. A rivalidade não é meramente competitiva: serve para dar força e propósito para a vida pessoal.

O acidente de Lauda na perigosa pista de Nürburgring na Alemanha é um momento de enorme consequência para o filme, momento em que Rush – Duelo de Rivais se transforma em algo especial. Nos momentos sequentes, incluindo a impressionante recuperação de Lauda, Ron Howard, apoiado em bons valores de produção dos quais se destacam a música vibrante e emotiva de Hans Zimmer e a fotografia contrabalançada de Anthony Dod Mantle, cria uma experiência intensa e fascinante ao som fremente dos motores e ao batuque cardíaco das emoções em jogo. O desfecho da época de 1976 não é nenhuma surpresa, mas Ron Howard estabelece a ambiência necessária para criar a ilusão no espectador de que é possível torcer por outro desenlace; afinal, este é um filme também construído, ou mesmo essencialmente construído, para não seguidores da Fórmula 1.

Chris Hemsworth apresenta-se no melhor papel da sua carreira. O lado playboy e despreocupado de James Hunt assenta-lhe que nem uma luva, mas Hemsworth mantêm-se moderado e dá mais atenção ao lado emocional e o intimamente frágil de Hunt. É, todavia, em Daniel Brühl que se descobre a melhor representação. O seu Lauda tem várias e tão distintas facetas e Brühl trata cada uma com a mesma importância e pormenor. A jornada de Lauda de um indivíduo distante e pouco relacionável para um Lauda heróico e sensível é impressionante, mas é o seu trabalho a partir do acidente em Nürburgring que é verdadeiramente notável. Aqui, Brühl prende a atenção do espectador, choca-o com a crueza das feridas de Lauda e conquista o seu bem-querer até ao final.


Rush – Duelo de Rivais é ainda pontuado por momentos de humor na forma de inteligentes diálogos. É o melhor filme de Ron Howard desde Frost/Nixon. É um filme pronto para agradar fãs de Fórmula 1 e aqueles que, não acompanhando ou se interessando pelo desporto, procuram uma boa história de rivalidade, perseverança e heroicidade; uma que acontece ser real.   

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Filme: Isto é o Fim! (2013)

Isto é o Fim! é uma hilariante comédia com um inteligente toque de autocrítica e sátira num cenário exagerado e vibrante. 

Quando Jay Baruchel regressa a Los Angeles para visitar o seu melhor amigo Seth Rogen, Jay percebe que a relação de amizade entre ambos mudou. Seth tem um novo grupo de amigos com quem agora tem mais em comum. Jay tenta integrar-se no grupo, aceitando ir a uma festa na casa de James Franco. Jay detesta a experiência. Mas tudo muda nessa noite. O Apocalipse acontece e o grupo deve unir-se para sobreviver.

Isto é o Fim! não é um filme para ser levado a sério. Esta é a primeira noção que o espectador tem na cabeça e a impressão com que ficará após o seu visionamento. É uma comédia arduamente focada em proporcionar bons momentos de diversão. Todavia, Isto é o Fim! carrega uma mensagem sincera num hilariante e bem-vindo cenário de autocrítica e justaposição entre a imagem que o espectador tem da vida de celebridade e a imagem que as próprias celebridades têm da imagem sobre si. Isto é o Fim! é intrinsecamente satírico; satírico de todos para todos. Se por um lado aponta de forma acusadora a opinião pública estereotipada, por outro toma consciência da preeminência financeira e das superiores condições de vida que assistem Hollywood. Tudo isto num cenário em que o Apocalipse (aquele bíblico que descreve detalhadamente o fim dos tempos) toma lugar e em que os justos são imediatamente salvos e os menos justos ficam para ajustar contas. Obviamente, no teor da autocrítica, nenhuma celebridade é amnistiada por este rapture.    

A bela casa de James Franco é palco para o supracitado Apocalipse. As suas obras de arte e os variados adereços dos seus filmes servem de armas de combate e de arremesso para a batalha pela sobrevivência, onde a falsidade na sua origem e na sua infrutífera aplicação é reveladora da falsidade que rodeia o seu trabalho. Por mais que se mostrem indivíduos de valor nos seus projectos, estas celebridades, pelo menos nesta versão satírica, são indivíduos ocos e imorais na vida fora da tela. A valentia mostrada é falsa e completamente inexistente quando o imaginário se torna real. É um exercício absolutamente hilariante admirar a sua completa falta de soluções e de alento no meio do desastre, entre inteligentes e bem colocadas referências culturais.

Com o decorrer da endiabrada narrativa, que por vezes parece desalinhada e improvisada, a autocrítica torna-se pedagógica, mostrando que até estas celebridades fúteis merecem uma oportunidade para mostrar o seu valor e alcançar a salvação. Nem todas o conseguem, mas nem todas mostram a necessária predisposição (leia-se independência narrativa). A ideia de que as relações entre estas celebridades não são o mar de rosas que por vezes se imagina fornece outro tipo de introspecção que não será inteiramente descabido, embora não nos níveis bruscos aqui divertidamente apresentados.    

São muitas as caras famosas que passam por Isto é o Fim!, algumas num cameo tão vertiginoso que a pequena distracção leva à sua privação. Destas, Emma Watson é a mais hilariante, criando uma versão violenta, obstinada e irredutível da sua personalidade. Do elenco principal, James Franco, Seth Rogen e Jay Baruchel são quem estão mais à-vontade com o papel de um certo transtorno de personalidade; como tal, são os mais cómicos.


A realização a cargo de Seth Rogen e de Evan Goldberg (que também assinam o argumento) padece de alguma qualidade e de alguma organização. Se em parte funciona para tornar algumas cenas mais divertidas, em parte torna algumas cenas estranhas e de franzir o nariz, nomeadamente as relacionadas com adições visivelmente incompletas de CGI. Como um todo, no entanto, Isto é o Fim! cumpre com distinção aquilo a que se propõe: divertir. Isto fá-lo como poucas intencionadas comédias têm feito recentemente.

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Filme: Diana (2013)

Diana é um pobre retrato e um mau exemplo biográfico de uma das mulheres mais famosas e influentes de sempre. Naomi Watts encarna a Princesa do Povo de forma espantosa, mas nada pode fazer quando o argumento é artificial como este.

Após o fim da sua mediática e conturbada relação com o Príncipe Carlos, Diana, Princesa de Gales (Naomi Watts), sempre debaixo dos holofotes, não consegue dar um rumo à sua vida. Certo dia, Diana conhece o cardiologista Hasnat Khan (Naveen Andrews), com quem tem uma relação secreta. Quando o relacionamento se torna inevitavelmente público, Diana e Hasnat têm dificuldade em lidar com a pressão mediática e uma decisão tem que ser tomada.

Para um filme que se propõe a homenagear a Princesa de Gales, Diana largamente marginaliza e é desrespeitoso para com o legado deixado. O trabalho humanitário é copiosamente desprezado, salvo quando a sua inclusão pode servir de pretexto para alavancar o romance com Hasnat. O romance é, porquanto, o foco deste trabalho; não é biográfico, nem uma expressão de Diana enquanto sujeito de virtudes e defeitos. É uma tentativa quase atroz de humanizar pela via do romance alguém já sobejamente conhecido e eternizado pela sua humanização e pelos seus actos de bondade e caridade. Nos seus derradeiros anos, a Princesa Diana era já alguém com os pés assentes na terra; não satisfeito, o realizador Oliver Hirschbiegel projecta a Princesa do Povo para o ar, para um meio de alguma instabilidade psicológica, a fim de puxá-la à sua maneira, no âmbito da sua perspectiva, para a terra. O espectador não necessita que Diana faça esse percurso moral de descida; precisa sim de acompanhar aquilo que, com os pés assentes na terra, fez para eternizar com tanta nostalgia e afecto o seu nome. E nisto Oliver Hirschbiegel falha completamente, apresentando uma Diana sem vida e sem capacidade de decisão, um caco cujo encanto e admiração não trespassa o ecrã.

Esta Diana, adaptada do livro Diana: Her Last Love de Kate Snell, tem algo de Marilyn Monroe por cima. A dependência emocional pelo sexo masculino é semelhante, a fama transformada em infâmia a mesma e o caminho trágico, quase shakespeariano, escreve-se pelas mesmas linhas. Mas enquanto os complicados relacionamentos de Marilyn Monroe fazem parte da sua imortalização, a imortalização de Diana, e a razão pela qual é relembrada com tanta nostalgia, resulta do seu trabalho e da sua ambição humanitária. É quase indecente que, na tela preta final, na ânsia catártica, seja feita menção ao que de positivo resultou postumamente do seu trabalho quando tanta desconsideração mereceu durante todo o filme. Diana, provavelmente de forma não intencional fomentada pela montagem descontrolada, levanta discretamente uma questão polémica: se o cariz humanitário da Princesa se trata de verdadeira compaixão ou de uma meticulosa acção de relações públicas. Diana, obviamente, não apresenta resposta a esta questão; nem é evidente que se aperceba da sua existência.

Naomi Watts tem um trabalho ingrato. A sua personificação da Princesa Diana é admirável e emula os sui generis maneirismos com uma facilidade tremenda. Contudo, o incansável esforço de Naomi Watts não chega para dissimular um argumento débil e moribundo, de diálogos exagerados, parca intensidade emocional e desadequação de transições. Naomi Watts e Naveen Andrews mostram desconforto em cenas tentativamente mais românticas e proferem os seus diálogos como se ainda numa fase ensaística estivessem; em sua defesa, era difícil conseguir melhor com a material à disposição. Por mais esforços de Naomi Watts e Naveen Andrews para outorgar uma carga emotiva à narrativa, nada podem alcançar quando a montagem é tão desorganizada como esta e quando a realização procura tão cegamente a despretensão que tomba sobre o peso da sua insignificância. A inabilidade de Oliver Hirschbiegel não surpreende; para o espectador que visualizou A Invasão, de 2007, o repto estava lançado.      


A interpretação de Naomi Watts poderá ser duradoura e referenciável, mas Diana cairá no esquecimento. Pelo melhor, porquanto outro projecto mais adequadamente ambicioso e dignificante pode tomar o seu lugar.

CLASSIFICAÇÃO: 2 em 5 estrelas


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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Filme: Como um Trovão (2013)

Absorvente e ousado, Como um Trovão é uma envolvente história de casualidades e aspirações sem meias-medidas levadas a cabo por um elenco compenetrado.

Luke Glanton (Ryan Gosling) realiza acrobacias com a sua moto para viver. Quando descobre ter um filho de uma relação anterior em Schenectady, Nova Iorque, Luke desiste do seu trabalho e decide usar as suas habilidades para assaltar os bancos da localidade para melhor prover a sua criança. Um dia, Luke perde a cabeça e o assalto corre mal. O polícia Avery Cross (Bradley Cooper) pára Luke e é considerado um herói em Schenectady. Mas a nova realidade de Avery não é tão limpa quando deseja, nem o motivo para o seu heroísmo tão enaltecedor.

Como um Trovão começa com um certo grau de incerteza quanto à natureza da sua narrativa. O que inicialmente parece uma história de um pai que procura conquistar o amor e a confiança de um filho cuja existência acaba de tomar conhecimento, transmuta-se para uma longa crónica sobre causas e consequências e o prélio geracional, onde a perspectiva do espectador, reproduzindo igual transmutação, passa por filtros de indulgência. A intenção de Como um Trovão não é criar lados, nem de servir de advogado do diabo; antes, é o de meramente acompanhar, livre da pressão de moralismos, o impacto interpessoal de decisões pessoais. Neste aspecto, Como um Trovão é verdadeiramente absorvente.

As mudanças de perspectiva podem bater como um murro. A primeira, em particular, da qual resulta a despedida prematura de Luke, não parece real, nem se coaduna com o que até ali parecia ser o caminho seguido. Habituar-se pode constituir um desafio, mas é neste decisivo processo que Como um Trovão se liberta de alguma rotina e manifesta a sua real essência. É aqui que se se apercebe que este não é um estudo de personagem, mas sim um estudo de lugar, de influências e inevitabilidades, onde todos os caminhos se mostram necessariamente entrelaçados, onde as acções de um assaltante de bancos, de um bando de polícias corruptos e de um aspirante a Procurador-Geral estão intrinsecamente correlacionadas e dependentes. 

A principal falha de Como um Trovão é não ter dimensão suficiente para o escopo da narrativa. Ainda que sem comprometer o filme, o realizador Derek Cianfrance mostra-se um pouco à deriva, possivelmente incapacitado pela extensão e pela característica crónica do seu próprio argumento. Este não é, afinal, Blue Valentine – Só Tu e Eu, onde a história, embora no mesmo sentido crónico, era mais elementar e objectiva. Em Como um Trovão, a abordagem exige ser menos contida e Derek Cianfrance, preso pela perspectiva, tende para o oposto. Pela positiva, a ambiência conseguida é exemplar. Derek Cianfrance rodeia-se de excelentes valores de produção, onde se destacam a fotografia e a música sorumbáticas. A maneira como a câmara acompanha as sequências de maior acção mantendo-se presa ao próprio veículo da acção é impressionante.

No campo da representação, Ryan Gosling e Bradley Cooper mostram-se no melhor do seu registo e complicam a criação de juízos de valor sobre os comportamentos amorais das suas personagens. Se por um lado as decisões das suas personagens são injustificáveis, Gosling e Cooper fazem compreender o âmbito e a necessidade das mesmas; depois, ante a relativa aceitação do espectador, são capazes de dar a volta e torná-las novamente repreensíveis. Eva Mendes, num papel mais reduzido, trabalha bem a sua personagem; numa fase posterior, Dane DeHaan apresenta-se excepcional.

Como um Trovão, não obstante o refreamento excessivo de Derek Cianfrance, é globalmente outro bom registo do norte-americano, que continua a ser um talento a ter em conta. Aqui não há nem heróis nem malfeitores, nem a estrutura crónica até à geração seguinte permite uma observação de fenómenos psíquicos tão profunda. Como um Trovão é menos drama e mais um relatar cru de verdades cruas, onde o provimento geracional é motriz. 


CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Filme: Blue Jasmine (2013)

Blue Jasmine é o regresso de Woody Allen à boa forma. A sua caricatura social ganha outra camada com Blue Jasmine, onde apresenta uma personagem desequilibrada e moralmente comprometida interpretada de forma brilhante por Cate Blanchett.

Jeanette “Jasmine” Francis (Cate Blanchett) caiu na desgraça. O seu marido Hal (Alec Baldwin) foi apanhado em negócios ilícitos e toda a vasta fortuna do casal Francis foi apreendida pelas autoridades. Aparentemente recuperada de uma profunda depressão, Jasmine viaja para São Francisco para viver temporariamente com a sua irmã Ginger (Sally Hawkins) e recomeçar a sua vida. Contudo, habituada às mordomias e progressivamente desgostosa, a nova vida de Jasmine em São Francisco não será nada fácil.

Enquadrando em pouco minutos e com poucas falas, nos seus habituais planos cénicos, a premissa da sua história, Woody Allen introduz Blue Jasmine como uma sarcástica admiração da riqueza descontrolada e da superioridade falsa. Jasmine, ou Jeanette, não é a habitual musa em quem muitas vezes Woody Allen deposita os seus desejos; é, se de todo alguma coisa para o realizador americano, uma antítese dessa representação costumeira: é uma mulher que não inspira, profundamente embrulhada na decepção, na inconformação e na depressão. Não há dúvidas de que o caminho de Jasmine, descendo à terra, não será feliz; não se estaria a discorrer sobre Woody Allen se se esperasse outro desfecho. O importante aqui é a jornada, compreender nos pequenos detalhes o âmbito da caricatura social.

E assim Jasmine é desde logo introduzida na amplitude das suas fraquezas, entre o consumo excessivo de álcool e o vício desmesurado por auto-medicação. Aqui contrasta com Ginger, a sua irmã adoptiva, alguém que, acostumado às penúrias da vida, deve passar por um igual estado de transformação, mas com resultado distinto. Entre Jasmine e Ginger é criada uma dicotomia social; mesmo que a pobreza que atinge Jasmine coloque as irmãs ao mesmo nível, as diferenças não se erodem: acentuam-se. Ao mesmo tempo, é estabelecida na confusa mente de Jasmine outra dicotomia: entre o seu estado de profusão em Nova Iorque e o seu estado de ampla privação em São Francisco. Se com a primeira dicotomia Woody Allen pretende dissertar sobre as pequenas decisões que tornam dois caminhos inicialmente comuns tão distantemente discrepantes, com a segunda, repousada na insanidade mental de Jasmine, pretende dissertar sobre os grandes abalos, capazes de mudar uma vida inteira, sentidos por grandes decisões. E em bom woodysmo, a grande decisão de Jasmine é puramente sentimental, desapegada de razão ou altruísmo, consequente do ciúme e do rancor. 

Depois de um Para Roma com Amor desinspirado e periclitante, Woody Allen volta a construir um argumento convicto e com valor, com óbvia mais-valia. O argumento não é isento de alguns exageros, maioritariamente relacionados com a personagem estereotipada de Chili e com os seus amigos; todavia, por esta altura, qualquer exagero de Woody Allen é mais mania do que desacerto, e, como tal, deve-se alguma indulgência. Blue Jasmine, além do favorável argumento, conta com um elenco empenhado e competente, onde o destaque é todo de Cate Blanchett, brilhante actriz que parece incapaz de se apresentar mal. Cate Blanchett é verdadeiramente excepcional, criando e desconstruindo uma Jasmine ociosa, egocêntrica e elegantemente desequilibrada, em quem a beleza externa dissimula uma grande pobreza de espírito.


Blue Jasmine, feito de encontros e coincidências, não é inteiramente linear e a abordagem não engloba um necessário princípio, meio e fim. É como uma fotografia instantânea de alguém que estava ilegitimamente no topo do mundo e que, ante a queda, se deixa cair de braços afastados, como se ainda lá em cima estivesse a demonstrar a sua superioridade. Ninguém melhor do que Woody Allen para capturar e transmitir visceralmente a queda.   

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Filme: O Mordomo (2013)

Sempre à procura do equilíbrio entre a lição histórica e a intervenção nos acontecimentos, O Mordomo transforma uma jornada pessoal num caso de reflexão social e política onde os bastidores são o palco principal.       

Cecil Gaines (Forest Whitaker) nasceu e cresceu numa plantação de algodão no sul dos Estados Unidos, onde os seus direitos eram menosprezados. Após a morte violenta do seu pai, Cecil é acolhido pela matriarca da plantação e aprende a ser um serviçal. Anos mais tarde, já em Washington D.C. com a sua família, em plena época de luta pelos direitos civis, Cecil é contratado para a Casa Branca, onde exerce a função de mordomo durante 34 anos, acompanhando as administrações e as decisões de 8 presidentes diferentes.

A narrativa de O Mordomo é muito mais sobre a questão racial e muito menos sobre a servidão de Cecil Gaines na Casa Branca. Se Cecil é testemunha dos históricos eventos que tomaram lugar durante os seus 34 anos de trabalho no número 1600 da Pennsylvania Avenue, o seu filho Louis é o grande participante, se não mesmo um dos grandes influenciadores e instigadores, da revolta social. É nos eventos que acompanham Louis que a narrativa alcança a sua maior vantagem, não obstante ser sobre Cecil e as suas menores peripécias que a câmara mantém o seu fascínio. Tal fascínio não sofre de descabimento; a interacção de Cecil com os sucessivos presidentes e a sua reacção a marcantes acontecimentos é tão preciosa e única quanto o olhar por dentro que Louis facilita da luta pelos direitos civis. O Mordomo procura incessantemente o equilíbrio entre estas duas frentes; e continua sempre a procurá-lo até ao final, nunca o atingindo plenamente, mas nunca se afastando demasiado.  

O argumento de O Mordomo, assinado por Danny Strong, toma em consideração o conhecimento que o espectador já terá dos factos históricos sobre que se debruça. Esta forma de pré-consciência permite que a narrativa avance com ligeireza pelas épocas sem causar estranheza ou confusão significativa (embora a maneira em documentário como executa a maior parte das transições não se coadune totalmente com o mise-en-scène construído). Não urgindo despender tempo na exposição factual, O Mordomo introduz uma temática coberta de total pertinência: a contenda geracional entre acomodados e inconformados dentro da própria raça negra. Aqui, onde também se encaixa a desgastada questão da relação entre pai e filho, surge um paralelo interessante com a famigerada cronografia.      

A parada de caras conhecidas a interpretar figuras históricas é tal e tão rápida que se o espectador se distrair por um momento arrisca-se a perder alguma delas. O elenco é vastíssimo, e de luxo, mas poucos são os que, do meio dele, dispõem do tempo e da bagagem para construir algo memorável. Naturalmente, Forest Whitaker e Oprah Winfrey têm todo o espaço para triunfar e conseguem-no, particularmente a segunda, provando que o seu louvor em A Cor Púrpura não resultou de casual sorte de principiante e que a sua escolha para o papel de Gloria Gaines não reverteu de um processo de vulgarização. A surpresa no plano da interpretação recai sobre o britânico David Oyelowo, mostrando-se versátil e preparado para as várias fases e atitudes da vida de Louis. 

Lee Daniels, abastecido da essência empírica adquirida com Precious, filma O Mordomo com a mesma preocupação e detalhe, revelando-se, todavia, mais apressado e preso ao resultado. Os valores de produção mostram-se competentes em todas as linhas, onde a caracterização é magnífica nos anos intermédios e um tanto estranha nos anos avançados. A música de Rodrigo Leão, que por vezes se reduz perante a banda sonora representativa das diferentes épocas e dos sentimentos referentes, é envolvente e emocionante; quando se abre – quando tem oportunidade para se abrir – enche os ouvidos e encanta.


O final de O Mordomo deixa uma sensação anti-climática, de resolução não completamente terminada. O filme pode não ser a reflexão e o ressurgimento social que Lee Daniels pretendia; mas é um projecto competente e relevante o suficiente para merecer a atenção e o apreço do espectador.   

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Filme: Trip de Família (2013)

Longo e estereotípico, e renunciando qualquer perspectiva moralizante, Trip de Família é outra comédia americana de Verão que se rege pelos mínimos para satisfazer uma audiência desinteressada.

Quando David Clark (Jason Sudeikis), um traficante local pela meia-idade, perde todo o seu depósito e todo o seu dinheiro amealhado num assalto evitável, David vê-se em maus lençóis perante o seu chefe. Para dar a volta à situação, Clark aceita viajar até ao México para transportar um depósito de droga para os Estados Unidos. Para passar a fronteira em segurança, Clark decide criar uma família falsa: os Millers. Contudo, a travessia não será tão tranquila quanto Clark supõe.

Trip de Família nunca chega a exceder as expectativas mínimas a que o espectador já se acostumou a rodear perante tão habituais comédias americanas de Verão cujo mero intuito, entre algumas situações forçadas e algumas situações improváveis, é o de levantar um pequeno sorriso. Seguindo um caminho formulista, Trip de Família introduz uma problemática comum – neste caso, as contrariedades de dois adultos pela meia-idade sem qualquer estatuto ou aspiração social e as dificuldades de dois adolescentes sem protecção familiar – para elaborar uma narrativa a espaços agradável, contudo maioritariamente estapafúrdia e ilógica, onde as paragens na estrada imperam por nenhuma razão em especial. Tendencialmente ofensivo, a comédia, que a dupla Bob Fisher e Steve Faber assina, não se salva de alguma inclinação xenófoba no tratamento da envolvência mexicana e do seu povo. O preconceito demonstrado é inteiramente evitável e não deve ser desconsiderado em obséquio da comédia fácil. Nem deve a típica ponderação dramática e moral no último acto servir de expiação ou descanso.   

Mas nem tudo é integralmente mau em Trip de Família. Há uma cómica actuação de Nick Offerman e de Kathryn Hahn enquanto o casal Fitzgerald, contrabalançado, durante o tempo em que o casal está presente, a prestação distante e desinteressada de Jason Sudeikis e de Jennifer Aniston, o primeiro a apresentar-se sem critério e a segunda a pavonear-se por conveniência da sua formosura física. Will Poulter, como Kenny Rossmore, aparece à mistura como o bobo da festa, a quem os mais inverosímeis infortúnios sucedem; Emma Roberts, como Casey Mathis, a rebelde de serviço, cumpre o suficiente para não tornar Mathis completamente esquecível. Enquanto uma família de fachada onde a qualidade relacional deve sofrer necessárias dinâmicas, as interacções entre Sudeikis, Aniston, Poulter e Roberts mantém-se relativamente inalteradas do início ao fim, abdicando na maioria de situações conflituosas e criando ab initio cumplicidades afectivas.


O trabalho do realizador Rawson Marshall Thurber é, na soma das partes, desinspirado. Marshall Thurber perde tempo e insiste demasiado em cenas de humor que, no seu processo de montagem com Michael L. Sale, certamente considerou mais engraçadas do que efectivamente se revelam ao espectador, perdas de tempo que globalmente prolongam o filme além do sadiamente ideal. No conjunto, Trip de Família não diverte muito, mas não é completamente desprovido de comicidade e de uma ou outra sequência admissivelmente hilariante; não são, no entanto, em número e qualidade suficiente para colmatar as limitações de um argumento pobre e sem espírito.    

CLASSIFICAÇÃO: 2 em 5 estrelas


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terça-feira, 27 de agosto de 2013

Filme: A Gaiola Dourada (2013)

Absolutamente hilariante e sagaz, A Gaiola Dourada é simultaneamente uma cómica representação e uma adequada comemoração dos costumes e das idoneidades portuguesas onde as probabilidades de familiaridade são elevadas.     

Quando Maria (Rita Blanco) e José Ribeiro (Joaquim de Almeida), dois emigrantes portugueses a viver em França, descobrem que herdaram uma quinta da família no Norte de Portugal, têm que decidir pelo regresso à casa-mãe ou pela permanência no país acolhedor. O que Maria e José não imaginam, no entanto, é que o começo de um mexerico colocará toda a vizinhança em polvoroso, levando-os a avaliar toda a sua vida e todo o seu trabalho enquanto emigrantes.

Intrinsecamente português, A Gaiola Dourada é, antes de mais, uma brilhante e inteligente comédia expedita que nunca perde o timing do seu humor e a perspicácia das suas referências culturais. Mas é, tal-qualmente, não obstante a sua intenção primordial de entreter e causar boa disposição, uma sentida e sábia homenagem ao emigrante português e à sua constante luta em terras estrangeiras. É um tributo aos incontáveis sonhos e esperanças que corajosas gerações viram esbarrar em paredes de agressividade cultural e estratificação social; é um necessário reconhecer da marcante posição que tais gerações ocuparam em terras desconhecidas. A Gaiola Dourada combina inteligente e divertidamente a costumeira desvalorização do emigrante português com o inevitável reconhecimento do seu mérito, originando na cómica disseminação das novas sobre a herança adquirida pela família Ribeiro o abrir de olhos que coloca a relevância da competência portuguesa em perspectiva.  

Com um argumento simples e sem rodeios, A Gaiola Dourada faz das tradições e da muita característica forma de estar portuguesa o seu grande trunfo. Raro será o espectador que não se reverá em alguma das hilariantes situações representadas, nos muitos valores e nos muitos defeitos portugueses. Para o melhor e para o pior, a essência portuguesa é apresentada como se conhece, na amplitude da sua tipicidade e tradicionalidade, na variedade dos seus símbolos e preconceitos. E quando, mais para o fim da narrativa, A Gaiola Dourada se torna mais sério e preocupado, ante um importante choque geracional que concerne a todos, a essência portuguesa atinge a sua grandeza e o seu brio.

A Gaiola Dourada é um filme que toca especialmente o espectador português; ser-lhe-á extrema e positivamente íntimo, tal como o realizador luso-francês Ruben Alves se mostra a todas as alturas extrema e positivamente íntimo e compactuado com a envolvência narrativa. Na sua visão descomplicada da linha de acção, Ruben Alves raramente perde sentido do leque de mensagens que procura transmitir. Não prima em todas (em particular, o tema da vergonha e da rejeição parental a envolver a personagem Pedro Ribeiro fica abaixo do potencial prometido); todavia, nunca fica dissuasoriamente aquém. Ruben Alves beneficia de um elenco brilhante e à-vontade nos respectivos papéis, quer nos pesos da comédia, quer nos pesos do drama; particularizar uma ou outra interpretação é um exercício escusado, mas Rita Blanco, em virtude da sua incrível capacidade para criar uma autêntica dona de casa portuguesa, merece um destaque especial.  


A Gaiola Portuguesa faz rir, e rir muito; também dá muito que pensar. Além de uma incrível e apaixonante comédia, é uma importante difusão da cultura e da aptidão portuguesas; como tal, não pode ser ignorado.      

CLASSIFICAÇÃO:  4 em 5 estrelas


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sábado, 17 de agosto de 2013

Filme: Elysium (2013)

Elysium, olhando por alto pertinentes temáticas políticas e sociais, é um decente filme de ficção-científica que não chega perto de Distrito 9, mas que continua a expressar a imensa criatividade de Neill Blomkamp.

No ano de 2154 a Terra encontra-se sobrepovoada. Os desfavorecidos vivem no planeta moribundo e os favorecidos habitam uma estação luxuosa, Elysium, a orbitar o planeta. Quando Max Da Costa (Matt Damon) sofre um grave acidente de radiação na fábrica onde trabalha, Max percebe que a sua única salvação é chegar à estação e curar-se. Em Elysium, a Secretária da Defesa Jessica Delacourt (Jodie Foster) não tolera a aproximação de qualquer ilegal; o seu agente na Terra, C.M. Kruger (Sharlto Copley), fará o necessário para se assegurar disso.

Ao contrário de Distrito 9, que consagrou a entrada no grande plano do sul-africano Neill Blomkamp, Elysium não é um projecto de ficção-científica tão espontâneo e inesperado. Ao segundo filme, Blomkamp, embora sem nunca perder sentido da sua engenhosa criatividade, revela-se pecaminosamente comodista, parecendo, aliás, temer aprofundar o âmbito e a crítica política e social com que tão bem lidou em Distrito 9. Questões de segregação racial permanecem lá, a que se juntam as discussões do fosso entre a classe mais rica e a classe mais pobre, da imigração e do sistema de saúde; todavia, não querendo parecer reivindicativo, Blomkamp evita expor-se demasiado ao espectador, desconsiderando a ideia de que um filme também pode ser – e em alguns casos deve efectivamente ser – uma manifestação das crenças do seu realizador.    

A concepção de um lugar como Elysium, onde os privilegiados vivem e prosperam, retirada directamente da mitologia grega, coloca ainda sobre o filme uma carga moral e religiosa onde a personagem Max Da Costa funciona como o profetizado salvador que irá repor o equilíbrio na sociedade. Através de um engenho que lhe fornece força e rapidez superiores, Max transforma-se inevitavelmente no herói provável. Tal como na mitologia grega, Max é um herói, um semideus se se quiser, que procura conquistar o seu lugar no Elísio, no Elysium de Blomkamp. Lá do céu, a personagem Jessica Delacourt funciona como o deus insurrecto, constantemente à procura do poder total, que se sente desafiado por Max; na terra, Kruger é o agente negro de Delacourt encarregue de impedir o herói Max.

Criatividade à parte, Blomkamp coloca excessiva ênfase na batalha de Max com Kruger, onde não falta a dama em apuros que torna a tarefa de Max mais ambígua. Negligencia na maioria a envolvente terráquea (a ideia de que o espanhol será a língua dominante na América é curioso); o foco está sempre voltado para cima, para Elysium, quando o interesse narrativo e moral está em baixo. A sua execução técnica é extremamente eficiente e cuidadosa e particularmente impressionante nas sequências a envolver a estação Elysium, abrilhantadas por uma banda sonora apoteótica de Ryan Amon. As actuações de Matt Damon e de Sharlto Copley puxam Elysium para a frente: Damon apresenta a dose certa de pujança física e cansaço emocional para tornar o seu herói interessante, enquanto Copley é estranho o suficiente para tornar o seu vilão imprevisível. A empurrar Elysium para trás contam uma interpretação estranhamente desinspirada de Jodie Foster e uma performance corriqueira de Alice Braga.  

Os derradeiros momentos de Elysium são uma mostra do filme que podia ter sido, mas que, em última análise, não foi: um olhar sobre a intemporal luta social entre a classe desfavorecida e a classe privilegiada. Não é de forma alguma um mau filme, nem de todo um grande filme. Seguindo Distrito 9, confirma que Neill Blomkamp não é um acaso de um só projecto e que ainda tem muito para dar. Tenha mais bravura, a sua criatividade não servirá apenas de utensílio visual.   

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


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domingo, 11 de agosto de 2013

Filme: Möbius - Laço Mortal (2013)

Möbius – Laço Mortal procura ser um drama sofisticado, mas é no princípio dramático mais simples que o seu modesto sucesso reside: na relação amorosa entre os seus protagonistas. Qualquer outra pretensão é sem fundamento.  

Quando Cherkachin (Vladimir Menshov) percebe que se pode tornar no próximo director do FSB, decidi destruir Rostovsky (Tim Roth), o magnata que o colocará lá. Para tal, incube o seu agente Gregory “Moïse” Lyubov (Jean Dujardin) para recolher informações sobre os negócios ilícitos de Rostovsky. Moïse cria um plano que envolve Alice (Cécile de France), uma brilhante analista financeira a trabalhar num dos bancos de Rostovsky.   

Prestar especial atenção no primeiro quarto de hora de Möbius – Laço Mortal é fundamental para compreender a narrativa, uma demasiado amarrada sobre si própria para o seu bem. A complexidade do mundo da espionagem nunca é dissuasora, mas quando emaranhada na linguagem intrincada de um mundo financeiro desconhecido do espectador comum arrisca tornar-se comprometedora. O realizador e argumentista Éric Rochant pretende extrair de Möbius – Laço Mortal algo muito mais sofisticado do que a estrutura sustenta, encontrando até na personagem de Alice uma responsável pela crise financeira que abalou a sociedade nos últimos anos, a que acresce a disputa política e histórica entre as agências secretas dos Estados Unidos e da Rússia, numa continuada guerra fria já mais para o morno.

A estrutura só não rui graças à encantadora e cheia de química ligação das personagens Moïse e Alice, cujos riscos num mundo carregado de segredos e contra-informações ajudam a moldar um relacionamento docemente complicado, destinado, mais cedo ou mais tarde, ao desastre. Os perigos da sedução numa envolvente onde todos mentem para sobreviver são inúmeros, mas Alice e Moïse, incapazes de resistir à sedução mútua, expõem-se ao seu mundo e ao espectador, residindo aqui o ponto de interesse de Möbius – Laço Mortal. O engrandecido foco no relacionamento de Moïse com Alice, passando para o plano acessório as perspectivas financeiras e de espionagem, aumenta eficazmente a intensidade na segunda metade do filme, alinhando correctamente todas as peças para um desfecho que, embora não necessariamente fechado, é ajustado à luz do mundo construído.     

Éric Rochant faz um trabalho decente atrás das câmaras, resistindo à fácil ostentação do luxo que por vezes contagia trabalhos sobre o mundo da espionagem, sobretudo quando filmado num local tão magnificente como o Mónaco indiscutivelmente é. Se Éric Rochant é puramente pragmático na sua captura da narrativa, não o é na forma como aborda o relacionamento entre Moïse e Alice, cujos momentos mais íntimos são capturados de uma forma tão constrangedora quanto arrebatadora. Éric Rochant extrai de Jean Dujardin e de Cécile de France duas representações aliciantes. Dujardin trabalha o sedutor sem dificuldade, criando uma espécie de James Bond russo mais terra-a-terra; do ponto de vista leigo, o seu russo parece muito bem treinado. Cécile de France cria uma Alice confiante, segura e inteligente; é deslumbrante e a câmara nunca se cansa da sua formosa figura feminina.   


Möbius – Laço Mortal não é o típico drama e as distintivas de thriller são até mais evidentes. Funciona na relativa maioria, sobretudo quando finalmente se convence que a sua história é muito mais sobre o complicado relacionamento de Moïse com Alice no mundo da espionagem do que exclusivamente sobre o mundo da espionagem com implicações financeiras. 

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Filme: Phantom - Submarino Fantasma (2013)

Com uma execução fraca, Phantom – Submarino Fantasma apoia-se num elenco esforçado para materializar uma história improvável de uma maneira banal e sem proporção emocional.

Apenas três semanas depois de regressar de uma longa missão, o Capitão Demi (Ed Harris), à beira da reforma, é instruído para reunir a sua tripulação num submarino antigo e apoiar uma missão secreta do KGB que pretende testar uma nova tecnologia e alterar a sorte da União Soviética numa longa guerra silenciosa e sem resolução. Quando Demi se apercebe que as intenções do agente do KGB Bruni (David Duchovny) são pouco leais, Demi não se sente disposto a abdicar dos seus valores morais por gratificações e reconhecimentos.

Phantom – Submarino Fantasma, escrito e realizado por Todd Robinson, é um filme de classe B que, não sendo necessariamente mau, não reúne qualidades suficientes para espicaçar interesse e atenção no espectador, ainda que a narrativa tencione relatar alegadas ocorrências verídicas que colocaram o mundo perto de uma guerra nuclear à escala planetária no auge da Guerra Fria. Na intricada linguagem naval que acompanha as decisões dos protagonistas, o filme ganha uma grave dependência da sugestão visual para fazer progressos expositivos, determinando negativamente a sensação de espaço confinado que tão positivamente resultou em empreendimentos análogos no passado. Onde Robinson provavelmente pretendia, com um foco intenso no Capitão Demi, uma visão mais meditada e perturbada dos graves incidentes, existe uma amálgama conflituosa entre categorias navais e intensidades políticas e patrióticas a resultar num conjunto frustrantemente previsível de motins a inverter o poder dentro do submarino de Demi. A impressão pessoal é largamente marginalizada e apenas o passado desastroso do Capitão é objecto de alguma consideração.

A Guerra Fria é meramente circunstancial em Phantom – Submarino Fantasma e a alusão às divergências entre Washington, Moscovo e Pequim é frouxa e pobremente arquitectada. Baseada na teoria de Kenneth Sewell presente no seu trabalho de investigação Red Star Rogue – The Untold Story of a Soviet Submarine's Nuclear Strike Attempt on the U.S., a concepção de um mecanismo de camuflagem a dar começo a uma guerra é exagerada e sem sentido, sendo difícil de crer que algum dos países envolvidos tomasse o irrevogável passo de levantar armas sem reunir todas as evidências. Mas nem a improbabilidade da acção de Phantom – Submarino Fantasma importaria se o filme portasse alguma tensão dramática; qualquer expectativa por tensão dramática, embora a fotografia pesada e a música melancólica, sai gorada, não obstante encontros repetidos com instantes apropriados. Robinson mostra-se inteiramente incapaz de lidar com a oportunidade emocional e a sua execução torna-se essencialmente convencional e oca.
  

A benesse de Phantom – Submarino Fantasma é um elenco competente a ser capaz de espremer sumo de limões secos. Ed Harris, embora a pobreza de particularidades do Capitão Demi, reconhece potencial suficiente no seu papel para melhorar sobre o argumento. O seu esforço é digno, tal como são os de David Duchovny e William Fichtner, apesar da rotina que empesta as suas personagens. Os três actores fazem o que podem com o material à sua disposição e as manifestas imperfeições das suas personagens não lhes devem ser imputadas. Todavia, anunciar Robinson como responsável máximo pelo fracasso de Phantom – Submarino Fantasma é exceder na avaliação: seria difícil para qualquer um discorrer cinematograficamente sobre uma não-história.    

CLASSIFICAÇÃO: 1,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Filme: Só Deus Perdoa (2013)

Embora divisivo, Só Deus Perdoa cumpre satisfatoriamente as expectativas, mesmo que mal se aproxime de Drive – Risco Duplo, onde Refn e Gosling se mostraram no seu melhor. Desta colaboração sobeja uma sensação de fantasia e extravagância visual que permanece com o espectador.

Quando o seu irmão Billy (Tom Burke) é brutalmente assassinado, Julian (Ryan Gosling) procura o responsável pelo acto e perdoa-o. Mas quando a sua mãe Crystal (Kristin Scott Thomas) viaja até Banguecoque, Tailândia, para levar o corpo de Billy para casa, Julian é forçado a exercer a vingança da família, colocando-se no caminho do perigoso e corrupto Tenente Chang (Vithaya Pansringarm) da polícia local.    

Só Deus Perdoa beneficia da saudável colaboração entre o realizador Nicolas Winding Refn e o actor Ryan Gosling e da compreensão mútua que, num filme particularmente parco em diálogos, trespassa o ambiente amplamente contemplativo e permite decifrar. Todavia, a maneira como Só Deus Perdoa se inclina inesperadamente para a violência gráfica pode ser terrivelmente dissuasora, embora a linha de vingança seguida por Refn seja mais refinada que, por exemplo, a de Kill Bill. Entre os ajustes de contes tradicionais, os tráficos e as corrupções policiais e as leves sugestões de natureza sexual e incestuosa, Só Deus Perdoa evidencia-se num princípio sedutoramente simples: na silenciosamente atormentada relação entre um filho secundário e uma mãe controladora. Julian, constantemente perturbado pelos seus conflitos e pelas suas dificuldades de relacionamento, procura ser justo num mundo sem justiça, agarrar-se a uma réstia de moralidade num meio clandestino que desconhece isso. Julian não age e mal reage; observa e aceita, enquanto ao seu redor todos fazem o que for preciso para exercer a sua estranha noção de justiça.

Só Deus Perdoa raramente se coloca emocionalmente à disposição do espectador, isolando-se numa forma de introspecção cerrada. Não obstante, existem momentos que capturam o espectador e que, não o largando, lhe provocam sensações contrárias. Maioritariamente associadas a instantes de violência, provocam angústia e mal-estar. Em particular, uma cena de tortura no começo da segunda parte é de digestão difícil, indo mais longe do que as barreiras morais que o espectador julga protegê-lo. Refn não parece interessado em facilitar e a sua realização, à base de impressões fortes, compromete-se. A montagem deixa a desejar – transita aos saltos entre cenas – e os planos são exageradamente fotográficos.

Larry Smith imprime uma fotografia encantadora à base de cores vivas e carregadas, onde primam os azuis, os vermelhos e os amarelos (porventura a consagrar a bandeira tailandesa). O jogo de luz e sombras é curioso e a cisma pelo olhar ensimesmado de Gosling, mais do que um capricho, é uma conduta, ou não sejam os olhos de Gosling a principal fonte de assimilação e apreciação do espectador. Gosling tem pouco mais do que uma dúzia de falas; a sua actuação é essencialmente reflectiva, mas as mensagens e as impressões de Julian nunca se perdem ou ficam pela metade. Kristin Scott Thomas não é capaz da mesma carga reflectiva e a câmara quase que se perde na sua beleza natural, mas Scott Thomas alcança a autoridade suficiente de uma mãe e de uma matriarca dominadora. O desconhecido Vithaya Pansringarm tem no papel de Chang uma excelsa oportunidade para se apresentar ao mais alto nível no plano cinematográfico e a sua interpretação não defrauda: é adequadamente intensa e enigmática.    


Não sendo completamente esquecível, Só Deus Perdoa não tem uma capacidade de reminiscência muito grande. Talvez seja da violência crua ou da realização inconstante. Talvez seja da infinda contemplação. Que algo não está acomodado em concordância parece ser uma justa constatação, mas também é isso que faz com que se discorra sobre Só Deus Perdoa

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


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quinta-feira, 18 de julho de 2013

Filme: Batalha do Pacífico (2013)

Ruidoso, confuso e recheado de frases feitas, Batalha do Pacífico é uma amálgama alarmante onde o toque de Midas de Guillermo del Toro para o fantástico e imaginativo parece ter secado.

Quando um Kaiju, um gigantesco monstro alienígena, atravessa uma brecha no Oceano Pacífico de um universo paralelo, as forças governamentais mundiais unem-se para dar uma resposta à altura, criando o Programa Jaeger para produzir igualmente gigantescos robôs. Anos mais tarde, o Programa Jaeger perdeu popularidade e financiamento, mas pode ser a única e derradeira salvação da humanidade quando a ameaça dos Kaiju se torna maior.

A mente criativa de Guillermo del Toro raramente deixa a desejar, mas Batalha do Pacífico é um daqueles raros casos em que a sua visão criadora atinge excessos e se rodeia de incongruências. Não significa, todavia, que o elemento de ficção científica assente mal neste projecto. A narrativa associada aos monstros Kaiju e à sua origem suscita interesse, onde a influência da mitologia japonesa e, porque não, de Godzilla é inteligível. Contudo, o argumento de del Toro, que Travis Beacham também assina, parece recusar-se, ante as sucessivas oportunidades que se apresentam, a desenvolver a sua mitologia, quiçá precavendo-se para uma eventual sequela. O que sobra, então? Uma interminável e dolorosa apresentação de CGI inacabado e de inteiras sequências por computador que, embora a barulheira e explosão de cores, demonstram pouca vida e péssima vitalidade.     

Se a mitologia associada aos Kaiju tem o seu relativo valor, a associada aos Jaegers é de pouca monta. O prólogo de Batalha do Pacífico trabalha a ritmo elevado para criar e elevar expectativas, identificando a criação dos gigantescos robôs e a maneira especial como funcionam, mas o produto decorrente é altamente perecível. O processo de “Impulsão” é o único elemento associado aos Jaegers que, justiça seja feita, é original e imaginativo. É, também, o único ponto por onde se pode enaltecer o filme. Do processo de “Impulsão” surge a integrante humana que tanta falta faz às tresloucadas sequências de acção e surgem os únicos momentos em que o filme pausa e se torna sério.

Num filme onde todos parecem gritar constantemente, de onde não se exclui a banda sonora, as actuações são insatisfatórias. Além de algum erro de casting entre Charlie Hunnam e Robert Kazinsky, que parecem praticar o jogo do gato e do rato com a audiência, somam-se as actuações enervantes de Charlie Day e Burn Gorman enquanto dois cientistas alucinados, actuações que, despidas da intenção cómica, são profundamente inconsequentes. Idris Elba interpreta uma alta patente militar como tantas outras que já passaram pelo grande ecrã, acrescentando pouco e inovando nada. Safa-se desta melancolia a japonesa Rinko Kikuchi, criando com competência valor emocional na personagem Mako Mori.


A utilização da tecnologia 3D é favorável e a mais aprimorada dos últimos meses, não seja del Toro um dos mais perfeccionistas no seu ramo. Aliás, o seu êxtase em Batalha do Pacífico é manifesto. No seu recreio predilecto, o mexicano diverte-se com os seus robôs e com os seus monstros a bel-prazer. Talvez nada seja para ser levado a sério, mas nenhum recreio alguma vez é, e neste recreio em particular a seriedade é tão rara quanto pó de osso de Kaiju

CLASSIFICAÇÃO: 2 em 5 estrelas


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