quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Filme: Raptadas (2013)

Raptadas é um thriller intenso, sóbrio e absorvente, pautado por boas interpretações e uma boa direcção de Denis Villeneuve. Hugh Jackman segura a narrativa pelas rédeas e dá outra demonstração das suas capacidades.

Na Pensilvânia, no Dia de Acção de Graças, as famílias vizinhas Dover e Birch reúnem-se para celebrar a festividade. Anna Dover e Joy Birch, as duas crianças de cada família, saem de casa para brincar na rua. Anna e Joy não voltam. A polícia é chamada ao local e o detective Loki (Jake Gyllenhaal) toma conta do caso. Com o alongar da investigação sem resultados concretos, Keller Dover (Hugh Jackman) e Franklin Birch (Terrence Howard) decidem agir pelos seus próprios meios sobre aquele que consideram responsável pelo rapto das duas crianças.

Raptadas demora o necessário para desenrolar as potencialidades da sua narrativa, usando a por vezes rara consciência e soberania sobre o tempo para construir um apropriado cenário sorumbático e tristonho. Com os segredos da narrativa guardados a sete chaves pela maior parte do tempo, Raptadas coloca o espectador numa investigação paralela à que se desenrola paulatinamente no grande ecrã. Se o detective Loki tem as suas pistas e suspeitas sobre o desaparecimento de Anna e Joy, o espectador, que dispõe de uma clarividência superior, poderá ter uma visão inteiramente distinta. O triunfo de Raptadas, além do sorumbático tom construído, reside na forma como questiona e faz questionar e mantém a audiência num palpitante jogo de gato e rato até à revelação final.

O tom religioso que supervisiona o filme desde a primeira linha prenuncia uma relação moral, e não defrauda. As diversas decisões tomadas pelos intervenientes da narrativa manifestam um desenlace amoral como resultado da decisão imoral do rapto das duas crianças. Em particular, a captura e consequente tortura por parte de Keller Dover do presumível raptor caracteriza magnificamente a dose incontrolável de desespero e incerteza resultante da primeira imoralidade; demonstra também a ténue limítrofe a que um pai se circunscreve para recuperar a sua filha. A intenção de Raptadas não é colocar o espectador do lado de Keller, nem contra ele; é meramente coadunar-se com a sua essência humana. 

Raptadas perde algumas engrenagens à entrada do último acto e transparece a ideia de que o final poderá empalidecer em comparação com o que veio anteriormente. Efectivamente, alguma da sobriedade esgota-se. As até então ponderadas vias de investigação – à moda antiga – são abandonadas e o caso resolve-se por intervenção externa com o reaparecimento súbito e inexplicado de uma das crianças. Não invalida a investigação que vinha sendo feita, por Loki, Keller ou pelo espectador, mas não lhe permite uma conclusão com clímace.

O canadiano Denis Villeneuve faz um bom trabalho atrás das câmaras, apresentando uma realização segura e instruída. A ambiência que cria, com a fotografia turva (a chuva que cai é muita), a música ora tensa ora soturna e a montagem certeira, absorve o espectador e envolve-o na insegurança que também envolve as suas personagens. Denis Villeneuve obtém dos seus actores interpretações fortes. Hugh Jackman apresenta-se em grande nível e comanda o filme; intenso, impaciente e ameaçador, Keller Dover é uma vítima perpetradora que inflige mais medo no espectador que o reprovável acto que é premissa para esta história. Jake Gyllenhaal, sem ombrear com Hugh Jackman, apresenta-se em bom plano, bem como o restante elenco.  

Raptadas é um dos melhores thrillers dos últimos meses. É um thriller que não se preocupa em mostrar o resultado, mas sim o processo para lá chegar, tomando pelo caminho as providências necessárias para manter a audiência agarrada à mesma esperança que move as suas personagens, não obstante a envolvência tristonha que prenuncia um final menos agradável.

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


Trailer: 


        

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Filme: Gravidade (2013)


A viagem ao Espaço de Gravidade é uma experiência fabulosa e deslumbrante que absorve e impressiona. Ímpar na ambição e na execução, pode muito bem ser a obra de referência de Alfonso Cuarón.

A missão espacial STS-157 encontra-se na recta final dos seus trabalhos de manutenção ao Telescópio Hubble. A STS-157 é a primeira viagem ao Espaço da estreante Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e a última do veterano Matt Kowalski (George Clooney). Prestes a acabar o seu trabalho e a regressar a casa, a tripulação vê-se no meio de uma tempestade de atritos de satélites abatidos que arrisca a sobrevivência de toda a Missão.

Gravidade é uma experiência absorvente sem paralelo. Da primeira icónica cena crescente de um planeta Terra silencioso e tranquilo a uma última que é semelhante nos apanágios, embora numa índole diferente, Gravidade faz uso do seu poder gravitacional visual para manter a audiência suspensa aos alucinantes acontecimentos. O nível de detalhe é tão imenso e distinto que o tamanho da tela não parece capaz de conter toda a energia de uma câmara vigorosa e omnipresente. Gravidade, e não só por trâmite de uma aplicação a três dimensões admirável, extravasa as fronteiras da tela e puxa o espectador para os seus eventos. Muita desta sensação resulta da forma como Alfonso Cuarón, repleto de magia na sua execução, dá a ideia de que subiu ele próprio ao Espaço para filmar o seu ambicioso projecto. A física, mesmo que não infinitamente perfeita, apresenta-se criteriosamente cumprida; Alfonso Cuarón entrega aquilo que promete na premissa da sua história (obediência total à ausência de oxigénio, de pressão de ar e de som no Espaço).

A precisão e a clareza visual da Terra, do Espaço e das plataformas espaciais são impressionantes. Aliadas a uma banda sonora experimental e docemente desconcertante, Gravidade produz momentos de ansiedade capazes de fazer suster a respiração. Curiosamente, num meio tão vasto quanto aquele onde os tripulantes da Missão STS-157 se encontram, a impressão que ressalta é uma de imensa claustrofobia. O tratamento psicológico de que estes tripulantes são alvo desperta desconforto e preocupação. Basta atentar à sua respiração ofegante e esforçada para depreender o seu estado de espírito alarmado e desnorteado. No meio do atordoamento visual e sonoro, Gravidade encontra espaço para desenvolver o lado sensível destas personagens, em particular o da Dra. Ryan Stone, em quem deposita a esperança de uma ligação emotiva com a audiência – ligação que funciona impecavelmente e permite desculpar alguns ociosos automatismos.

A narrativa de Gravidade é simples e precisa, não cobiçando interpretações morais ou facciosas. É a mera história de uma tripulação em missão espacial na órbita da Terra que sofre uma terrível contrariedade e faz o necessário para sobreviver. Se Gravidade apresenta alguma notória falha é nesta natureza tão simplista que, sem outros atributos ou instrumentos de narrativa, vive de uma expressividade excessiva da Lei de Murphy. Todavia, numa experiência tão arrebatadora como esta, a narrativa é menos relevante e o veículo visual mais representativo. Nesta particularidade, Gravidade suplanta qualquer expectativa e estabelece um novo sustentáculo de comparabilidade. O espectador sai desta experiência assombrado e estonteado como se, tendo acompanhado a subida e a estada de Alfonso Cuarón no Espaço, tivesse abruptamente caído na atmosfera terrestre (e, neste caso, na apercepção cinematográfica do acontecimento).

Não obstante o peso visual, Sandra Bullock tem a importante tarefa de tornar a Dra. Ryan Stone apelativa e relacionável. Bullock consegue-o com relativo pouco esforço, ressalvando as fragilidades emocionais da sua personagem no meio do caos espacial. George Clooney não tem muito tempo de ecrã, nem nunca se lhe exige demasiado, mas marca cada cena com o seu discursar brando e reconfortante. A fotografia de Emmanuel Lubezki é globalmente brilhante e inclui momentos de verdadeira sublimidade. O uso da capacidade de aprofundamento espacial do 3D é raramente tão consistente e absorvente como este. Alfonso Cuarón tem possivelmente em Gravidade o seu melhor trabalho; é certamente o seu melhor trabalho visual. O tempo dirá da capacidade de permanência de Gravidade, mas este pode muito bem ser um dos melhores filmes espaciais, senão o melhor. É, incontornavelmente, o mais fidedigno, o mais extraordinário e o mais próximo que cada um pode almejar ficar da experiência extraterrena.   

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas


Trailer: