sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Filme: O Mordomo (2013)

Sempre à procura do equilíbrio entre a lição histórica e a intervenção nos acontecimentos, O Mordomo transforma uma jornada pessoal num caso de reflexão social e política onde os bastidores são o palco principal.       

Cecil Gaines (Forest Whitaker) nasceu e cresceu numa plantação de algodão no sul dos Estados Unidos, onde os seus direitos eram menosprezados. Após a morte violenta do seu pai, Cecil é acolhido pela matriarca da plantação e aprende a ser um serviçal. Anos mais tarde, já em Washington D.C. com a sua família, em plena época de luta pelos direitos civis, Cecil é contratado para a Casa Branca, onde exerce a função de mordomo durante 34 anos, acompanhando as administrações e as decisões de 8 presidentes diferentes.

A narrativa de O Mordomo é muito mais sobre a questão racial e muito menos sobre a servidão de Cecil Gaines na Casa Branca. Se Cecil é testemunha dos históricos eventos que tomaram lugar durante os seus 34 anos de trabalho no número 1600 da Pennsylvania Avenue, o seu filho Louis é o grande participante, se não mesmo um dos grandes influenciadores e instigadores, da revolta social. É nos eventos que acompanham Louis que a narrativa alcança a sua maior vantagem, não obstante ser sobre Cecil e as suas menores peripécias que a câmara mantém o seu fascínio. Tal fascínio não sofre de descabimento; a interacção de Cecil com os sucessivos presidentes e a sua reacção a marcantes acontecimentos é tão preciosa e única quanto o olhar por dentro que Louis facilita da luta pelos direitos civis. O Mordomo procura incessantemente o equilíbrio entre estas duas frentes; e continua sempre a procurá-lo até ao final, nunca o atingindo plenamente, mas nunca se afastando demasiado.  

O argumento de O Mordomo, assinado por Danny Strong, toma em consideração o conhecimento que o espectador já terá dos factos históricos sobre que se debruça. Esta forma de pré-consciência permite que a narrativa avance com ligeireza pelas épocas sem causar estranheza ou confusão significativa (embora a maneira em documentário como executa a maior parte das transições não se coadune totalmente com o mise-en-scène construído). Não urgindo despender tempo na exposição factual, O Mordomo introduz uma temática coberta de total pertinência: a contenda geracional entre acomodados e inconformados dentro da própria raça negra. Aqui, onde também se encaixa a desgastada questão da relação entre pai e filho, surge um paralelo interessante com a famigerada cronografia.      

A parada de caras conhecidas a interpretar figuras históricas é tal e tão rápida que se o espectador se distrair por um momento arrisca-se a perder alguma delas. O elenco é vastíssimo, e de luxo, mas poucos são os que, do meio dele, dispõem do tempo e da bagagem para construir algo memorável. Naturalmente, Forest Whitaker e Oprah Winfrey têm todo o espaço para triunfar e conseguem-no, particularmente a segunda, provando que o seu louvor em A Cor Púrpura não resultou de casual sorte de principiante e que a sua escolha para o papel de Gloria Gaines não reverteu de um processo de vulgarização. A surpresa no plano da interpretação recai sobre o britânico David Oyelowo, mostrando-se versátil e preparado para as várias fases e atitudes da vida de Louis. 

Lee Daniels, abastecido da essência empírica adquirida com Precious, filma O Mordomo com a mesma preocupação e detalhe, revelando-se, todavia, mais apressado e preso ao resultado. Os valores de produção mostram-se competentes em todas as linhas, onde a caracterização é magnífica nos anos intermédios e um tanto estranha nos anos avançados. A música de Rodrigo Leão, que por vezes se reduz perante a banda sonora representativa das diferentes épocas e dos sentimentos referentes, é envolvente e emocionante; quando se abre – quando tem oportunidade para se abrir – enche os ouvidos e encanta.


O final de O Mordomo deixa uma sensação anti-climática, de resolução não completamente terminada. O filme pode não ser a reflexão e o ressurgimento social que Lee Daniels pretendia; mas é um projecto competente e relevante o suficiente para merecer a atenção e o apreço do espectador.   

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


Trailer:

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Filme: Trip de Família (2013)

Longo e estereotípico, e renunciando qualquer perspectiva moralizante, Trip de Família é outra comédia americana de Verão que se rege pelos mínimos para satisfazer uma audiência desinteressada.

Quando David Clark (Jason Sudeikis), um traficante local pela meia-idade, perde todo o seu depósito e todo o seu dinheiro amealhado num assalto evitável, David vê-se em maus lençóis perante o seu chefe. Para dar a volta à situação, Clark aceita viajar até ao México para transportar um depósito de droga para os Estados Unidos. Para passar a fronteira em segurança, Clark decide criar uma família falsa: os Millers. Contudo, a travessia não será tão tranquila quanto Clark supõe.

Trip de Família nunca chega a exceder as expectativas mínimas a que o espectador já se acostumou a rodear perante tão habituais comédias americanas de Verão cujo mero intuito, entre algumas situações forçadas e algumas situações improváveis, é o de levantar um pequeno sorriso. Seguindo um caminho formulista, Trip de Família introduz uma problemática comum – neste caso, as contrariedades de dois adultos pela meia-idade sem qualquer estatuto ou aspiração social e as dificuldades de dois adolescentes sem protecção familiar – para elaborar uma narrativa a espaços agradável, contudo maioritariamente estapafúrdia e ilógica, onde as paragens na estrada imperam por nenhuma razão em especial. Tendencialmente ofensivo, a comédia, que a dupla Bob Fisher e Steve Faber assina, não se salva de alguma inclinação xenófoba no tratamento da envolvência mexicana e do seu povo. O preconceito demonstrado é inteiramente evitável e não deve ser desconsiderado em obséquio da comédia fácil. Nem deve a típica ponderação dramática e moral no último acto servir de expiação ou descanso.   

Mas nem tudo é integralmente mau em Trip de Família. Há uma cómica actuação de Nick Offerman e de Kathryn Hahn enquanto o casal Fitzgerald, contrabalançado, durante o tempo em que o casal está presente, a prestação distante e desinteressada de Jason Sudeikis e de Jennifer Aniston, o primeiro a apresentar-se sem critério e a segunda a pavonear-se por conveniência da sua formosura física. Will Poulter, como Kenny Rossmore, aparece à mistura como o bobo da festa, a quem os mais inverosímeis infortúnios sucedem; Emma Roberts, como Casey Mathis, a rebelde de serviço, cumpre o suficiente para não tornar Mathis completamente esquecível. Enquanto uma família de fachada onde a qualidade relacional deve sofrer necessárias dinâmicas, as interacções entre Sudeikis, Aniston, Poulter e Roberts mantém-se relativamente inalteradas do início ao fim, abdicando na maioria de situações conflituosas e criando ab initio cumplicidades afectivas.


O trabalho do realizador Rawson Marshall Thurber é, na soma das partes, desinspirado. Marshall Thurber perde tempo e insiste demasiado em cenas de humor que, no seu processo de montagem com Michael L. Sale, certamente considerou mais engraçadas do que efectivamente se revelam ao espectador, perdas de tempo que globalmente prolongam o filme além do sadiamente ideal. No conjunto, Trip de Família não diverte muito, mas não é completamente desprovido de comicidade e de uma ou outra sequência admissivelmente hilariante; não são, no entanto, em número e qualidade suficiente para colmatar as limitações de um argumento pobre e sem espírito.    

CLASSIFICAÇÃO: 2 em 5 estrelas


Trailer: