sábado, 17 de agosto de 2013

Filme: Elysium (2013)

Elysium, olhando por alto pertinentes temáticas políticas e sociais, é um decente filme de ficção-científica que não chega perto de Distrito 9, mas que continua a expressar a imensa criatividade de Neill Blomkamp.

No ano de 2154 a Terra encontra-se sobrepovoada. Os desfavorecidos vivem no planeta moribundo e os favorecidos habitam uma estação luxuosa, Elysium, a orbitar o planeta. Quando Max Da Costa (Matt Damon) sofre um grave acidente de radiação na fábrica onde trabalha, Max percebe que a sua única salvação é chegar à estação e curar-se. Em Elysium, a Secretária da Defesa Jessica Delacourt (Jodie Foster) não tolera a aproximação de qualquer ilegal; o seu agente na Terra, C.M. Kruger (Sharlto Copley), fará o necessário para se assegurar disso.

Ao contrário de Distrito 9, que consagrou a entrada no grande plano do sul-africano Neill Blomkamp, Elysium não é um projecto de ficção-científica tão espontâneo e inesperado. Ao segundo filme, Blomkamp, embora sem nunca perder sentido da sua engenhosa criatividade, revela-se pecaminosamente comodista, parecendo, aliás, temer aprofundar o âmbito e a crítica política e social com que tão bem lidou em Distrito 9. Questões de segregação racial permanecem lá, a que se juntam as discussões do fosso entre a classe mais rica e a classe mais pobre, da imigração e do sistema de saúde; todavia, não querendo parecer reivindicativo, Blomkamp evita expor-se demasiado ao espectador, desconsiderando a ideia de que um filme também pode ser – e em alguns casos deve efectivamente ser – uma manifestação das crenças do seu realizador.    

A concepção de um lugar como Elysium, onde os privilegiados vivem e prosperam, retirada directamente da mitologia grega, coloca ainda sobre o filme uma carga moral e religiosa onde a personagem Max Da Costa funciona como o profetizado salvador que irá repor o equilíbrio na sociedade. Através de um engenho que lhe fornece força e rapidez superiores, Max transforma-se inevitavelmente no herói provável. Tal como na mitologia grega, Max é um herói, um semideus se se quiser, que procura conquistar o seu lugar no Elísio, no Elysium de Blomkamp. Lá do céu, a personagem Jessica Delacourt funciona como o deus insurrecto, constantemente à procura do poder total, que se sente desafiado por Max; na terra, Kruger é o agente negro de Delacourt encarregue de impedir o herói Max.

Criatividade à parte, Blomkamp coloca excessiva ênfase na batalha de Max com Kruger, onde não falta a dama em apuros que torna a tarefa de Max mais ambígua. Negligencia na maioria a envolvente terráquea (a ideia de que o espanhol será a língua dominante na América é curioso); o foco está sempre voltado para cima, para Elysium, quando o interesse narrativo e moral está em baixo. A sua execução técnica é extremamente eficiente e cuidadosa e particularmente impressionante nas sequências a envolver a estação Elysium, abrilhantadas por uma banda sonora apoteótica de Ryan Amon. As actuações de Matt Damon e de Sharlto Copley puxam Elysium para a frente: Damon apresenta a dose certa de pujança física e cansaço emocional para tornar o seu herói interessante, enquanto Copley é estranho o suficiente para tornar o seu vilão imprevisível. A empurrar Elysium para trás contam uma interpretação estranhamente desinspirada de Jodie Foster e uma performance corriqueira de Alice Braga.  

Os derradeiros momentos de Elysium são uma mostra do filme que podia ter sido, mas que, em última análise, não foi: um olhar sobre a intemporal luta social entre a classe desfavorecida e a classe privilegiada. Não é de forma alguma um mau filme, nem de todo um grande filme. Seguindo Distrito 9, confirma que Neill Blomkamp não é um acaso de um só projecto e que ainda tem muito para dar. Tenha mais bravura, a sua criatividade não servirá apenas de utensílio visual.   

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


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domingo, 11 de agosto de 2013

Filme: Möbius - Laço Mortal (2013)

Möbius – Laço Mortal procura ser um drama sofisticado, mas é no princípio dramático mais simples que o seu modesto sucesso reside: na relação amorosa entre os seus protagonistas. Qualquer outra pretensão é sem fundamento.  

Quando Cherkachin (Vladimir Menshov) percebe que se pode tornar no próximo director do FSB, decidi destruir Rostovsky (Tim Roth), o magnata que o colocará lá. Para tal, incube o seu agente Gregory “Moïse” Lyubov (Jean Dujardin) para recolher informações sobre os negócios ilícitos de Rostovsky. Moïse cria um plano que envolve Alice (Cécile de France), uma brilhante analista financeira a trabalhar num dos bancos de Rostovsky.   

Prestar especial atenção no primeiro quarto de hora de Möbius – Laço Mortal é fundamental para compreender a narrativa, uma demasiado amarrada sobre si própria para o seu bem. A complexidade do mundo da espionagem nunca é dissuasora, mas quando emaranhada na linguagem intrincada de um mundo financeiro desconhecido do espectador comum arrisca tornar-se comprometedora. O realizador e argumentista Éric Rochant pretende extrair de Möbius – Laço Mortal algo muito mais sofisticado do que a estrutura sustenta, encontrando até na personagem de Alice uma responsável pela crise financeira que abalou a sociedade nos últimos anos, a que acresce a disputa política e histórica entre as agências secretas dos Estados Unidos e da Rússia, numa continuada guerra fria já mais para o morno.

A estrutura só não rui graças à encantadora e cheia de química ligação das personagens Moïse e Alice, cujos riscos num mundo carregado de segredos e contra-informações ajudam a moldar um relacionamento docemente complicado, destinado, mais cedo ou mais tarde, ao desastre. Os perigos da sedução numa envolvente onde todos mentem para sobreviver são inúmeros, mas Alice e Moïse, incapazes de resistir à sedução mútua, expõem-se ao seu mundo e ao espectador, residindo aqui o ponto de interesse de Möbius – Laço Mortal. O engrandecido foco no relacionamento de Moïse com Alice, passando para o plano acessório as perspectivas financeiras e de espionagem, aumenta eficazmente a intensidade na segunda metade do filme, alinhando correctamente todas as peças para um desfecho que, embora não necessariamente fechado, é ajustado à luz do mundo construído.     

Éric Rochant faz um trabalho decente atrás das câmaras, resistindo à fácil ostentação do luxo que por vezes contagia trabalhos sobre o mundo da espionagem, sobretudo quando filmado num local tão magnificente como o Mónaco indiscutivelmente é. Se Éric Rochant é puramente pragmático na sua captura da narrativa, não o é na forma como aborda o relacionamento entre Moïse e Alice, cujos momentos mais íntimos são capturados de uma forma tão constrangedora quanto arrebatadora. Éric Rochant extrai de Jean Dujardin e de Cécile de France duas representações aliciantes. Dujardin trabalha o sedutor sem dificuldade, criando uma espécie de James Bond russo mais terra-a-terra; do ponto de vista leigo, o seu russo parece muito bem treinado. Cécile de France cria uma Alice confiante, segura e inteligente; é deslumbrante e a câmara nunca se cansa da sua formosa figura feminina.   


Möbius – Laço Mortal não é o típico drama e as distintivas de thriller são até mais evidentes. Funciona na relativa maioria, sobretudo quando finalmente se convence que a sua história é muito mais sobre o complicado relacionamento de Moïse com Alice no mundo da espionagem do que exclusivamente sobre o mundo da espionagem com implicações financeiras. 

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


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