quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Filme: Phantom - Submarino Fantasma (2013)

Com uma execução fraca, Phantom – Submarino Fantasma apoia-se num elenco esforçado para materializar uma história improvável de uma maneira banal e sem proporção emocional.

Apenas três semanas depois de regressar de uma longa missão, o Capitão Demi (Ed Harris), à beira da reforma, é instruído para reunir a sua tripulação num submarino antigo e apoiar uma missão secreta do KGB que pretende testar uma nova tecnologia e alterar a sorte da União Soviética numa longa guerra silenciosa e sem resolução. Quando Demi se apercebe que as intenções do agente do KGB Bruni (David Duchovny) são pouco leais, Demi não se sente disposto a abdicar dos seus valores morais por gratificações e reconhecimentos.

Phantom – Submarino Fantasma, escrito e realizado por Todd Robinson, é um filme de classe B que, não sendo necessariamente mau, não reúne qualidades suficientes para espicaçar interesse e atenção no espectador, ainda que a narrativa tencione relatar alegadas ocorrências verídicas que colocaram o mundo perto de uma guerra nuclear à escala planetária no auge da Guerra Fria. Na intricada linguagem naval que acompanha as decisões dos protagonistas, o filme ganha uma grave dependência da sugestão visual para fazer progressos expositivos, determinando negativamente a sensação de espaço confinado que tão positivamente resultou em empreendimentos análogos no passado. Onde Robinson provavelmente pretendia, com um foco intenso no Capitão Demi, uma visão mais meditada e perturbada dos graves incidentes, existe uma amálgama conflituosa entre categorias navais e intensidades políticas e patrióticas a resultar num conjunto frustrantemente previsível de motins a inverter o poder dentro do submarino de Demi. A impressão pessoal é largamente marginalizada e apenas o passado desastroso do Capitão é objecto de alguma consideração.

A Guerra Fria é meramente circunstancial em Phantom – Submarino Fantasma e a alusão às divergências entre Washington, Moscovo e Pequim é frouxa e pobremente arquitectada. Baseada na teoria de Kenneth Sewell presente no seu trabalho de investigação Red Star Rogue – The Untold Story of a Soviet Submarine's Nuclear Strike Attempt on the U.S., a concepção de um mecanismo de camuflagem a dar começo a uma guerra é exagerada e sem sentido, sendo difícil de crer que algum dos países envolvidos tomasse o irrevogável passo de levantar armas sem reunir todas as evidências. Mas nem a improbabilidade da acção de Phantom – Submarino Fantasma importaria se o filme portasse alguma tensão dramática; qualquer expectativa por tensão dramática, embora a fotografia pesada e a música melancólica, sai gorada, não obstante encontros repetidos com instantes apropriados. Robinson mostra-se inteiramente incapaz de lidar com a oportunidade emocional e a sua execução torna-se essencialmente convencional e oca.
  

A benesse de Phantom – Submarino Fantasma é um elenco competente a ser capaz de espremer sumo de limões secos. Ed Harris, embora a pobreza de particularidades do Capitão Demi, reconhece potencial suficiente no seu papel para melhorar sobre o argumento. O seu esforço é digno, tal como são os de David Duchovny e William Fichtner, apesar da rotina que empesta as suas personagens. Os três actores fazem o que podem com o material à sua disposição e as manifestas imperfeições das suas personagens não lhes devem ser imputadas. Todavia, anunciar Robinson como responsável máximo pelo fracasso de Phantom – Submarino Fantasma é exceder na avaliação: seria difícil para qualquer um discorrer cinematograficamente sobre uma não-história.    

CLASSIFICAÇÃO: 1,5 em 5 estrelas


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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Filme: Só Deus Perdoa (2013)

Embora divisivo, Só Deus Perdoa cumpre satisfatoriamente as expectativas, mesmo que mal se aproxime de Drive – Risco Duplo, onde Refn e Gosling se mostraram no seu melhor. Desta colaboração sobeja uma sensação de fantasia e extravagância visual que permanece com o espectador.

Quando o seu irmão Billy (Tom Burke) é brutalmente assassinado, Julian (Ryan Gosling) procura o responsável pelo acto e perdoa-o. Mas quando a sua mãe Crystal (Kristin Scott Thomas) viaja até Banguecoque, Tailândia, para levar o corpo de Billy para casa, Julian é forçado a exercer a vingança da família, colocando-se no caminho do perigoso e corrupto Tenente Chang (Vithaya Pansringarm) da polícia local.    

Só Deus Perdoa beneficia da saudável colaboração entre o realizador Nicolas Winding Refn e o actor Ryan Gosling e da compreensão mútua que, num filme particularmente parco em diálogos, trespassa o ambiente amplamente contemplativo e permite decifrar. Todavia, a maneira como Só Deus Perdoa se inclina inesperadamente para a violência gráfica pode ser terrivelmente dissuasora, embora a linha de vingança seguida por Refn seja mais refinada que, por exemplo, a de Kill Bill. Entre os ajustes de contes tradicionais, os tráficos e as corrupções policiais e as leves sugestões de natureza sexual e incestuosa, Só Deus Perdoa evidencia-se num princípio sedutoramente simples: na silenciosamente atormentada relação entre um filho secundário e uma mãe controladora. Julian, constantemente perturbado pelos seus conflitos e pelas suas dificuldades de relacionamento, procura ser justo num mundo sem justiça, agarrar-se a uma réstia de moralidade num meio clandestino que desconhece isso. Julian não age e mal reage; observa e aceita, enquanto ao seu redor todos fazem o que for preciso para exercer a sua estranha noção de justiça.

Só Deus Perdoa raramente se coloca emocionalmente à disposição do espectador, isolando-se numa forma de introspecção cerrada. Não obstante, existem momentos que capturam o espectador e que, não o largando, lhe provocam sensações contrárias. Maioritariamente associadas a instantes de violência, provocam angústia e mal-estar. Em particular, uma cena de tortura no começo da segunda parte é de digestão difícil, indo mais longe do que as barreiras morais que o espectador julga protegê-lo. Refn não parece interessado em facilitar e a sua realização, à base de impressões fortes, compromete-se. A montagem deixa a desejar – transita aos saltos entre cenas – e os planos são exageradamente fotográficos.

Larry Smith imprime uma fotografia encantadora à base de cores vivas e carregadas, onde primam os azuis, os vermelhos e os amarelos (porventura a consagrar a bandeira tailandesa). O jogo de luz e sombras é curioso e a cisma pelo olhar ensimesmado de Gosling, mais do que um capricho, é uma conduta, ou não sejam os olhos de Gosling a principal fonte de assimilação e apreciação do espectador. Gosling tem pouco mais do que uma dúzia de falas; a sua actuação é essencialmente reflectiva, mas as mensagens e as impressões de Julian nunca se perdem ou ficam pela metade. Kristin Scott Thomas não é capaz da mesma carga reflectiva e a câmara quase que se perde na sua beleza natural, mas Scott Thomas alcança a autoridade suficiente de uma mãe e de uma matriarca dominadora. O desconhecido Vithaya Pansringarm tem no papel de Chang uma excelsa oportunidade para se apresentar ao mais alto nível no plano cinematográfico e a sua interpretação não defrauda: é adequadamente intensa e enigmática.    


Não sendo completamente esquecível, Só Deus Perdoa não tem uma capacidade de reminiscência muito grande. Talvez seja da violência crua ou da realização inconstante. Talvez seja da infinda contemplação. Que algo não está acomodado em concordância parece ser uma justa constatação, mas também é isso que faz com que se discorra sobre Só Deus Perdoa

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


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