quinta-feira, 21 de março de 2013

Filme: Comboio Noturno para Lisboa (2013)


A sensação de visualizar um filme internacional na capital portuguesa é estimulante e fascinante, particularmente quando o guia de serviço é um tão encantador quanto Jeremy Irons. Comboio Noturno para Lisboa, todavia, enquanto contador de histórias, é um projecto pouco ambicioso, preso à sua própria comodidade.

Raimund Gregorius (Jeremy Irons) é um professor suíço de velhas línguas. Certo dia, Raimund salva uma misteriosa mulher de uma tentativa de suicídio. A mulher desaparece e deixa para trás um livro de edição pequena e única de um desconhecido autor português, Amadeu de Prado (Jack Huston). No livro, Raimund encontra bilhetes de comboio para Lisboa. Numa decisão impulsiva, Raimund decide-se a fazer a viagem, uma que o levará a conhecer a vida de Amadeu e o seu papel na revolução portuguesa que terminou a ditadura do Estado Novo.

O romance homónimo de Pascal Mercier, do qual Comboio Noturno para Lisboa é adaptado, é uma obra com uma intenção filosófica e reflectiva com pano de fundo a ditadura portuguesa e o movimento revolucionário que eventualmente lhe pôs um fim. Comboio Noturno para Lisboa – o filme – procura capturar e transpor para o grande ecrã o mesmo encanto ensimesmado, envolvendo o seu enredo numa atmosfera melancólica e soturna, agarrada e prisioneira dos eventos do passado, à vitalidade e à significância de cada acção individual para um panorama comum em secreta mudança. A concernência do presente é pouca e Comboio Noturno para Lisboa evita perder tempo no seu marasmo, apressando Raimund entre cenários, personagens e transportes para rapidamente se lançar noutra reminiscência do passado, aos poucos e poucos agregando as cores desordenadas de uma pintura incomum alusiva à revolução portuguesa do 25 de Abril de 1974. A singularidade deste retrato encontra-se no destaque que entrega às decisões individuais e à eventualidade de serem afectadas pela inevitabilidade de amar e invejar.

Comboio Noturno para Lisboa, embora bem-intencionado, nunca estabelece uma motivação clara, ou aceitável, para a obstinação de Raimund para percorrer Lisboa em busca da vida de Amadeu de Prado e dos ideais por trás do seu livro, um que chega às mãos Raimund através de um acto que nunca apresenta explicação. Aponta apenas para o aborrecimento da sua vida e para a insignificância do seu trabalho. Raimund, e praticamente todo o enredo do tempo presente, é quase completamente dispensável, meramente expositivo; é apetrecho para bater de porta em porta e para realizar travessias sobre o Tejo, embora Jeremy Irons, na sua presença sempre fascinante, lhe acrescente valor. Comboio Noturno para Lisboa, numa oportunidade perdida, também não se preocupa em estabelecer uma causalidade intemporal entre as circunstâncias da revolução e o actual desalento social, recordando o seu propósito de meditação.

É significante testemunhar a cidade de Lisboa numa produção internacional, mesmo que o realizador dinamarquês Bille August nunca se perca em contemplações abusivas da cidade ou dos seus principais pontos turísticos. A sua visão da capital portuguesa é, acertadamente, simples e populista. Mais considerável ainda é a agradável frequência da guitarra portuguesa numa banda sonora reservada e humorada. O elenco internacional, nem sempre tão aportuguesado quanto tenciona, é marcado pelas boas interpretações de Jeremy Irons, dedicado e incansável, Jack Huston, cativante e apreensivo, e Charlotte Rampling, elegante e misteriosa. Entre os portugueses, destaque para Marco D’Almeida, capaz de uma expressão e absorvimento emocionais que os seus projectos televisivos raramente permitem, e Beatriz Batarda, encantadora e sensível.

Comboio Noturno para Lisboa prende sobretudo a atenção quando se foca na ditadura e na revolução, calmamente, sem desnecessárias tensões. Quando o foco são os pensamentos de Amadeu de Prado e a consequente interpretação de Raimund, distancia-se do espectador, do seu interesse, embora a pertinência da sua intenção filosófica e reflectiva. O problema é, possivelmente, a menos boa combinação conseguida por Bille August. O epílogo é desnecessariamente longo, mesmo com a presença da encantadora Lena Olin. Comboio Noturno para Lisboa deixa, no fim, um sentimento amargo, entre a gratificação de uma produção internacional realizada em Portugal (muitos são os nomes portugueses que preenchem os créditos finais) e o dissabor de uma história que, referenciando-se na ditadura portuguesa, parece incompleta e mal contextualizada. 

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


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sexta-feira, 15 de março de 2013

Filme: Ferrugem e Osso (2013)



Ferrugem e Osso é um trabalho peculiar, ditosamente diferente, que exige uma visualização tencionada e atenta para maior interiorização. Não se propõe a emocionar ou a dramatizar. Apenas sugere. Schoenaerts e Cotillard brilham.

Ali (Matthias Schoenaerts) não tem emprego e tem agora um problema maior em mãos: o seu filho de cinco anos que a mãe decidiu abandonar. Ali viaja para o sul de França, onde mora a sua irmã. Ela fornece-lhe alojamento temporário e Ali arranja um emprego como segurança. Certa noite, Ali conhece Stéphanie (Marion Cotillard) e acompanha-a a casa, mas nada mais acontece. Algum tempo depois, Stéphanie sofre um terrível acidente e, na depressão consequente, volta a entrar em contacto com Ali. Imperceptivelmente, ajudam-se mutuamente.

A narrativa de Ferrugem e Osso, vista como um todo, remete para a fase derradeira de uma tragédia clássica, em que já se passou da felicidade para a infelicidade e se procura a catarse final que liberta e purifica. Efectivamente, Ferrugem e Osso começa logo para traçar um cenário negro para Ali, desempregado, sem dinheiro, sem casa e com a responsabilidade de cuidar de um filho de cinco anos que a mãe abandonou. As adversidades de Ali cruzam-se com a aparente estabilidade de Stéphanie, empregada, com casa própria e um relacionamento. Mas, no fundo, Stéphanie é uma heroína que já caminha para a desgraça, para uma tragédia prenunciada na discoteca em que conhece Ali. A desgraça acontece, inevitável, custando a Stéphanie as suas pernas e a sua liberdade. A infelicidade é o elemento que liga Ali a Stéphanie, mesmo que se não apercebam. Ali ajuda Stéphanie a olhar para além da sua nova condição, trazendo-lhe liberdade e a noção de que muito do que antes era possível continua a ser válido. Por seu lado, Stéphanie cria em Ali algo que não conhecia há muito tempo: uma verdadeira amizade; uma que, aos poucos e poucos, cresce e se torna em algo maior.

O caminho para a catarse de Ali e Stéphanie encontra um obstáculo quando ambos tomam consciência da evolução da sua relação. Stéphanie sente-se desconfortável com a frieza, o distanciamento e a despreocupação de Ali, enquanto este, desabituado e inadaptado a uma relação com significado, sente medo. A condição de Stéphanie nunca é uma particularidade que interdite a relação – aqui reside a força da narrativa: as únicas barreiras são os desejos e os medos individuais, as intrínsecas características de ser humano que moldam trajectos e destinos. O melodrama não é, porquanto, físico: é psicológico. A tragédia, e a consequente catarse, assume naturalmente a mesma forma – do foro da mente –, mesmo que a cura de Stéphanie comece no implante de duas próteses e a de Ali na prossecução do seu sonho de kickboxing.
    
Ferrugem e Osso fraqueja quando parece assustar-se com a invulgaridade da sua mensagem e introduz na narrativa momentos triviais na intenção de sossegar o espectador. Esses momentos, todavia, maioritariamente associados às ilegais lutas de kickboxing e à ilegal espionagem de trabalhadores em supermercados, desviam a necessária atenção da temática central, não interessando tanto quanto o filme tenciona. Felizmente, as louváveis interpretações de Matthias Schoenaerts e Marion Cotillard conseguem desviá-los do total falhanço. Schoenaerts, de uma forma máscula e distante, e Cotillard, de uma forma sentida e frágil, novamente de volta ao seu meio privilegiado, engradecem os seus respectivos papéis e introduzem um nível de qualidade na narrativa que torna a complexa moral mais facilmente permeável.

O mérito é também repartido com o realizador Jacques Audiard que, embora os desnecessários atalhos, raramente perde ideia da sua mensagem principal. A sua realização resiste à emoção fácil. Na verdade, procura mais vezes criar um certo mistério e remeter para o espectador a procura de alguma perturbação. Tanto o é que parece esquecer-se de concluir rigorosamente a sua história: fá-lo de forma repentina, inopinadamente, entregando ao espectador a função de moldar a sua conclusão e a sua interpretação da catarse. Talvez não seja uma conclusão propriamente justa. Aliás, todo o último acto parece apressado e descontextualizado. Porém, se o espectador se permitir algum trabalho, retirará benefício moral da narrativa de Ferrugem e Osso.  

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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