sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Filme: Django Libertado (2013)


Tarantino torna-se com Django Libertado mestre completo do seu estilo e censurador admirável da vergonha humana. Django Libertado é uma história arrojada de impecável direcção, brilhantes actuações e sequências memoráveis.

Em 1858, dois anos antes da Guerra Civil Norte-Americana, o Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um dentista alemão em viagem pelos Estados Unidos, cruza-se com os Irmãos Speck, três esclavagistas que transportam um grupo de escravos recentemente adquiridos. Schultz procura um escravo em particular que os Speck possuem: Django (Jamie Foxx). Schultz adquire Django e revela as suas verdadeiras intenções: encontrar e matar os Irmãos Brittle – cujo aspecto apenas Django conhece – a fim de conseguir uma recompensa estatal. Django acorda, com uma condição: ser libertado depois da sua tarefa para poder resgatar a sua mulher, também escrava, vendida em castigo a uma plantação distante.

Quentin Tarantino há muito que estabeleceu a sua marca e o seu toque spaghetti nas suas duas décadas de actividade. Com Django Libertado (o D é silencioso), Tarantino aborda pela primeira vez o género de que é tão claramente aficionado, o género para o qual parece estar a preparar-se desde a sua monumental estreia em Cães Danados. Em Django Libertado, todo o incrivelmente agradável desconcertado estilo de Tarantino encontra a sua casa e sua verdadeira essência. O habitual grafismo e os súbitos grandes planos, ou as momentâneas transições ao som de melodias clássicas ou músicas modernas, enchem-se de pertença e brilhantismo. É, porventura, essa percepção de conformidade com o género que faz Django Libertado parecer, curiosamente, o filme mais controlado de Tarantino, mais encadeado num conjunto de regras cinematográficas. Mas o aparente autodomínio de Tarantino sobre a sua por vezes alienada visão não significa que Django Libertado é um filme menor em comparação aos seus trabalhos anteriores – pelo contrário, mostra amadurecimento, aperfeiçoamento e compreensão dos limites do seu estilo assimétrico.

Quando Tarantino afirma que Django Libertado está em linha com Sacanas Sem Lei (e que é o segundo de uma trilogia que acabará algures nos próximos anos com Killer Crow) é fácil de compreender a essência da sua comparação. Sacanas Sem Lei apresenta a revolta dos subjugados ao subjugador, numa forma de ironia fria que aponta as deficiências humanas e a grotesca ideia de supremacia de um sobre o outro, uma revolta que na realidade não teve lugar na época em questão. Django Libertado segue a mesma cadeia de sentença, trocando um grupo de amotinados judeus contra o subjugador Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial por um revoltado escravo da raça negra contra os seus brutos, e por vezes asnos, escravizadores imediatamente antes à Guerra Civil Norte-Americana. A vingança, quase a qualquer custo, é um tema recorrente nos trabalhos de Tarantino, mas em Django Libertado, quando a reprovação fica mesmo em casa, o realizador vai mais longe e dá uma bofetada histórica e destemida num tema – a escravatura – que ainda tem feridas abertas na nação Americana. E quando Django, um dissimulado anti-herói, exerce a sua justiça no típico caos do derradeiro clímace, a censura de Tarantino fica completa e os eventos emendados, mesmo com o espectador ciente de que tal dramatização e rectificação histórica jamais teriam lugar na época retratada.

Tarantino impressiona sempre com o seu esmero, mas é também a sua capacidade de obter actuações memoráveis e atípicas do seu elenco que eleva as suas histórias para outro patamar. Efectivamente, todo o elenco de luxo de Django Libertado, possivelmente motivado pela direcção frenética e pelas ambiências históricas, alcança brilhantismo. Particularizar o trabalho de um ou outro actor é quase um exercício desnecessário, mas é obrigatório elogiar o sarcasmo corajoso de Christoph Waltz, a audácia intermitente de Jamie Foxx, a autoridade arrepiante de Leonardo DiCaprio, a comicidade perigosa de Samuel L. Jackson e a beleza guardada de Kerry Washington.

Se Django Libertado é um filme perfeito? Não é. Desde logo, a sua duração, por mais que o estilo e a imprevisibilidade entusiasmem sempre, é excessiva, padecendo com uma segunda hora que se arrasta sem grandes acontecimentos e que se perde em atalhos desnecessários. Depois, o epílogo é comprido e faz sentir a falta de algumas personagens que encontram o fim no segmento prévio. Mas com os seus momentos tensos, com as fantásticas actuações, com paisagens lindíssimas (as belas pradarias do sul norte-americano através da fotografia primorosa de Robert Richardson) e com um argumento delicioso (de perfeitos diálogos e silêncios), Django Libertado é um deleite para apreciadores e curiosos. Nomeado para cinco Óscares®, incluindo Melhor Filme, Melhor Argumento Original e Melhor Actor Secundário (para Waltz, no que deve ter sido uma decisão difícil da Academia entre o austríaco, DiCaprio e Jackson), Django Libertado é o mais perto de obra-prima de Tarantino.

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas

Site Oficial: http://unchainedmovie.com/
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Filme: O Impossível (2013)


O Impossível é uma belíssima reprodução da entreajuda, da ternura e do amor que une uma família separada pela tragédia e pela incerteza. A sua missão é a de tornar o improvável exequível num cenário em que todas as probabilidades se encontram a vermelho.  

A 26 de Dezembro de 2004 um terramoto de elevada magnitude acontece no Oceano Índico. O terramoto causa poucas vítimas e danos materiais. Mas a partir do epicentro do evento natural começa um terrível tsunami que atinge todo o sudeste asiático e que provoca incontáveis danos e centenas de milhares de mortos e de feridos. Entre os atingidos encontra-se a família Bennett, a passar o Natal numa estância turística na Tailândia. Separados pelas águas e incertos do destino de cada um, os Bennett não desistirão uns dos outros.

O impacto do tsunami que assolou o sudeste asiático no final de 2004 teve efeitos devastadores a nível ambiental e a nível económico. Mas foi ao nível humano que a tragédia mais arrasou, resultando na morte de quase um quarto de milhão de pessoas. O Impossível recria as horríficas vivências de uma família instalada num resort em Khao Lak, Tailândia, colocando a força e a imprevisibilidade da natureza contra a força e a determinação humanas. O filme começa pela tranquilidade, pela mundanidade e pela beleza do destino turístico da família Bennett. É nestes instantes preludiais que as ternas ligações entre Maria, Henry, Lucas, Tomas e Simon são instituídas e que o choque de uma tragédia inopinada, de que o espectador é consciente e impotente, começa a causar comoção. A calamidade chega sem surpresa e impressiona com o poder de destruição e com a terrível pujança que Juan Antonia Bayona e Óscar Faura recriam espectacularmente, colocando inicialmente o espectador numa falsa posição de transeunte do mesmo resort da família Bennett. As grandes ondas separam a família Bennett e o espectador apenas observa e sente a luta com as ferozes águas de Maria e Lucas e as escolhas morais com que se confrontam. A sobrevivência de Henry, Tomas e Simon é revelada a posteriori.

Mas a sobrevivência à brutalidade das águas não garante a sobrevivência final e O Impossível troca o desastre pela convalescença, exibindo as difíceis condições e a escassez de meios que recebeu os sobreviventes, uma outra calamidade que não pode ser ignorada. Todo o esforço humanitário, ou falta dele, é apresentado, mas sempre num plano secundário, focando no primeiro o caminho difícil da família Bennett para o reencontro, agravado pelas mazelas da tragédia, pelas barreiras linguísticas e pelas informações erradas. A convalescença não é só física: é também psicológica e afecta cada sobrevivente de maneira diferente. Para a família Bennett, entranhada no amor que a une, significa agarrar-se à esperança e à crença de que o tremebundo pesadelo terá um fim e que tudo ficará bem. É esse mesmo anseio que acompanha o espectador e que o enche de emoção quando o impossível se metamorfoseia num triunfo.

O Impossível sofre, no entanto, com a sua ansiedade de querer mostrar tudo de uma vez, tornando o que é impossível, ou muito difícil, num simples acaso de passiva orientação. E que a noção de perigo nunca esteja verdadeiramente instalada, ou que a retribuição moral nunca seja completa, encurta o nível de excelência. Felizmente, a execução é maioritariamente favorável e as actuações são fortes. Naomi Watts é fabulosa, Ewan McGregor é irrepreensível e Tom Holland, em particular, revela-se uma surpresa e um jovem talento a manter olho em cima – momentos há em que, confrontado com o sofrimento e com a necessidade de socorro, lembra um então jovem Christian Bale em Império do Sol. A música de Fernando Velázquez é bonita e sensível, mas há alturas em que extravasa a ocasião cinematográfica. A produção espanhola de O Impossível deve ser enaltecida e o trabalho do seu realizador elogiado, provando que filmes de grande escala sobre significativos eventos da História não estão apenas reservados aos grandes estúdios de Hollywood. 

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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