quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Filme: O Impossível (2013)


O Impossível é uma belíssima reprodução da entreajuda, da ternura e do amor que une uma família separada pela tragédia e pela incerteza. A sua missão é a de tornar o improvável exequível num cenário em que todas as probabilidades se encontram a vermelho.  

A 26 de Dezembro de 2004 um terramoto de elevada magnitude acontece no Oceano Índico. O terramoto causa poucas vítimas e danos materiais. Mas a partir do epicentro do evento natural começa um terrível tsunami que atinge todo o sudeste asiático e que provoca incontáveis danos e centenas de milhares de mortos e de feridos. Entre os atingidos encontra-se a família Bennett, a passar o Natal numa estância turística na Tailândia. Separados pelas águas e incertos do destino de cada um, os Bennett não desistirão uns dos outros.

O impacto do tsunami que assolou o sudeste asiático no final de 2004 teve efeitos devastadores a nível ambiental e a nível económico. Mas foi ao nível humano que a tragédia mais arrasou, resultando na morte de quase um quarto de milhão de pessoas. O Impossível recria as horríficas vivências de uma família instalada num resort em Khao Lak, Tailândia, colocando a força e a imprevisibilidade da natureza contra a força e a determinação humanas. O filme começa pela tranquilidade, pela mundanidade e pela beleza do destino turístico da família Bennett. É nestes instantes preludiais que as ternas ligações entre Maria, Henry, Lucas, Tomas e Simon são instituídas e que o choque de uma tragédia inopinada, de que o espectador é consciente e impotente, começa a causar comoção. A calamidade chega sem surpresa e impressiona com o poder de destruição e com a terrível pujança que Juan Antonia Bayona e Óscar Faura recriam espectacularmente, colocando inicialmente o espectador numa falsa posição de transeunte do mesmo resort da família Bennett. As grandes ondas separam a família Bennett e o espectador apenas observa e sente a luta com as ferozes águas de Maria e Lucas e as escolhas morais com que se confrontam. A sobrevivência de Henry, Tomas e Simon é revelada a posteriori.

Mas a sobrevivência à brutalidade das águas não garante a sobrevivência final e O Impossível troca o desastre pela convalescença, exibindo as difíceis condições e a escassez de meios que recebeu os sobreviventes, uma outra calamidade que não pode ser ignorada. Todo o esforço humanitário, ou falta dele, é apresentado, mas sempre num plano secundário, focando no primeiro o caminho difícil da família Bennett para o reencontro, agravado pelas mazelas da tragédia, pelas barreiras linguísticas e pelas informações erradas. A convalescença não é só física: é também psicológica e afecta cada sobrevivente de maneira diferente. Para a família Bennett, entranhada no amor que a une, significa agarrar-se à esperança e à crença de que o tremebundo pesadelo terá um fim e que tudo ficará bem. É esse mesmo anseio que acompanha o espectador e que o enche de emoção quando o impossível se metamorfoseia num triunfo.

O Impossível sofre, no entanto, com a sua ansiedade de querer mostrar tudo de uma vez, tornando o que é impossível, ou muito difícil, num simples acaso de passiva orientação. E que a noção de perigo nunca esteja verdadeiramente instalada, ou que a retribuição moral nunca seja completa, encurta o nível de excelência. Felizmente, a execução é maioritariamente favorável e as actuações são fortes. Naomi Watts é fabulosa, Ewan McGregor é irrepreensível e Tom Holland, em particular, revela-se uma surpresa e um jovem talento a manter olho em cima – momentos há em que, confrontado com o sofrimento e com a necessidade de socorro, lembra um então jovem Christian Bale em Império do Sol. A música de Fernando Velázquez é bonita e sensível, mas há alturas em que extravasa a ocasião cinematográfica. A produção espanhola de O Impossível deve ser enaltecida e o trabalho do seu realizador elogiado, provando que filmes de grande escala sobre significativos eventos da História não estão apenas reservados aos grandes estúdios de Hollywood. 

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


Trailer:

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Filme: 00:30 – A Hora Negra (2013)


Intenso, marcante e incomparável, 00:30 A – Hora Negra recria os eventos que levaram à captura do líder da Al-Qaeda de forma superior, adicionando uma índole pessoal que torna a notável história discutível e ousada.   

Depois do ataque ao World Trade Center a 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos da América lançam uma feroz caçada ao seu inimigo n.º 1: Osama bin Landen. A agência de espionagem CIA fica a cargo da investigação, empenhando métodos questionáveis para obter informações sobre o paradeiro do líder da Al-Qaeda. Quando os esforços são reduzidos e a caçada perde prioridade, um elemento da agência, Maya (Jessica Chastain), mantém-se persistente e encontra e insiste na pista que leva por fim, quase uma década depois, à eliminação do inimigo americano n.º 1.  

00:30 – A Hora Negra não se restringe à mera captura de Osama bin Laden, indo muito mais além para apresentar, sem medo ou vergonha, todos os actores envolvidos, do escalão mais baixo ao mais alto, e todos os métodos aplicados, conscienciosos ou sem escrúpulos. Dividido em capítulos estratégicos que começam logo após o ataque às torres gémeas a 11 de Setembro de 2001, 00:30 – A Hora Negra principia a sua longa busca com os reprováveis métodos da CIA de interrogação que tanto estrido causaram e causam ainda: as práticas de tortura. Quanto ali é real ou ficção provavelmente nunca será revelado, mas Kathryn Bigelow, que teve acesso a documentos secretos sobre toda a operação, revela coragem na sua abordagem à polémica, filmada com incómodo para causar mal-estar e reprovação, mostrando as técnicas de afogamento e de privação de sono tal com foram presumivelmente executadas. 00:30 – A Hora Negra elogia tanto o esforço americano para pôr fi ao terrorismo quanto o questiona e condena.

O filme é igualmente a história da persistência e da obstinação de uma agente da CIA (alegadamente real) para fazer justiça. Jessica Chastain interpreta Maya com frieza a sobriedade, camuflando vestígios de incómodo por aquilo que faz para além do correcto e do honesto. A qualidade de Chastain já tinha provas mais do que dadas (em A Árvore da Vida ou em As Serviçais), mas ficam aqui inquestionavelmente afirmadas. Maya é a heroína que guia a acção, que cria importância e emoção, que o espectador quer ver triunfar e ser provada certa contra todas as opiniões e evidências. Chastain captura o bem-querer do espectador com tremenda espontaneidade e quando Maya enfim triunfa e se liberta da camuflagem que oculta a sua emoção, o desabafo extravasa o ecrã.

Kathryn Bigelow filma todos os momentos de uma forma agitada, com uma câmara inquieta que parece bisbilhotar secretamente todos os eventos, mas sempre certa e segura dos planos que captura e da ansiedade que cria. Em particular, o acto final do assalto ao complexo habitacional onde vivia bin Laden, incluindo os momentos de preparação que o antecedem, é intenso, perturbante e intranquilizador, mesmo quando já todos nós conhecemos perfeitamente o desfecho da missão. O génio de Bigelow reside precisamente em originar no espectador ansiedade e incerteza, despindo-o do conhecimento para lhe exibir os atribulados eventos em primeira mão. Este momento cinematográfico é provavelmente o melhor do ano, secundado pela inquietante música de Alexandre Desplat e pela fotografia dissimulada de Greig Fraser. 

Tal como tinha alcançado com Estado de Guerra, Bigelow consegue um filme expressivo e incontornável que perpetua, muito para além da pertinente temática da captura e eliminação de um dos mais perigosos e temidos homens do século XXI. 00:30 – A Hora Negra não responde às mais conspiradoras questões sobre a missão, deixando até alguma réstia de dúvida. Mas este não deixa de ser um filme, uma representação de eventos reais que nunca abandonará a inevitável – glorificadora da arte – página fictícia.  

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas

Trailer: