quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Filme: 00:30 – A Hora Negra (2013)


Intenso, marcante e incomparável, 00:30 A – Hora Negra recria os eventos que levaram à captura do líder da Al-Qaeda de forma superior, adicionando uma índole pessoal que torna a notável história discutível e ousada.   

Depois do ataque ao World Trade Center a 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos da América lançam uma feroz caçada ao seu inimigo n.º 1: Osama bin Landen. A agência de espionagem CIA fica a cargo da investigação, empenhando métodos questionáveis para obter informações sobre o paradeiro do líder da Al-Qaeda. Quando os esforços são reduzidos e a caçada perde prioridade, um elemento da agência, Maya (Jessica Chastain), mantém-se persistente e encontra e insiste na pista que leva por fim, quase uma década depois, à eliminação do inimigo americano n.º 1.  

00:30 – A Hora Negra não se restringe à mera captura de Osama bin Laden, indo muito mais além para apresentar, sem medo ou vergonha, todos os actores envolvidos, do escalão mais baixo ao mais alto, e todos os métodos aplicados, conscienciosos ou sem escrúpulos. Dividido em capítulos estratégicos que começam logo após o ataque às torres gémeas a 11 de Setembro de 2001, 00:30 – A Hora Negra principia a sua longa busca com os reprováveis métodos da CIA de interrogação que tanto estrido causaram e causam ainda: as práticas de tortura. Quanto ali é real ou ficção provavelmente nunca será revelado, mas Kathryn Bigelow, que teve acesso a documentos secretos sobre toda a operação, revela coragem na sua abordagem à polémica, filmada com incómodo para causar mal-estar e reprovação, mostrando as técnicas de afogamento e de privação de sono tal com foram presumivelmente executadas. 00:30 – A Hora Negra elogia tanto o esforço americano para pôr fi ao terrorismo quanto o questiona e condena.

O filme é igualmente a história da persistência e da obstinação de uma agente da CIA (alegadamente real) para fazer justiça. Jessica Chastain interpreta Maya com frieza a sobriedade, camuflando vestígios de incómodo por aquilo que faz para além do correcto e do honesto. A qualidade de Chastain já tinha provas mais do que dadas (em A Árvore da Vida ou em As Serviçais), mas ficam aqui inquestionavelmente afirmadas. Maya é a heroína que guia a acção, que cria importância e emoção, que o espectador quer ver triunfar e ser provada certa contra todas as opiniões e evidências. Chastain captura o bem-querer do espectador com tremenda espontaneidade e quando Maya enfim triunfa e se liberta da camuflagem que oculta a sua emoção, o desabafo extravasa o ecrã.

Kathryn Bigelow filma todos os momentos de uma forma agitada, com uma câmara inquieta que parece bisbilhotar secretamente todos os eventos, mas sempre certa e segura dos planos que captura e da ansiedade que cria. Em particular, o acto final do assalto ao complexo habitacional onde vivia bin Laden, incluindo os momentos de preparação que o antecedem, é intenso, perturbante e intranquilizador, mesmo quando já todos nós conhecemos perfeitamente o desfecho da missão. O génio de Bigelow reside precisamente em originar no espectador ansiedade e incerteza, despindo-o do conhecimento para lhe exibir os atribulados eventos em primeira mão. Este momento cinematográfico é provavelmente o melhor do ano, secundado pela inquietante música de Alexandre Desplat e pela fotografia dissimulada de Greig Fraser. 

Tal como tinha alcançado com Estado de Guerra, Bigelow consegue um filme expressivo e incontornável que perpetua, muito para além da pertinente temática da captura e eliminação de um dos mais perigosos e temidos homens do século XXI. 00:30 – A Hora Negra não responde às mais conspiradoras questões sobre a missão, deixando até alguma réstia de dúvida. Mas este não deixa de ser um filme, uma representação de eventos reais que nunca abandonará a inevitável – glorificadora da arte – página fictícia.  

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas

Trailer: 


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Filme: Amor (2012)


Amor é uma das mais puras e íntimas histórias contadas em primeira mão no cinema. É um filme incrível, memorável e incontornável. Verdadeiramente extraordinário.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), dois reformados professores de música, acabam de regressar de um concerto de um antigo protegido. Octogenários, Georges e Anne permanecem um casal feliz e apaixonado. Na manhã seguinte, Anne sofre uma trombose e fica com o lado direito do corpo paralisado. O amor do casal é colocado à prova, conforme o estado de saúde de Anne se deteriora e Georges se sente mais isolado e agoniado.

Amor é tão minimalista na forma como aborda a vida e a morte, a doença e o afecto, que o espectador se sente mergulhar no ecrã, directamente na sala de Georges e Anne, cujos sente e sofre como familiares e amigos seus. Partilha a dor de Georges de aos poucos e poucos estar perder, lenta e penosamente, a companheira da sua vida, das suas vivências, das suas memórias. Partilha a confusão de Anne, a sua vontade de recordar e o seu medo de esquecer. Acima de tudo, partilha a compaixão e a cumplicidade entre ambos e compreensão de que o amor, tantos anos depois, tantas experiências depois, não abandonou: entranhou-se em cada gesto, em cada conversa banal, em qualquer acto piedoso. Amor é um panegírico à vida humana, à condição humana de pensar e deixar de pensar, de contrariar as adversidades e de eventualmente aceitá-las, encontrando no revés a possibilidade infinitamente pequena de felicidade e de carinho. É também a representação da enfermidade como parte integrante da vida, impossível de ignorar, difícil de controlar, custoso de aceitar, mas subitamente presente e autoritária, desafiadora da rotina física e do costume psicológico. A enfermidade exige repensar tudo o que vinha como certo, impõe considerar o fim de um longo ciclo, quer para Georges, na iminência da solidão, quer para Anne, na iminência da escuridão.

Amor é realizado por Michael Haneke da maneira mais simples, com planos banais, deliberadamente privado da surpresa e do espanto, da música e da cor viva, como uma enorme pintura de uma mão cheia de simples momentos que se encontra exposta a uma relativa distância, que não pode ser tocada ou tirada do sítio, mas contemplada e sentida. E a realização despetrechada dá espaço à complexa e crua interpretação, tanto de Jean-Louis Trintignant como de Emmanuelle Riva, tão honesta e verdadeira que torna impossível não acarinhar e sensibilizar, mesmo à distância da tela e da tela ao elegante apartamento de Georges e Anne. Tudo em Amor é percebido como honesto e autêntico.     

Amor é uma obra primorosa, sem sentido de irreflectida comercialização, de juízos fáceis e de radiantes conclusões – aliás, o inevitável desfecho de Anne fica logo claro no prólogo da narrativa, evitando ansiosas aspirações de fenómenos Deus ex machina, criando espaço para a meditação e para o usufruto de cada momento como derradeiro. Amor não é um romance, nem um drama: é um excerto da vida como a conhecemos. Nomeado para cinco óscares, incluindo melhor filme, melhor filme estrangeiro e melhor argumento original, Amor é uma maravilha da realização desinteresseira, da moral genuína e da vida compreendida. 

CLASSIFICAÇÃO: 5 em 5 estrelas

Trailer: