terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Filme: Amor (2012)


Amor é uma das mais puras e íntimas histórias contadas em primeira mão no cinema. É um filme incrível, memorável e incontornável. Verdadeiramente extraordinário.

Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), dois reformados professores de música, acabam de regressar de um concerto de um antigo protegido. Octogenários, Georges e Anne permanecem um casal feliz e apaixonado. Na manhã seguinte, Anne sofre uma trombose e fica com o lado direito do corpo paralisado. O amor do casal é colocado à prova, conforme o estado de saúde de Anne se deteriora e Georges se sente mais isolado e agoniado.

Amor é tão minimalista na forma como aborda a vida e a morte, a doença e o afecto, que o espectador se sente mergulhar no ecrã, directamente na sala de Georges e Anne, cujos sente e sofre como familiares e amigos seus. Partilha a dor de Georges de aos poucos e poucos estar perder, lenta e penosamente, a companheira da sua vida, das suas vivências, das suas memórias. Partilha a confusão de Anne, a sua vontade de recordar e o seu medo de esquecer. Acima de tudo, partilha a compaixão e a cumplicidade entre ambos e compreensão de que o amor, tantos anos depois, tantas experiências depois, não abandonou: entranhou-se em cada gesto, em cada conversa banal, em qualquer acto piedoso. Amor é um panegírico à vida humana, à condição humana de pensar e deixar de pensar, de contrariar as adversidades e de eventualmente aceitá-las, encontrando no revés a possibilidade infinitamente pequena de felicidade e de carinho. É também a representação da enfermidade como parte integrante da vida, impossível de ignorar, difícil de controlar, custoso de aceitar, mas subitamente presente e autoritária, desafiadora da rotina física e do costume psicológico. A enfermidade exige repensar tudo o que vinha como certo, impõe considerar o fim de um longo ciclo, quer para Georges, na iminência da solidão, quer para Anne, na iminência da escuridão.

Amor é realizado por Michael Haneke da maneira mais simples, com planos banais, deliberadamente privado da surpresa e do espanto, da música e da cor viva, como uma enorme pintura de uma mão cheia de simples momentos que se encontra exposta a uma relativa distância, que não pode ser tocada ou tirada do sítio, mas contemplada e sentida. E a realização despetrechada dá espaço à complexa e crua interpretação, tanto de Jean-Louis Trintignant como de Emmanuelle Riva, tão honesta e verdadeira que torna impossível não acarinhar e sensibilizar, mesmo à distância da tela e da tela ao elegante apartamento de Georges e Anne. Tudo em Amor é percebido como honesto e autêntico.     

Amor é uma obra primorosa, sem sentido de irreflectida comercialização, de juízos fáceis e de radiantes conclusões – aliás, o inevitável desfecho de Anne fica logo claro no prólogo da narrativa, evitando ansiosas aspirações de fenómenos Deus ex machina, criando espaço para a meditação e para o usufruto de cada momento como derradeiro. Amor não é um romance, nem um drama: é um excerto da vida como a conhecemos. Nomeado para cinco óscares, incluindo melhor filme, melhor filme estrangeiro e melhor argumento original, Amor é uma maravilha da realização desinteresseira, da moral genuína e da vida compreendida. 

CLASSIFICAÇÃO: 5 em 5 estrelas

Trailer:

sábado, 12 de janeiro de 2013

Filme: Guia para um Final Feliz (2013)


Pontuado por interpretações excelentes, Guia para um Final Feliz é um notável drama romântico, com deliciosas e inteligentes doses de comédia, que faz muito mais para além de mostrar a possibilidade de um final feliz: mostra a necessidade de transpor os monstros de cada um e de aceitar a ajuda do próximo.  

Pat (Bradley Cooper) é um indivíduo com bipolaridade que acaba de ser libertado de uma instituição psiquiátrica depois de cumprir um internamento de 8 meses por causa de um acesso de raiva e violência. Enquanto tenta conciliar o seu regresso a casa com o bem-estar da sua família, Pat procura redimir-se e recuperar o seu casamento. Quando o seu caminho se cruza com o de Tiffany (Jennifer Lawrence), Pat poderá ter um aliado inesperado.  

Guia para um Final Feliz extravasa as barreiras tipicamente rígidas dos dramas e comédias românticas para se transformar numa relevante história sobre o conflito pessoal, o conflito familiar e o conflito amoroso. Pat é a motriz por detrás de cada conflito, agarrado a um passado perturbante que quer ultrapassar, mas que não consegue esquecer. Os seus conflitos entrelaçam-se e ganham mais incerteza quando colide com Tiffany, outra pessoa similarmente perturbada. Tiffany, tal como Pat, é alguém resignado e negativo, capaz de explodir a qualquer momento. Enquanto Pat procura libertar-se com optimismo do monstro dentro de si, Tiffany procura restringir-se à probidade com agressividade e mal-estar. A sua história é tão intrinsecamente humana e o seu guia para um final feliz passa pela salvação mútua, pela cura conjunta que requer para um o melhor do outro. Guia para um Final Feliz é também um olhar sobre o vício, a obsessão e o desarranjo familiar consequente. Não é claro o efeito que causaram sobre cada elemento, mas é perceptível que se alastraram de maneiras diferentes por todos, lidadas de modos distintos. A cura é igualmente conjunta, mas o desafio reside na concentração de vontades que são maioritariamente opostas e desinteressadas.

Cooper e Lawrence desempenham brilhantemente os seus papéis, com Lawrence um pequeno degrau acima. Cooper interpreta Pat com ansiedade e controlada instabilidade, com gestos nervosos que antevêem cada um dos seus conflitos e incapacidade de transposição. Lawrence representa Tiffany com mais serenidade, de alguém já versado aos seus problemas e efeitos, mas ganha agressividade momentaneamente e explode a bel-prazer. Lawrence afirma-se cada vez mais como a melhor actriz da sua geração, enquanto Cooper mostra pela primeira vez que há mais no seu trabalho e na sua capacidade expressiva para além da comédia fácil. A performance de Robert De Niro, de um pai viciado e ausente, é também admirável. Depois de uma década de filmes e interpretações pobres, De Niro redime-se e mostra que quem sabe nunca esquece.

A realização de David O. Russell (que já tinha convencido no emocionante The Fighter: Último Round) é particularmente minimalista e contida, sem perder o foco das personagens e dos seus dramas. Não se deixa influir pelas características do género e usa-as sempre em favor da história que quer contar e das inferências morais que pretende incutir. Em particular, os planos onde Cooper e Lawrence se encontram a correr lado a lado, abrangendo tanto o drama como a comédia, exibem perfeitamente o controlo de Russell.

Guia para um Final Feliz, adaptado do romance homónimo de Matthew Quick, foi, no mesmo dia de estreia em Portugal, nomeado para 8 óscares da Academia, incluindo Melhor Actor Principal (Cooper), Actriz Principal (Lawrence), Actor Secundário (De Niro) e Realização (Russell). As nomeações não só valorizam o filme como revitalizam o género e provam que é possível escapar ao marasmo que maioritariamente o determinam. Acima de tudo, Guia para um Final Feliz demonstra que nem sempre é o final em si que importa, mas a jornada para o alcançar.

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas

Trailer: