quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

TOP 10 - 2012

Segundo o calendário de estreias em Portugal, eis o Top 10 do Terceiro Take dos melhores filmes (revistos aqui) de 2012:

Nota: O Top 10 foi actualizado para incluir o filme «Amor» (visualizado e analisado numa data posterior), tendo em conta a qualidade da película.


 1.  O Artista (ex aequo)

«Não é raro que se atribua ao cinema a categoria de sétima arte, mas é raro que tal designação tinha verdadeira justeza. O Artista é por seu mérito uma aclamação da sétima arte.»


1. Amor (ex aequo)

«Amor é uma das mais puras e íntimas histórias contadas em primeira mão no cinema. É um filme incrível, memorável e incontornável. Verdadeiramente extraordinário.» 


 2.  A Invenção de Hugo

«"Os filmes têm o poder de capturar sonhos." A Invenção de Hugo não só captura o sonho como o recria, abrilhanta e transmite numa exposição espantosa da magia cinematográfica.»


3.  Cavalo de Guerra

«Cavalo de Guerra é uma incrível jornada. Dramático, divertido e deslumbrante, percorre a crueldade da Primeira Guerra Mundial enquanto mantém um pendor de redenção, bravura e improbabilidades benditas que o transformam num trabalho incontornável e memorável.»      

      «Argo é um filme intenso, hábil e admirável. Ben Affeck revela uma vez mais ambivalência de qualidades, à frente da câmara e atrás dela, e poderá finalmente conseguir o reconhecimento que tem competentemente procurado na sua incursão à realização.»



«Aos cinquenta anos de idade, Bond ganha uma nova vida e num mundo de blockbusters dominado por heróis de banda-desenhada e adaptações de best-sellers volta a ser relevante. Mais do que isso, volta a ser a escala de comparação para as fitas de espionagem e para as fitas de acção em geral.»


   
     «A Vida de Pi é do ponto de vista técnico magnífico, particularmente na utilização estilizada do 3D. É também um triunfo visual. Mas é acima de tudo uma incrível história com profundos significados, com necessárias reflexões e incontornáveis questões.»



«Millenium 1 – Os Homens que Odeiam as Mulheres pode muito bem ser um dos filmes do ano. Certamente é dos melhores thrillers dos últimos anos. As sociedades modernas são corruptas e muitas vezes maldosas, com repugnantes actos contra os seus próprios elementos, e Millenium 1 não tem medo de o mostrar da forma mais crua e sórdida.

«O Cavaleiro das Trevas Renasce alarga a mitologia de Batman e conclui a trilogia num espectáculo sublime. É o filme a superar no género, mesmo que ele não supere completamente o seu predecessor. Mais do que outro capítulo de Batman, é o final merecido para o grande empreendimento de Christopher Nolan.»



«Vergonha é tudo menos o que o seu título pretende passar. Aqui não há vergonha. É um filme comodista nas suas próprias normas e preconceitos. O seu objectivo não é chocar, nem corrigir. Pretende tão-somente despir a cegueira moral do espectador para uma demonstração quasi-grotesca da perturbação, do vício e do distúrbio sexual que não tem um início nem um fim em si mesmo.»



«Temos de Falar Sobre Kevin é um filme perturbante sobre a complicada relação de uma mãe com o seu filho. Mas mais do que isso, é um filme que se propõe a explorar os recessos psicóticos de uma personalidade perversa. Tilda Swinton está fantástica como nunca.»




sábado, 22 de dezembro de 2012

Filme: A Vida de Pi (2012)


A Vida de Pi é do ponto de vista técnico magnífico, particularmente na utilização estilizada do 3D. É também um triunfo visual. Mas é acima de tudo uma incrível história com profundos significados, com necessárias reflexões e incontornáveis questões.

Piscine Molitor "Pi" Patel (Suraj Sharma) fica desolado quando os seus pais decidem vender os animais do zoo que dirigem e mudar-se para o Canadá. Dividido entre três religiões, encantado por uma paixão e cansado de se provar à família, Pi embarca com o coração perdido. Mas quando a tragédia o atinge e perde a sua família num terrível naufrágio, Pi embarca numa jornada individual (com uma zebra, um orangotango, uma hiena e um tigre) que colocará no limbo a sua sobrevivência e as suas crenças. Já adulto, Pi conta toda a história a um escritor (Rafe Spall) e leva-o similarmente a questionar as suas crenças.

A Vida de Pi não é uma mera história de sobrevivência de um náufrago em condições desafiantes e impossíveis. Embora tudo isso esteja presente, é um simples apetrecho para um quadro de representações alegóricas de vários apanágios da vida: o instinto de sobrevivência, a fé e o afecto. Interligados, o filme não faz juízos sobre a autoridade de cada um deles relativamente aos outros, remetendo tal escolha para o espectador, que a decidirá conforme a sua própria disposição na vida, na fé e nos relacionamentos. O próprio Pi revela-se uma personagem confusa, inicialmente na religião (segue três teologias), e mais tarde na jornada que realiza através de paragens e ocasiões improváveis. E se no fim se nos apresenta com duas versões dos factos, ainda que o filme apenas desenvolva uma, a confusão já não é de Pi, mas do espectador que deve escolher entre a fantasia e o real, entre as suas próprias convicções e o limite da sua crença.

Dissecar a história em cada uma das suas alegorias é um exercício que se impõe ao espectador durante o visionamento do filme. Não se pode ficar apenas pelo maravilhamento da fotografia e pelos pasmos causados pelas três dimensões que a película espontaneamente ganha em sequências que prendem a respiração. Mesmo a música que acompanha as duas horas sugere uma meditação contínua. Não quer isto significar, no entanto, que o espectador se aliará às conclusões a que Pi e o escritor chegam; podem, na realidade, ser absolutamente contrárias, e a força e a importância do filme residem precisamente nesse aspecto. A Vida de Pi questiona e sugere, toma uma posição, mas deixa terreno vazio para o caminho que cada um quiser construir.

Ang Lee realiza provavelmente o filme mais significante da sua carreira com a adaptação da obra homónima de Yann Martel. A reflexão do realizador taiwanês é perceptível na forma como agarra com sentido cada imagem e como transforma simples cenários de uma barca sobre a água em quadros que remetem para o subliminar e para o espiritualismo. A obra de Yann Martel era considerada impossível de filmar, mas Ang Lee, tal como Pi na história, contorna o impossível e chega a bom porto. A Vida de Pi, todavia, não está isenta de falhas. A primeira metade do filme nunca chega perto da qualidade e da majestosidade da segunda metade, nem se desprende de alguma banalidade na forma como mostra a Índia e a sua cultura, ou como caracteriza algumas personagens secundárias com um importante impacto na jornada de Pi. Felizmente, são males menores e consegue arrancar de Suraj Sharma uma interpretação de alto-calibre.

A Vida de Pi é uma maravilha técnica e uma preciosidade cinematográfica destinada a tornar-se um clássico moderno. Porventura, alguns não o tomarão por mais do que um aprimorado documentário do National Geographic ou do Discovery. Mas nada antes trabalhou tão bem o círculo da vida, a natureza crua e o lugar do ser humano nesse tão vasto meio após despojado de todos os apetrechos produzidos pela sua inteligência.  

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas

Trailer: