sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Filme: Anna Karenina (2012)


Anna Karenina, outra colaboração entre Wright e Knightley, tem tanto de familiar como de novo. Imaginativo e pontualmente fascinante, ilustra satisfatoriamente o escândalo social, a traição e o amor proibido. É marcado por boas actuações, por pormenores técnicos curiosos e por um ritmo delongado.   

Quando Anna (Keira Knightley) viaja para Moscovo para visitar o seu irmão, conhece por acaso o Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), por quem sente uma imediata atracção. Kitty (Alicia Vikander), irmã da cunhada de Anna, recebe uma proposta de casamento de Konstantin Levin (Domhnall Gleeson), que rejeita por aguardar semelhante proposta de Vronsky. Mas Vronsky enamora-se por Anna e ambos principiam um caso amoroso que choca a alta-sociedade russa e enfurece o marido de Anna, Alexei Karenin (Jude Law).   

O clássico romance de Leo Tolstoy já sofreu inúmeros tratamentos televisivos e cinematográficos nos últimos cem anos. Joe Wright, reconhecido e estimado pelas suas adaptações de Orgulho & Preconceito e Expiação, arriscou transformar com a sua versada visão o trabalho icónico de Tolstoy (considerado por muitos o maior romance de todos os tempos e a grande influência da literatura moderna). O resultado é outro filme de época de Wright que vive para além dos panoramas e dos guarda-roupas exuberantes, mas que não alcança completamente a qualidade de Orgulho & Preconceito ou, tão-pouco, de Expiação. Constrangido por um reduzido orçamento, Wright tem a engenhosidade de rodar a grande parte do enredo num velho teatro adaptado ao longo da história às várias situações, sentimentos e estratos sociais. Nisso, a história avança num voluteio interessante de planos contínuos e alternações de cenário inesperadas, sobrevivendo da iluminação e dos sons para entranhar no espectador a noção de realismo e espaço. Embora, efectivamente, a qualidade teatral de Anna Karenina passe eventualmente despercebida, ou aceitável, as cenas exteriores (mais frequentes na segunda metade do filme) surgem como uma lufada de ar fresco e retiram alguma sensação de claustrofobia que resida no espectador. Além disso, o aspecto teatral cria por vezes no filme a sensação de um musical não cantado, marcado pela rotina da execução e pela manifesta encenação. Mas o que também consegue, por via de tal aspecto, são brilhantes momentos, como um baile na primeira metade que cria ansiedade e encanto.

Com Anna Karenina, fica definitivamente comprovado que Keira Knightley nasceu para os filmes de época. Assume convincentemente os comportamentos, os maneirismos e a postura de uma sociedade russa industrializada e pré-revolucionária que se debate com a tradição e com a mudança. Deslumbrante até ao último momento, Knightley é uma categórica Karenina, sedutora e delirante. Jude Law, por outro lado, é magnífico a interpretar um marido e pai que parece sempre impávido e confortável, mas que mascara um forte controlo emocional sempre perto do limite. Aaron Taylor-Johnson é o mais fraco no triângulo amoroso e a sua interpretação é por vezes inesperadamente caricata e emocionalmente comprometida. O restante elenco, maioritariamente britânico, nunca compromete o seu papel e traz vivacidade comedida a tantas outras personagens da extensa obra de Tolstoy.

A história secundária de Konstantin Levin e Kitty, embora funcione como o fio moral que agrega todo enredo (e proporcione também o necessário refúgio dos cenários exteriores), nunca ganha particular interesse e torna Anna Karenina mais extenso do que devia ser. Contudo, no fim de contas, o filme é uma adaptação agradável que merece ser visionada, não só pelos amantes do trabalho de Tolstoy, como pelos amantes de cinema em geral. Uma vez mais, a colaboração entre Wright e Knightley (e, porque não, Dario Marianelli – cuja música volta a deliciar) dá frutos. E mesmo que não esteja ao nível das colaborações anteriores, está bem melhor que muitos dos recentes filmes de época.


CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas

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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Filme: Mata-os suavemente (2012)


Mata-os suavemente não podia ter um título mais congruente. Marcado pela morosidade e pela excessiva conversa fiada, pouco faz para cativar o espectador. E tão abruptamente acaba que o sentimento é de alívio para muitos.

Depois de uma casa ilegal de póquer, guardada pela máfia, ser assaltada por dois vulgares ladrões, Jackie Cogan (Brad Pitt) é contrato para encontrar e eliminá-los. Quando descobre que um dos ladrões o conhece, Cogan chama outro assassino, Mickey (James Gandolfini). Mas as capacidades de Mickey já não são o que eram e Cogan terá que arranjar uma forma de cumprir o seu contrato.    

Mata-os suavemente parece o típico filme sobre o crime e a máfia com as características de um clássico do género: um excelente elenco, um realizador talentoso e um romance interessante. Mas a concretização cinematográfica falha surpreendentemente, ensombrada pela escusada procrastinação, pela proliferação de nós não resolvidos e pela teimosia pelo diálogo supérfluo. Chega mesmo a parecer um consultório sentimental para assassinos a soldo, quando não desperdiça vários minutos a preparar as execuções dentro de um carro numa longa conversa sobre como agir (mas sem nunca parecer ter vontade em fazê-lo).

A história, entre o assalto e as execuções, tenta acomodar um tom crítico à economia, às precárias condições sociais e ao final da governação de George W. Bush na América. Intercalando conversas e situações com discursos do antigo Presidente norte-americano (que na televisão fala de um império próspero e de um povo firme), exorta uma fundamentação para as escolhas criminosas dos ladrões e daqueles que os querem executar, mas sem nunca alargar a apreciação ou ostentar qualquer forma de moralidade – a única que ressalta é que na América é cada um por si.

Os valores técnicos do filme estão bons e a qualidade das interpretações nunca está em causa. Brad Pitt está ao nível que tem vindo a habituar nos últimos trabalhos e James Gandolfini, confortável num papel semelhante àquele que o tornou célebre no pequeno ecrã, está perto do brilhantismo. Os diálogos, ainda que excessivos, estão bem construídos e apresentam-se desinibidos como devem estar. O filme não se coíbe na brutalidade dos crimes exibidos (quando finalmente os decide aceitar), que mostra em planos habilmente conseguidos. As músicas que se desenrolam em cenas-chave (dada a ausência de banda-sonora) são astutamente introspectivas.   

Tudo em conta, Mata-os suavemente não é uma película de fácil, ou clara, degustação. Se um aceitar a suavidade e ultrapassar a impaciência, apreciará a história e a maneira como decorre. Caso não, é provável que experiencie frustração nos momentos mais parados e um alívio no final que tem tanto de satisfação quanto de desagrado.   

CLASSIFICAÇÃO: 2,5 em 5 estrelas

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