quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Filme: O Substituto (2012)


O Substituto nunca chega a atingir o potencial da sua história ou do seu bom elenco. Parecendo a momentos mais um documentário do que um drama, resulta numa edição desordenada de enredos que parecia desejar seguir, mas que foi deixando de parte, puramente esquecidos, para manter o foco numa personagem de Brody que, embora ao seu melhor nível, é tão confusa e incompleta quanto o filme em si.

Henry Barthes (Adrien Brody) é um professor substituto que acaba de ser colocado, durante um mês, numa nova escola. Enquanto enfrenta a doença do seu avô e dá abrigo e ajuda uma jovem prostituta a recomeçar a sua vida, batalha com os vários problemas sociais da nova escola e tenta compreender o papel e o trabalho dos seus colegas. Mas como um outsider, distanciado da realidade daquele meio, sentirá problemas e enfrentará vários desafios.

Se O Substituto faz uma coisa bem, muito bem até, é expor a realidade de um professor numa escola com um meio social complicado da forma mais crua e sincera. Mostra os desejos dos professores, aquelas motivações primárias que os encaminharam à profissão – a vontade de ajudar e marcar a diferença –, e depois o seu cair na realidade, no desespero, na pressão por resultados forçadamente positivos, conformando-se com a inaptidão de alunos desinteressados e pais indiferentes. Ainda que ao de leve, faz uma decente exposição do bullying e da prostituição juvenil. Mas O Substituto é, sobretudo, uma introspecção de Henry Barthes e de tudo aquilo que o leva a um distanciamento e desapego progressivos, à sua incapacidade, resultante de uma tragédia passada mal explorada, para ser mais do que um simples substituto.

Tivessem os elementos anteriores sido orientados de uma maneira assertiva, O Substituto podia ser mais do que um simples filme: podia constituir uma séria e incontornável lição. Mas como se perde numa edição confusa, e mistura mal elementos de documentário e drama, desperdiça qualquer hipótese de moralidade, mesmo que todo o filme esteja preenchido, possivelmente a tapar evidentes fendas no guião, com frases e representações genuínas e motivadoras. Não ajuda também que Henry Barthes seja uma personagem emocionalmente distante e que o restante elenco esteja emocionalmente indisponível.

A edição, como já mencionado, é confusa, baralha a identidade do filme, e a fotografia, pontualmente com planos e disposições interessantes, nada traz de tecnicamente relevante. A música que acompanha, particularmente melancólica e maçuda, não oferece emoção ou disfarça a morosidade dos acontecimentos. Ocasionalmente, gráficos animados, a similar giz num quadro de ardósia, expõem alguns sentimentos mais profundos de algumas personagens e oferecem uma bem-vinda distracção, mas não mais do que isso.

Adrien Brody está de volta ao seu nível máximo de representação neste filme. Com o pouco que lhe foi dado a fazer – emocionalmente –, superou-se. Esse aspecto, juntamente com a forma como é reproduzido o ambiente social de uma escola, torna O Substituto cativante. Tudo o resto torna-o irrelevante. 

CLASSIFICAÇÃO: 2,5 em 5 estrelas

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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Filme: Argo (2012)


Argo é um filme intenso, hábil e admirável. Ben Affeck revela uma vez mais ambivalência de qualidades, à frente da câmara e atrás dela, e poderá finalmente conseguir o reconhecimento que tem competentemente procurado na sua incursão à realização.

Em 1979, rebenta a Revolução Iraniana e o Xá Mohammad Reza Pahlevi é deposto do poder. Doente e vencido, Pahlevi consegue asilo político nos Estados Unidos da América. Revoltado, o povo iraniano exige o regresso do Xá e a 4 de Novembro de 1979 invade e toma reféns na embaixada norte-americana. Na confusão, seis diplomatas americanos fogem da embaixada e refugiam-se na casa do embaixador canadiano. O especialista em extracções da CIA, Tony Mendez (Ben Affleck), desenvolve um plano meticuloso para resgatá-los, envolvendo a produção fictícia de um filme de ficção científica. Mas a secreta missão enfrentará muitos adversários e desafios, tanto no Irão como nos próprios Estados Unidos da América.

Os eventos que levaram ao resgate dos seis refugiados foram mantidos em segredo durante muitos anos e só a partir de 1997 foram tornados públicos e o envolvimento de Tony Mendez foi reconhecido publicamente. Enquanto, na realidade, o trabalho de Mendez parece efectivamente algo retirado de um filme, Argo faz muito, e muito bem, para o tornar verosímil, detalhando todo o processo com inteligência, humor e drama. E onde o argumento de Chris Terrio se encontra consciente do processo de extracção, não se coíbe a contornar a realidade e a reordenar e a relocalizar os eventos para criar espanto e gradualmente elaborar um momento de altíssimo suspense que coloca a audiência numa angustiante expectativa. Afinal, Argo é um filme, um thriller, e não um documentário.  
     
Meticulosamente filmado, Argo combina imagens reais, reproduz outras, com o seu lado fictício, nem sempre sendo óbvia a distinção entre elas. A edição é de nível e é particularmente brilhante numa cena intercalada em que o falso filme «Argo», da CIA, é apresentado em Hollywood e em Teerão os reféns da embaixada são considerados espiões e ficam com as vidas em risco. A fotografia é tendenciosamente escura, a intervalos baça, não só contribuindo para dificultar a distinção entre os planos reais e os planos fictícios nos momentos em que se concertam como para transmitir uma atmosfera encoberta tal como aquela de um dia que antevê uma tempestade e o ruir dos esforços. A cadência da banda sonora de Alexandre Desplat, afinada às variadas circunstâncias, envolve em brio os esforços anteriores e torna a tensão e a angustiante expectativa mais intensas ainda.

Se Argo tem um aspecto negativo de saltar à vista terão que ser a falhadas breves sugestões de uma vida pessoal de Tony Mendez fracassada e problemática, com um provável problema de alcoolismo. Nada disso interessa para o guião central nem toma influência no sucesso ou insucesso da missão. Nem é necessário para tornar o arriscado trabalho de Mendez heróico e laudável. Mas da maneira como o filme corre, poucos se aperceberão ou importarão com este menor lado.  

Ben Affleck desempenha o papel principal e está de corpo presente em quase todo o filme. Tão bem quanto efectivamente está, é importante realçar a qualidade do restante elenco, nomeadamente Bryan Cranston e Alan Arkin. Seguindo a tradição de Hollywood de premiar filmes que mostram a competência norte-americana, Argo poderá estar a caminho de uma época de prémios em cheio. A verdade, porém, é que merecerá a grande parte deles. Merece, sobretudo, pela capacidade de transverter uma história acessória dos eventos da Revolução Islâmica e da tomada de 444 dias da embaixada norte-americana no mais notório acontecimento. 

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas

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