sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Filme: Dos Homens sem Lei (2012)


Dos Homens sem Lei é um interessante filme de época que, não abordando especialmente os problemas da Grande Depressão, caracteriza bem os tempos da Lei Seca e da criminalidade associada. As actuações de Hardy e Pearce, em particular, são de enaltecer.
   
Em 1931, em plena Grande Depressão e imposição da Lei Seca, os irmãos Bondurant controlam uma destilaria ilegal de sucesso em Franklin County, Virginia. Forrest (Tom Hardy) é o irmão mais velho, também o cérebro e músculo da operação, Howard (Jason Clarke) o irmão de cabeça quente e Jack (Shia LaBeouf) o irmão novo e vacilante. Quando o recém-chegado delegado Charlie Rakes (Guy Pearce) coloca a operação dos irmãos Bondurant em causa, Franklin County deixa de ser o paraíso das destilarias ilegais e a alegada invencibilidade dos Bondurant é colocada à prova.

Dos Homens sem Lei, adaptado por Nick Cave do livro The Wettest County in the World de Matt Bondurant (neto de Jack Bondurant), nunca chega a ser um filme coeso. Divide-se em momentos de criminalidade e momentos de relacionamentos maioritariamente desligados uns dos outros. Faz um muito melhor trabalho a reproduzir a violência (muitas vezes vertiginosa, inesperada e gráfica) do que a estabelecer relações interessantes, revelando um problema de identidade provavelmente justificado pela necessidade de humanizar um grupo de foras-da-lei. A natureza da obra de Matt Bondurant constrange o enredo a seguir a personagem de LaBeouf em todas as suas interacções diárias, quando a verdadeira qualidade do filme se encontra nas personagens de Hardy e Pearce, mesmo que Jack Bondurant seja no fim de contas o mais simples e íntegro dos irmãos que merece redenção aos olhos das outras personagens e do espectador no final.

Em plena Grande Depressão, é de lamentar que as terríveis condições de vida não surjam como condicionantes para os habitantes de Franklin County e para a criminalidade dos irmãos Bondurant e dos produtores de álcool ilegal em geral. À parte, possivelmente, da excelente fotografia baça e fria de Benoît Delhomme, apenas uma única referência à crise é feita, praticamente um ponto de situação para o espectador. Seria mais concebível que a conformação à criminalidade dos irmãos Bondurant viesse de um contexto económico e social degradado e incomportável do que das exposições prolongadas a relacionamentos desinteressantes em que Dos Homens sem Lei desperdiça demasiado tempo. 

Mas onde o guião de Dos Homens sem Lei é fraco, as interpretações são fortes. Hardy é quem mais fica na memória, não apenas pela natureza aparentemente indestrutível de Forrest, mas também pela credibilidade, resolução e ponderação que Hardy lhe confere, transformando-o num herói silencioso que é difícil não apoiar. Pearce fica imediatamente atrás de Hardy: o seu Rakes é deliciosamente instável, enervante e perigoso. O restante elenco faz um bom trabalho, sem a notabilidade destes dois, sendo necessário realçar, no entanto, pelo lado menos, o trabalho demasiado secundarizado de Jessica Chastain, que serve mais de adereço do que outra coisa.

Dos Homens sem Lei é muito bem filmado, alternando inteligentemente entre planos abertos e planos fechados, não se amedrontando na demonstração da sanguinolência da violência. Uma banda sonora mais presente teria sido vantajoso, daria outro espírito ao andamento da história, mas como está, com as suas falhas e virtudes, Dos Homens sem Lei vale a pena ser visualizado, quanto não seja pela veracidade de uma história de uma época de foras-da-lei.

CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas

Site oficial: http://lawless-film.com/
Trailer:

sábado, 27 de outubro de 2012

Filme: 007 - Skyfall (2012)


Aos cinquenta anos de idade, Bond ganha uma nova vida e, num mundo de blockbusters dominado por heróis de banda-desenhada e adaptações de best-sellers, volta a ser relevante. Mais do que isso, volta a ser a escala de comparação para as fitas de espionagem e para as fitas de acção em geral.

James Bond (Daniel Craig) encontra-se numa importante missão em Istambul para recuperar um disco rígido que contém informação confidencial e sensível sobre agentes da Nato infiltrados em organizações terroristas. Na iminência de perder o assaltante, M (Judy Dench), a partir do centro de operações em Londres, dá uma ordem de fogo que acaba na aparente morte de Bond e na fuga definitiva do assaltante. Quando as informações contidas no disco começam a ser libertadas na Internet e o próprio centro de operações do MI6 é atacado, Bond regressa para ajudar M e parar o homem por detrás dos ataques. Mas o perigo pode ser mais familiar do que Bond e M imaginam.

Skyfall dá praticamente por esquecidos os acontecimentos dos últimos dois filmes (os primeiros com Craig) e introduz na icónica série uma nova brisa e uma renovação necessárias e bem-vindas. Se Bond faz uma breve ressurreição em Skyfall, Skyfall faz uma ressurreição na série de vinte e três filmes do famoso espião de Ian Fleming. E torna Bond novamente pertinente ao reconhecer a idade do seu espião, as alterações no mundo da espionagem e o fenómeno do terrorismo cibernético e individual que não é necessariamente apoiado por um grupo, movimento ou ideologia. Os tempos da guerra-fria acabaram, a espionagem já não pode ter apenas nações em conta e o poder do bit é de todas a ferramenta mais útil e poderosa (e também a mais perigosa). 

A nova missão de Bond tem momentos de acção deslumbrantes – a sequência de abertura, em perfeito testemunho, é tão fluida e integrada que não é possível questionar a plausibilidade de uma perseguição de carro (e depois de mota) acabar no topo de um comboio em movimento numa belíssima ponte. Mas Skyfall não dispensa diálogos ponderados e panoramas de reflexão pela acção apenas pela acção – a acção surge como um complemento, um acessório per se, a um olhar às raízes, às escolhas e ao envelhecimento do MI6 e do próprio Bond. A história lida com cada um destes três aspectos individualmente, e depois em conjunto, e no final a questão transforma-se num problema mais familiar do que institucional, nas simples problemáticas humanas da maternidade, da rejeição e da desforra, em que Bond se encontra no epicentro de uma vingança física e emocional de um "irmão" espião à mulher que os criou.

Skyfall também olha para um Bond mais velho num MI6 mais novo numa era mais informatizada. Bond procura o seu lugar na nova realidade, mas sem querer abandonar por completo os antigos hábitos e maneirismos. A Bond girl, por exemplo, tem muito menor impacto na história que em versões anteriores, como também tem o recurso a equipamentos de espionagem de vanguarda. Skyfall, na verdade, é muito tradicional nos seus recursos, saudosista dos primeiros Bonds, e funciona como elo entre o engenho desses e ligeireza dos mais recentes.      

As actuações em Skyfall são muito boas, mas a nota de destaque vai conjuntamente para Judy Dench e Javier Bardem. A primeira mostra um lado frágil de M, de fim de ciclo, que se desconhecia e o segundo cria um vilão emocionalmente perturbado, sexualmente confuso, com um provável complexo de Édipo. Craig não deve ser, porém, esquecido – o seu Bond é mais maduro e ponderado que anteriormente. A fotografia é deslumbrante, equilibrando tons frios e quentes, nitidez e luz com profundidade – realça sempre brilhantemente as belíssimas paisagens onde decorre a acção, quer nos confusos mercados de Istambul pelo dia ou no caos luminoso de Xangai e Macau pela noite. Mas é a fotografia no último acto, na Escócia, que se torna no grande momento (possivelmente premiado) de Roger Deakins. A banda sonora de Thomas Newman é outro aspecto notável: dramática, pulsante e suspensiva. Skyfall não está, todavia, isento de falhas. Algumas transições não são decentemente explicadas (como o súbito anoitecer no último acto) e Bardem é, infelizmente, subutilizado, aparecendo apenas na segunda metade do filme quando poderia ter colocado mais desafios e interacções.

Em última análise, Skyfall faz muito por James Bond. Reaviva a série, apresenta caras novas, traz-lhe humor, drama e acção e potencia um futuro de nova glória para o espião britânico. Sam Mendes partilhou que se inspirou no Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan. E não surpreende. Se o Cavaleiro das Trevas transformou os filmes de super-heróis, Skyfall transformará os filmes de espionagem. E transformará porque soube olhar para trás, para os primeiros Bonds, e tirar inspirações e métodos. A certo ponto em Skyfall, M pergunta a Bond para onde vão. Bond responde simplesmente: “De volta ao passado.” E isso basta.

CLASSIFICAÇÃO: 4,5 em 5 estrelas

Trailer: