quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Filme: A Advogada (2012)


A Advogada traz-nos a incrível história verídica de persistência e incondicional amor de Betty Anne Waters pelo seu irmão. Embora partidista na maneira como aborda os factos, galvaniza Hilary Swank para a por vezes rara performance notável.

Betty Anne Waters (Hilary Swank) trabalha incansavelmente para provar a inocência do seu irmão, Kenny (Sam Rockwell), e libertá-lo de uma pena perpétua. Ante as dificuldades financeiras e a indiferença da justiça, Betty decide formar-se em advocacia para compreender melhor o sistema e ajudar o seu irmão, enquanto sente dificuldades para sustentar os próprios filhos. A força da sua amiga de curso, Abra Rice (Minnie Driver), e a emergência de testes de ADN dão a Betty a derradeira oportunidade para tentar apurar a verdade.     

A Advogada consegue ser um filme brilhante a espaços, nomeadamente quando é capaz de relacionar os eventos presentes dos irmãos Waters com a sua infância difícil e errática. É dessa maneira que consegue explicar com plausibilidade a perseverança de Betty em socorrer o seu irmão. Dispensou 16 anos da sua vida para ilibá-lo, desinvestindo do seu casamento e quase perdendo os seus filhos – prova de amor absoluto que o filme consegue apresentar da melhor maneira. Mas se A Advogada triunfa nessa vertente, falha na parte jurídica do seu guião. Munindo-se da veracidade da história e dos anos que passaram desde os acontecimentos, pouco ou nada faz para lançar uma real suspeita sobre a alegada envolvência de Kenny no assassínio de Katharina Brow, ou para apresentar a visão da família da vítima e da justiça. O filme certamente ficaria a ganhar se este lado tivesse sido trabalhado e o resultado do esforço de Betty seria mais recompensador.

Se A Advogada não chega a ser um filme brilhante pela tendência para apenas um lado dos acontecimentos, ou pela debilidade no tratamento dos temas e procedimentos jurídicos envolvidos, é efectivamente um bom drama e uma oportunidade eximiamente aproveitada tanto por Swank e Rockwell para puxarem dos seus galões. Swank consegue comover nos momentos de desespero e encantar nos momentos de triunfo, enquanto Rockwell envolve a sua personagem em camadas de amabilidade que se sente que podem ruir a qualquer instante fruto da desesperança e da melancolia.

A Advogada chega a Portugal dois anos depois da estreia oficial. Não se compreende a demora na distribuição portuguesa do filme – é certo que não é nenhum blockbuster, mas o seu visionamento vale mais a pena que a maioria deles. É uma excelente e tocante história de afeição, sacrifício e obstinação. É difícil não torcer pela libertação de Kenny (mesmo que o filme manipule, de certo modo, nesse sentido), sobretudo quando um tem em mente a quantidade de indivíduos erroneamente acusados por falta de verdadeiros e transparentes procedimentos de investigação. É uma história ainda mais tocante se se tiver em conta o que ocorreu depois dos acontecimentos retratados no filme.  

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas

Trailer:

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Filme: Frankenweenie (2012)


Frankenweenie é regresso de Tim Burton à animação e também o regresso e reinvenção ao segundo trabalho da sua carreira. Pontuado pela comédia, pelo afecto e pela vivacidade do desenho, Frankenweenie seguramente agradará a pequenos e graúdos.

Victor Frankenstein (Charlie Tahan) é um pequeno cineasta e cientista que vive inseparável do seu cão Sparky. Quando é convencido pelo seu pai a jogar basebol para que conviva mais com os seus colegas da escola, Victor efectua uma jogada que resulta no atropelamento de Sparky. Estimulado por uma das aulas de ciências, Victor decide fazer o inimaginável: ressuscitar Sparky. A experiência funciona, mas acarretará um conjunto de perigos que colocarão a cidade de New Holland, e mesmo o regresso de Sparky, em risco.

Em 1984, Tim Burton realizou uma curta-metragem para servir simultaneamente de paródia e homenagem a Frankenstein de 1931. Com apenas meia hora de duração, Frankenweenie de 1984 é um filme razoável, com personagens reais e alguns efeitos especiais interessantes. O seu mérito é, efectivamente, a reviravolta que dá à história original de Frankenstein. Mas fica-se por aí e fica no ar a sensação de que lhe falta essência, brilhantismo e ternura. Tim Burton percebeu isso mesmo a dada altura e convenceu a Walt Disney a financiar um remake. Usando muito a técnica que aplicou em A Noiva Cadáver (aliás, a equipa é quase a mesma), Burton reinventa Frankenweenie como uma longa-metragem de animação, acrescentado o humor, o drama e o horror gótico que faltou à curta-metragem – chega mesmo a transladar take a take algumas das cenas mais icónicas do original. A escolha pela animação é a maior virtude do remake, e bem assim a escolha por uma fotografia a preto e branco que acrescenta até mais nitidez, detalhe e fantasia que o uso de coloração.   

As personagens são maioritariamente estereótipos da sociedade, mas não são por isso mal utilizadas. Quase todas vêm do remake, e são todas elas vivamente extrapoladas da sua versão original para uma forma mais caricata, desarranjada e parva. É, no entanto, uma modificação que acaba por trazer momentos inspirados e marcantes ao remake. Em particular, a personagem de Victor surge mais irreverente, meiga e escrupulosa.

Frankenweenie não traz nada de novo tecnicamente – a intervalos, aliás, apresenta algumas imperfeições na espontaneidade das imagens mais rápidas, como sejam os movimentos das pernas e das bocas (todavia, uma falha menor do stop motion que não esbarra com a beleza das imagens). O uso do 3D também nada acrescenta, como, de resto, poucos filmes têm acrescentado ultimamente – é mais uma decisão monetária que uma decisão artística. Além disso, existe um conflito temporal e histórico no guião: enquanto o setting é dos anos 50 para 60, são feitas referências recentes como a exclusão de Plutão da lista de planetas. 

Mas as imperfeições técnicas e conflitos temporais não interessarão para o espectador que procure, possivelmente em família, passar um bom momento. Frankenweenie está carregado deles e possui uma estrela que tem o poder para ficar na memória de todos: Sparky. Se houve quem se encantasse com Uggie n’O Artista, haverá com certeza quem se apaixonará por Sparky, mesmo que ele não seja de pêlo e osso. Acompanhado por outra excelente banda sonora de Danny Elfman (em mais uma colaboração com Burton), e mesmo que o final não seja particularmente surpreendente, Frankenweenie é uma aposta ganha de Burton, nem que seja tão-somente pelo contributo na promoção aos animais de estimação.   

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas

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