sexta-feira, 6 de julho de 2012

Filme: O Fantástico Homem-Aranha (2012)



O Fantástico Homem-Aranha nunca é um filme aborrecido. Intercala-se com momentos de humor, momentos de acção e momentos de reflexão. A aposta neste reboot tão prematuro poderia redundar-se num falhanço crasso, mas O Fantástico Homem-Aranha consegue superar a problemática da familiaridade do enredo e sustentar-se a si mesmo como um reinício válido.

Peter Parker (Andrew Garfield) é um dos muitos adolescentes na sua escola. Invisível e geeky, Peter repudia os actos de bullying e desafia os transgressores. Assombrado pela morte prematura dos seus pais, Peter decide averiguar os factos que envolveram o acidente que os vitimou. A sua investigação leva-o à OsCorp, uma empresa especializada em avanços científicos e tecnológicos que empregava o seu pai. Ali encontra-se com o Dr. Curt Connors (Rhys Ifans), antigo colega do seu pai que pode saber alguns dos segredos do projecto em que ele trabalhava. Peter decide ir mais longe na sua investigação e descobre o laboratório na OsCorp onde se encontra o antigo projecto do seu pai. Mas algo corre mal e Peter sofre uma transformação que o leva a envergar a máscara do Homem-Aranha e que o aproxima da sua paixão, Gwen Stacy (Emma Stone).

Possivelmente inspirado pelo que Christopher Nolan fez com Batman, Marc Webb entrega a oO Fantástico Homem-Aranha um tom mais sombrio e misterioso. É um projecto mais psicológico, e também mais ambicioso, que a trilogia original de Sam Raimi. E a indicação de que a transformação de Peter pode estar directamente relacionada com o trabalho do seu pai do que a mera coincidência da “hora certa no local certo” proposta por Raimi confere a este reboot uma mão mais refinada de questões éticas. Aliás, uma das temáticas mais frequentes neste novo filme é a perfeição humana e o limite da investigação e aplicação científica. E tal como na trilogia original, encontram-se também presentes as temáticas do heroísmo e da vendeta – nem sempre sendo fácil desmarcar uma da outra.  

Andrew Garfield encaixa melhor no papel de Peter Parker/Homem-Aranha que Tobey Maguire. O seu Peter Parker é mais destemido e inteligente (confrontando os transgressores mesmo antes da sua transformação) e o seu Homem-Aranha parece mais ágil e astuto. A química entre Garfield e Emma Stone é também melhor que a de Maguire e Kirsten Dunst – é sobretudo superior pela decisão de tornar a personagem de Stone consciente da identidade secreta de Peter, que encaminha a diálogos bem construídos entre as duas personagens sobre os limites do Homem-Aranha. No fim, Peter é só um miúdo.

Mas o Fantástico Homem-Aranha não está isento de falhas. A familiaridade do enredo é o grande fantasma que assombra. É certo que muito não pode ser alterado de uma fonte que é comum aos dois trabalhos (de Raimi e Webb), mas o argumento peca por ser malandro. Certos meios empregues (e reciclados) são desnecessários, em particular a morte do tio de Peter Parker a funcionar como catalisador para a emergência do Homem-Aranha – parecia evidente que a investigação sobre a morte dos pais de Peter bastaria; ou as vozes que o Dr. Curt Connors ouve do seu alter-ego negro, à la Dr. Norman Osborn no primeiro filme de Raimi.

Tecnicamente, o Fantástico Homem-Aranha é quase brilhante – a única falha é o CGI menos bem conseguido do Lagarto, que a momentos é tão claramente computorizado que o espectador se pensa num filme de animação. Uma cena na Williamsburg Bridge é absolutamente incrível e os momentos finais na torre da OsCorp são de cortar a respiração. A música de James Horner, embora sem um tema icónico como a de Danny Elfman, contribui para aumentar a tensão, ou aliviá-la, nos momentos-chave.

O Fantástico Homem-Aranha promete ir às origens e mostrar uma história do Homem-Aranha nunca dantes contada. Em parte é verdade, em parte é mentira. Mas vale a pena ficar 136min a distinguir o que é novo do que não é e maravilhar-se com um excelente elenco muito mais à vontade nos seus papéis e com um realizador que utiliza todas as técnicas de ponta para proporcionar momentos de abrir o olho. E se o Fantástico Homem-Aranha está para Webb como Batman – O Início está para Nolan, então talvez o segundo empreendimento de Webb, já solto do constrangimento da familiaridade da transformação de Peter Parker, seja verdadeiramente fantástico.

CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Filme: Temos de Falar Sobre Kevin (2012)


Temos de Falar Sobre Kevin é um filme perturbante sobre a complicada relação de uma mãe com o seu filho. Mas mais do que isso, é um incrível retrato dos recessos psicóticos de uma personalidade perversa. Tilda Swinton está melhor do que nunca.

No presente, Eva (Tilda Swinton) encontra finalmente um trabalho numa pequena agência de viagens. Antes uma escritora de sucesso sobre viagens e experiências, Eva é agora uma mulher solitária, perturbada e mal encarada pela vizinhança. Em flashbacks, a vida de Eva é recordada, desde o nascimento do filho Kevin (Ezra Miller) à relação complicada com ele e à crescente dificuldade em ter um casamento feliz. Aos poucos, é relembrado o terrível dia que para sempre mudou a vida de Eva, a do seu filho e do resto da sua família.

A maneira como a história está seccionada entre o passado e o presente confere a Temos de Falar Sobre Kevin um tom de suspense e intriga de louvar, mais até do que o carácter dramático que acompanha sempre a personagem de Swinton. Funciona sobretudo por mostrar o acontecimento final, o momento que é afinal a razão de ser da história, de uma maneira crua e chocante que atinge o espectador como um murro no estômago.

A fotografia é inteligente. Marca os diferentes tempos da história, bem como os sentimentos transmitidos pelas personagens, com cores primárias vivas e significativas. O vermelho surge sempre cru a representar o horror, a culpa e revolta, enquanto o amarelo vem apontar os caminhos mal tomados do passado. Por fim, o laranja, num tom intermédio, marca os efeitos resultantes.

Temos de Falar Sobre Kevin é um trabalho extraordinário de Lynne Ramsay, que também assina o argumento adaptado do livro homónimo de Lionel Shriver. Meticulosamente filmado, o filme é uma estonteante jornada ao carácter criminoso e maldoso de um indivíduo que desde criança se apresenta problemático, desafiador, chantagista e terrivelmente perspicaz. Ezra Miller executa o seu papel de uma maneira insidiosa e quase macabra. Swinton entrega-se completamente à personagem e é absolutamente perfeita nas expressões e na linguagem corporal.

Temos de Falar Sobre Kevin é efectivamente uma excelente produção. Além da reflexão sobre o carácter maldoso do ser humano, é também uma demonstração da afeição de uma mãe ao seu filho, da sua constante procura de aceitação e carinho. No fim, a redenção chega e os desvios parecem finalmente estreitados. Mas tendo em conta tudo o aconteceu antes, o espectador só pode questionar-se se a vontade de aceitação é realmente superior à culpa e à aversão.

Temos de Falar Sobre Kevin estreia a 03/05/2012

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


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