quarta-feira, 7 de março de 2012

Filme: A Mulher de Negro (2012)


Sombrio, sorumbático e relativamente misterioso, A Mulher de Negro oferece suficientes arrepios para manter o espectador intrigado e preso ao ecrã e a uma casa assombrada com os devidos conteúdos macabros e portas e solos rangedores.

Na era eduardiana, Arthur Kipps (Daniel Radcliffe), um jovem advogado, pai e viúvo, é encarregue de uma propriedade de uma falecida cliente no nordeste de Inglaterra, em Crythin Gifford. Apesar de ser mal recebido pelos locais e de ser avisado para não visitar a propriedade de Eel Marsh House, Arthur insiste em permanecer na vila e tratar de todos os assuntos que o trouxeram. Quando visita por fim a propriedade, que fica localizada numa pequena ilha no meio de um imenso pantanal, acessível apenas por uma longa estrada coberta na maré alta, Arthur começa a experimentar terríveis visões e assustadores sons. Quando começa a investigar mais sobre os antigos proprietários da casa, e em particular sobre o rapaz que ali morreu afogado, Arthur começa a compreender aos poucos o mistério à volta da Mulher de Negro. Apenas a sua valentia pode evitar o horror que se espalha pela vila.

Baseado no romance de Susan Hill, A Mulher de Negro é a espaços um bom filme de terror e suspense. Peca por usar técnicas já demasiado utilizadas e por oferecer momentos previsíveis e um desfecho que, embora diferente do romance em que se baseia, é demasiado antecipado. Ademais, o seguimento do enredo é por vezes pouco lógico, pouco desenvolvido e, em algumas partes, desnecessariamente contemplativo. Felizmente, A Mulher de Negro tem a seu favor um conjunto de sets magníficos. Em particular, a casa que serve de cenário a Eel Marsh House é apropriadamente misteriosa, fantasmagórica, quase como se tivesse a sua própria personalidade. A vila que faz a vez de Crythin Gifford (Halton Gill) é igualmente adequada, igualmente enigmática. Além disso, a época em que a história decorre também joga a seu favor – os belos medos irracionais de maldições e espíritos de uma sociedade na fronteira da era vitoriana com a modernização.

Radcliffe não está mal no seu papel. Mas poderia estar um pouco melhor. Querendo dar a Arthur Kipps a profundidade e a emoção que muitas vezes são deixadas de lado neste género cinematográfico, Radcliffe conduz Arthur de modo estranho em certas cenas – nomeadamente, a expressão do rosto não parece adequada ao que a personagem deve estar a sentir; Radcliffe tem medo de mostrar medo. E o facto de Arthur ser pai também não assenta bem em Radcliffe, provavelmente porque ele é ainda indissociável do papel de Harry Potter e da ingenuidade inerente.

Os elementos fracos de A Mulher de Negro são contra-balanceados pelos elementos fortes e o filme, no seu todo, é agradável. É no mínimo um desvio bem-vindo às recentes películas do género e só por isso, se não por nada acima escrito, merece uma menção positiva.

A Mulher de Negro estreia no próximo dia 8 de Março de 2012


CLASSIFICAÇÃO: 3 em 5 estrelas


Trailer:

quinta-feira, 1 de março de 2012

Filme: Vergonha (2012)


Vergonha é tudo menos o que o seu título pretende passar. Aqui não há vergonha. É um filme comodista nas suas próprias normas e preconceitos. O seu objectivo não é chocar, nem corrigir. Pretende tão-somente despir a cegueira moral do espectador para uma demonstração quasi-grotesca da perturbação, do vício e do distúrbio sexual que não tem um início nem um fim em si mesmo.

Brandon (Michael Fassbender) vive e trabalha em Nova Iorque. Durante a noite, e mesmo até durante o dia, Brandon continua a alimentar o seu vício sexual de modo compulsivo. Quando a sua irmã Sissy (Carey Mulligan) o visita inesperadamente, Brandon sente-se pressionado e levado ao limite. Carente e abalada, Sissy revelar-se-á um desafio e também uma janela que ajudará a compreender melhor o vício de Brandon.

Vergonha tem um ar tão trágico quanto cru. É quase estilístico na forma como aborda o problema, aqui por doença, de Brandon, que se refugia no sexo para disfarçar, ou adiar, a sua infelicidade. O filme não se propõe a explorar de forma clara de onde surgiu o vício dele. As pistas surgem aqui e ali conforme o carácter de Sissy se polariza e choca com os hábitos de Brandon. Mas não é compreender a origem do vício que Vergonha pretende causar. Vergonha é um retrato da luta ao vício e dos altos e baixos que provoca. Mas quando o vício é tão grande e quase inteiramente intrínseco ao carácter como no caso de Brandon, será que a luta é mesmo necessária ou é apenas um pretexto para aceitação final de que o vício está para ficar? A resposta não é clara, mas também não pretende ser. Esse é o trabalho que fica para o espectador e o resultado da reflexão será tão distinto conforme as crenças e preconceitos de cada um.

Michael Fassbender entrega-se de corpo e alma ao papel, literalmente. Encarna Brandon com muita compreensão, sendo capaz de mostrar o lado forte e charmoso e o lado frágil e perdido com incrível realismo, enquanto o mantém distante e fechado das pessoas à sua volta e, por extensão, da audiência. Carey Mulligan dá a mesma entrega que Fassbender e impõe a sua presença no ecrã com primor. É especialmente fantástica numa cena num bar em que canta o clássico tema “New York, New York”.

Steve McQueen não é um homem de pudores e mostra-o claramente na forma como filma Vergonha. Fá-lo quase como uma afronta ao espectador, como um desafio. Impõe o seu método logo nas primeiras cenas para que não haja dúvidas de que será assim através de todo o filme. Mas é colocando logo as suas armas à vista que McQueen evita polarizar a sua audiência e perturbar mais adiante em cenas mais duras – já não surgem com surpresa ou embaraço.

Os planos contínuos de imagem, nomeadamente quando Fassbender corre através da cidade, estão belissimamente conseguidos. Os diálogos ininterruptos, sobretudo entre Fassbender e Mulligan, são de louvar. Vergonha resulta no fim numa película estupenda, ainda que, depois de o ecrã ficar preto, a audiência fique num sentimento de incerteza e incompreensão sobre a verdadeira intenção de McQueen. Mas essa é a grande força do filme: não há nenhuma intenção – há apenas um retrato, um problema e um protagonista, tal como na vida de cada um.        

CLASSIFICAÇÃO: 4 em 5 estrelas


Trailer: