quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Filme: Albert Nobbs (2012)


Albert Nobbs, como filme de época que é, surpreende por tornar uma questão tão proibida à época no grande tema da sua narrativa. Contudo, apesar de representações laudáveis de Glenn Close e Janet McTeer, Albert Nobbs resulta no fim como um retrato embaçado do que o filme poderia ter sido.

Em finais do século XIX, numa Irlanda cinzenta e empobrecida, Albert Nobbs (Gleen Close) é um dedicado serviçal num hotel. Introvertido e solitário, Nobbs apavora-se quando tem que partilhar o quarto por uma noite com um pintor, Hubert Page (Janet McTeer), que veio prestar um serviço ao hotel. Durante a noite, Hubert descobre o segredo de Albert: é uma mulher. Quando, mais tarde, Hubert revela ser também uma mulher, Albert sente-se finalmente menos só. Seguindo os conselhos de Hubert, Albert começa a contemplar uma vida a dois e a sonhar com uma pequena loja de tabaco. Começa a cortejar uma camareira, Helen Dawes (Mia Wasikowska), mas a chegada de um jovem rapaz, Joe Mackins (Aaron Johnson), afasta Helen de Albert e pode comprometer tudo aquilo com que Albert sonha.

Albert Nobbs é, sobretudo, uma história sobre a emancipação feminina numa época dura e pouco justa. Albert Nobbs transforma-se num homem para contrariar os tempos adversos e desiguais para o sexo feminino. Só assim consegue um emprego respeitável e um salário adequado. Só assim pode sonhar em ser livre e feliz na sua lojinha de tabaco. Mas para tal Albert sacrifica a sua feminilidade. Num baile de máscaras que decorre certa noite no hotel, um dos elementos da casa pergunta-lhe porque não veio disfarçado, desconhecendo a verdade mais profunda por detrás. Mas o mesmo elemento responde-se a si mesmo mais tarde, inadvertidamente, dizendo que «uma vida sem decência é insuportável».

Mas Albert Nobbs é também uma janela para a homossexualidade. Albert não compreende a condição, que é afinal sua também. Estranha-se, pois, várias vezes, sobre a relação de Hubert com a sua mulher. Albert já não sabe ser outra coisa que não um homem. Porta-se como um. Age como um, mesmo que uma cena na praia com Hubert mostre por uns instante a sua feminilidade perdida. E, no final, é a masculinidade que Albert aprendeu a mostrar nos últimos trinta anos que decide o seu caminho.

Glenn Close oferece uma performance de se lhe tirar o chapéu. Ajudada por uma caracterização incrivelmente convincente, Close transforma-se num homem, quer na voz, quer na postura, quer nas reacções. Mas mais do que se transformar num homem, Close transforma-se num homem que esconde uma mulher por debaixo, uma mulher assustada já quase irreal e pouco presente – o verdadeiro sucesso de Close é ser capaz de mostrar, com apenas um olhar, com um trejeito fugaz, que essa mulher ainda está lá. A par de Close, McTeer é igualmente capaz de mostrar as duas facetas, pese embora que a personagem de McTeer é mais masculina do que a de Albert alguma vez chega a ser. Na cena da praia, as personagens de Close e McTeer vestem-se com roupa de mulher – aqui, Close e McTeer mostram a verdadeira força da sua performance: parecem, na verdade, dois homens vestidos de mulher do que duas mulheres vestidas de homem vestidas de mulher.

Infelizmente, o andamento do enredo é um grande problema que a edição não conseguiu resolver. Demasiado lento e pobremente focado, Albert Nobbs desperdiça o seu tempo em pormenores desnecessários. Nomeadamente, a relação de Helen com Joe é mal executada e acompanhada. Quando o filme se foca nestas duas personagens parece que entra num universo alternativo, numa novela de intrigas e afinidades que não interessam a ninguém. Os dois actores que desempenham estes papéis também não contribuem para prender a atenção do espectador. Se Close e McTeer são a força que empurra Albert Nobbs para o estrelato, Wasikowska e Johnson são a fraqueza que o impede de lá chegar. Mas, provavelmente, nem um melhor casting teria resolvido o problema. Na verdade, esta ramificação da história não deveria sequer ter sido desenvolvida. E talvez desse modo o final de Albert Nobbs não resultasse tão fraco, abrupto e, para grande desilusão, absurdo.

Os diálogos são estupendos (os sotaques irlandeses também). Os cenários e o guarda-roupa estão primorosamente elaborados. Close e McTeer estão excepcionais (e acabam nomeadas, respectivamente, para os Óscares de Melhor Actriz e Melhor Actriz Secundária); o restante elenco (tirando Wasikowska e Johnson) cumpre bem o seu papel. É uma verdadeira pena que a coragem tenha faltado a Rodrigo García e que as duas temáticas (emancipação feminina e homossexualidade) não tenham sido mais bem trabalhadas. Albert Nobbs poderia ter ido longe.


CLASSIFICAÇÃO: 3,5 em 5 estrelas


IMDB: http://www.imdb.com/title/tt1602098/

Site Oficial: http://albertnobbs-themovie.com/

Trailer:


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Filme: Jack & Jill (2012)


Adam Sandler tem-nos habituado às suas comédias baixas, pouco inteligentes e pouco sérias. Jack & Jill é tudo isso… e ainda pior. Marca um novo mínimo para a comédia. É uma produção amadora, quase insultuosa.

Jack (Adam Sandler) e Jill (também Adam Sandler!) são dois irmãos gémeos. Jack é um publicitário de sucesso em Los Angeles, onde vive numa sumptuosa casa com a sua mulher (Katie Holmes) e os seus dois filhos. Com o Dia de Acção de Graças a chegar, Jack teme a visita anual da sua irmã. Necessitada, agressiva e desajeitada, Jill é tudo o que Jack condena. Mas quando um grande trabalho surge na firma de Jack – um anúncio com Al Pacino (sim, ele mesmo!) –, Jill pode ser a única salvação de Jack.

A ideia de Adam Sandler a interpretar dois irmãos gémeos de sexos opostos é por si só aterradora. A execução é infinitamente pior. Agudizada por uma terrível edição, quando as duas personagens partilham o ecrã a monstruosidade da ideia assume os seus contornos mais provocadores. Também não ajuda nada que o argumento seja uma mixórdia de piadas de baixo nível, de previsibilidades e vulgaridades – e a tentativa ao cair do pano de emoção é uma afronta à inteligência do público. A personagem Jack não acrescenta nada à história – é uma personagem tão igual a tantos outros papéis de Sandler. A personagem de Jill (ignorando por um momento a pavorosa caracterização) acrescenta a mais – é irritante, extravagante, barulhenta e alienada. Se a concepção era que os gémeos representassem os pólos opostos da personalidade, falha redondamente.

Al Pacino… Porquê?... Por que haveria um actor do calibre deste senhor de manchar a sua reputação, o seu currículo e o afecto dos seus fãs com a participação neste filme?... Numa das suas primeiras falas em Jack & Jill, Pacino diz que «…está a perder a cabeça». É uma certamente não calculada ironia que reflecte bem o que espectador pensa ao longo dos 91 minutos. Além de Pacino, até Johnny Depp aparece momentaneamente em Jack & Jill – terá sido premeditado ou será que Depp estava à hora errada no sítio errado (e bem assim toda a equipa dos LA Lakers)?

O espectador que aprecia os filmes de Adam Sandler não desgostará de Jack & Jill. Todo o restante espectador abominará. E se é apenas a curiosidade que impele uma ida ao cinema, mais vale esperar alguns mesitos – é quase certo que Jack & Jill constará da programação de algum dos canais de televisão generalistas numa matiné de domingo.


CLASSIFICAÇÃO: 1 em 5 estrelas


IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0810913/

Site Oficial: http://www.jackandjill-movie.com/

Trailer: